Julie Glassberg para The New York Times
Julie Glassberg para The New York Times

Aranhas, balões e outras obras de arte

A mostra 'On Air', do artista argentino Tomás Saraceno, combina aracnologia, composição musical, engenharia e ambientalismo

Kimberly Bradley, The New York Times

18 de novembro de 2018 | 06h00

PARIS - "Oh, não! Eles a varreram!", exclamou Tomás Saraceno, os olhos escancarados enquanto espiava por uma porta no Palais de Tokyo em Paris. O artista argentino tornou-se vítima do fenômeno recorrente de uma equipe de limpeza que varre obras de arte.

Mas, desta vez, a arte tinha vida. Saraceno referia-se a uma aranha. O bicho e a delicada teia que ela tecera no canto da porta eram originalmente uma colaboradora e uma obra de arte ao mesmo tempo. Mas nem tudo estava perdido: 500 outras aranhas, encontradas em todo o edifício por meio de diapasões ainda são as pequenas participantes da grande mostra de Saraceno.

Intitulada "On Air" e estendendo-se por cerca de 6 mil metros quadrados, a exposição é a mais recente repetição da série bienal Carte Blanche do Palais de Tokyo, em que um artista recebe carta branca no maior espaço para exposições de arte contemporânea da França.Saraceno considera as aranhas e as suas moradas de seda autênticas obras de arte.

Mas as teias de aranha também são metáforas para a obra de Saraceno, que inclui esculturas flutuantes, instalações interativas e até mesmo experimentos com o voo humano movido a energia solar. As obras de arte e a pesquisa na qual se baseiam combinam e relacionam disciplinas que vão muito além do mundo da arte: astrofísica, engenharia, ambientalismo, termodinâmica, biologia, aracnologia e composição musical - frequentemente várias delas ao mesmo tempo.

"Ele é um grande artista, comparável a Marcel Duchamps ou mesmo a Leonardo da Vinci, que sempre se interessou por outras disciplinas e suas combinações", explicou Rebecca Lamarche-Vadel, curadora da exposição.

A arte não foi a primeira vocação de Saraceno. Ele estudou arquitetura na Argentina, onde nasceu, antes de se mudar para a Alemanha em 2001 e matricular-se na Städelschule, em Frankfurt.

Suas primeiras mostras refletiam flutuações acima do chão. "Cidades nas nuvens”, no museu Hamburger Bahnhof de Berlim em 2011, viu visitantes saltando pela sala em bolhas transparentes suspensas na sala de exposições.

Em 2009, ele estudou na Nasa. Desde 2012, é o artista residente do Massachusetts Institute of Technology.

Em "On Air", há um orador sobre um pedestal na entrada do Palais de Tokyo. Um stream de áudio ao vivo do Observatório Gravitacional Europeu, consórcio da Europa que mede ondas gravitacionais com uma antena localizada nos arredores de Pisa, na Itália, transforma-se em uma vibração que deveria estimular as aranhas a agir. 

"É um experimento para ver se podemos sentir as frequências dos buracos negros colidindo no espaço há bilhões de anos, traduzidas por meio de uma aranha", disse, dando risada. "É um pouco absurdo".

Uma sala escurecida mostra uma constelação de obras de arte feitas por aranhas, inclusive esculturas de teias construídas em estruturas especiais, bem como as teias comuns das próprias aranhas do Palais. Outras obras de arte, como um balão gigante feito de sacos plásticos reciclados que enche toda uma sala da exposição, tratam da questão da mudança climática, como o projeto "Aerocene" de Saraceno, uma experiência com o voo. 

Em seu estúdio em Berlim, Saraceno está trabalhando na dissociação do voo do homem dos combustíveis fósseis. Ele criou uma série de balões pretos movidos a energia solar e raios infravermelhos da terra. O projeto, segundo ele, tem um questionamento: "Poderemos encontrar uma maneira de levitar, sem qualquer violência para a terra?".

A obra de Saraceno parece utópica, mas está ancorada em questões atuais. 

"Não acredito que sua obra seja utópica, que é um conceito mais antigo", disse Esther Schipper, dona de uma galeria em Berlim que o representa. "Deveríamos chamar seu autor de visionário".

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