Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Argentina é tomada por escândalos de corrupção

A prisão de figuras importantes são um marco na luta contra organizações criminosas no país

Daniel Politi, The New York Times

29 Agosto 2018 | 15h15

BUENOS AIRES - Historicamente, as investigações de corrupção na Argentina avançam num ritmo glacial, arrastando-se por um sistema judiciário frequentemente visto como aliado dos poderosos. Mas, recentemente, os argentinos foram surpreendidos pelas revelações de uma imensa investigação de corrupção: pelo menos 26 detenções de figuras importantes, das quais 15 permanecem na prisão.

À operação seguiu-se uma corrida sem precedentes entre 15 destacados líderes empresariais e dois nomes do alto escalão do governo na tentativa de estabelecer acordos com a promotoria. Então, os investigadores realizaram operações de busca e apreensão em imóveis pertencentes a Cristina Fernández de Kirchner, ex-presidente da Argentina.

A investigação atual teve início quando um juiz obteve cadernos de anotações feitas por Oscar Centeno, ex-motorista de um funcionário do ministério do planejamento, que coletava e distribuía remessas de dinheiro pela cidade.

Desde então, figuras poderosas implicadas no escândalo descreveram um esquema de propinas envolvendo licitações do governo durante os governos do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua viúva e sucessora, Cristina, que governaram de 2003 a 2015. Cristina é senadora, o que lhe confere certo grau de imunidade. Ela nega o envolvimento em qualquer irregularidade.

Os cadernos e outras provas deixam clara a existência de uma "organização criminosa formada por funcionários do governo" comandada pelo casal Kirchner, e também pelo ex-ministro do planejamento, Julio De Vido, que teria "buscado entre 2008 e 2015 o pagamento de somas ilegais de dinheiro por parte de cidadãos particulares, muitos deles envolvidos com as licitações de obras públicas", de acordo com documento do tribunal.

Os argentinos ficaram tão envolvidos nas reviravoltas do escândalo que o presidente Mauricio Macri comparou o caso a uma série de TV irresistível. "É melhor do que assistir a algo na Netflix", disse Macri, sucessor de Cristina na presidência.

A atenção dos argentinos foi cativada pela colaboração de figuras conhecidas com a investigação.

Esses acordos com a promotoria se tornaram possíveis graças a uma lei de 2016 que estabeleceu um mecanismo de negociação entre suspeitos e promotoria, trocando a cooperação por penas mais brandas.

Um momento de virada ocorreu quando um suspeito revelou que até 20% do valor das licitações de obras públicas eram desviados para os funcionários do governo responsáveis pela aprovação dos acordos.

O professor Ariel Coremberg, da Universidade de Buenos Aires, estimou que as propinas podem chegar a um total de pelo menos US$ 36 bilhões entre 2004 e 2015. "O suborno era como um imposto adicional, encarecendo o custo de qualquer projeto ou investimento", disse Coremberg.

"Se o resultado no longo prazo for um país menos corrupto, isso será positivo para a Argentina", disse Miguel Kiguel, ex-secretário das finanças do país.

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