Jolene Lupo/Penumbra Foundation
Jolene Lupo/Penumbra Foundation

Trabalhadores de área industrial de Nova York ficam no limbo à espera de projeto imobiliário

Imigrantes que atuam no setor automotivo e industrial de Willets Point, no Queens, temem mudanças

Corey Kilgannon e Andrea Salcedo, The New York Times

06 de fevereiro de 2020 | 06h00

O centro do Queens abriga um dos bairros mais curiosos e selvagens da cidade de Nova York - um labirinto de ruas imundas, delineadas por precárias oficinas mecânicas, comércios movimentados e camaradagem de sobra. Mecânicos mergulham fundo sob os capôs abertos enquanto vendedores ambulantes aparecem na rua com ofertas de consertos rápidos e baratos.

O ruído dos equipamentos pneumáticos supera a brincadeira, em língua espanhola, entre os mecânicos. Um bafo com cheiro pungente do epóxi é exalado das oficinas, misturando-se aos apetitosos aromas dos carrinhos de comida latina que navegam nas vias lamacentas e repletas de poças.

“Esse tipo de lugar não existe mais”, afirmou Rahan Khan, cuja oficina fica espremida em uma galeria de estreitos estabelecimentos similares. “É o coração das oficinas mecânicas de Nova York.” Trata-se da obscura e favelizada região conhecida como Willets Point, a maior concentração de oficinas mecânicas e comércio de peças automotivas de segunda mão da cidade de Nova York, que fica cercada por vizinhos bem mais proeminentes: o estádio de beisebol Citi Field, o aeroporto de La Guardia e o centro de tênis onde o US Open é realizado todos os anos.

Faz tempo que as autoridades municipais consideram horrível essa encardida área industrial, além de um desperdício para o setor imobiliário, com potencial de se tornar o próximo bairro exuberante de Nova York. A última tentativa nesse sentido foi um megaprojeto revelado pela primeira vez há mais de uma década, mas postergado por disputas jurídicas e uma feroz oposição dos milhares de trabalhadores imigrantes para os quais a área tem sido, há muito tempo, um refúgio. Mas agora, com as obras finalmente começando, o fim parece próximo para esse enclave apelidado de "Triângulo do Ferro".

“Estamos praticamente em um limbo”, afirmou Ever Rivera, de 39 anos, imigrante salvadorenho que tem cinco filhos e trabalha como técnico em uma minúscula oficina chamada Carlos Auto Electric. “Eles nos encurralaram.” A área tem sido vital para fornecer trabalho aos recém-chegados que não falam bem inglês, não possuem documentação adequada nem certificação de mecânico de automóveis.

Em vez de ruas pavimentadas de ouro, os imigrantes recém-chegados encontram vias delineadas por borracharias, ferros-velhos e lojas de calotas, de escapamentos e especialistas em freios e transmissão. “O lugar pode não ser bonito, mas sempre ofereceu aos imigrantes uma oportunidade de realizar o sonho americano”, afirmou Sam Sambucci, dono de um ferro-velho e do terreno que o estabelecimento ocupa.

O governo municipal não disse praticamente nada a respeito de quando vai desapropriar e limpar o que resta do Willets Point para abrir caminho às fases avançadas do projeto na região norte, onde ficam as oficinas e lojas remanescentes. Desta maneira, centenas de trabalhadores aguardam um destino incerto, assistindo ansiosos às equipes de construção que aparecem todos os dias para realizar testes no solo dos terrenos que já foram desocupados, um dos primeiros passos para preparar a área para a construção a ser realizada.

O governo municipal comprou terrenos fragmentados de vários proprietários, muitos anos atrás, o que resultou no despejo de aproximadamente 200 estabelecimentos comerciais e na demissão de 1,7 mil trabalhadores; cerca de 75 negócios continuam funcionando por lá.

Na década de 1960, os donos de comércios do Queens contrataram um jovem advogado do bairro, chamado Mario M. Cuomo, anos antes de ele se tornar governador de Nova York, para impedir um projeto de desenvolvimento conduzido pelo mestre da engenharia Robert Moses, que certa vez descreveu a região como “horrível, uma desgraça para o distrito do Queens”.

Caminhar pelo Willets Point hoje é conhecer a visão de uma Nova York superada, uma cidade mais sombria. A área continua resistindo em meio a uma crescente onda de desenvolvimento de luxo. Enquanto regiões a serem desenvolvidas na cidade se tornam bens cada vez mais raros e lucrativos, a perspectiva da mudança parece mais difícil de negar para essa faixa de aproximadamente 60 acres próxima a novas torres residenciais com vista para o Willets Point.

As ruas, muitas sem pavimento, carecem de calçadas, sarjetas e bocas de lobo. São esburacadas e imundas. Para Sambucci, o governo municipal tem evitado intencionalmente instalar na região equipamentos básicos, como sarjetas e bocas de lobo, para mantê-la como uma terra de ninguém pronta para ser desenvolvida.

“Eles sempre negligenciaram essa região para poder qualificá-la como área degradada e chamar esse projeto de renovação urbanística”, afirmou Sambucci, cuja família comprou um terreno por aqui em 1951 e estabeleceu um ferro-velho no local.

Já Rivera afirmou que os trabalhadores já não confiam nas autoridades, seja para ajudá-los ou para dar uma pista de quanto tempo lhes resta. “Estamos simplesmente esperando a vontade de Deus”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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