Deanna Alejandra Dent para The New York Times
Deanna Alejandra Dent para The New York Times

Arizona contrata estrangeiros para substituir professores com baixos salários

A ação é tratada pelo governo como 'criativa e inovadora', mas sindicatos locais criticam a medida

Dana Goldstein, The New York Times

27 Maio 2018 | 11h00

GLENDALE, ARIZONA - A mais recente onda de trabalhadores imigrantes ocupando empregos americanos trouxe Donato Soberano das Filipinas para o Arizona dois anos atrás. Ele teve de pagar milhares de dólares a um intermediador de empregos e viveu durante algum tempo num apartamento com cinco outros trabalhadores filipinos. O interesse está no salário: dez vezes mais do que ele ganhava fazendo o mesmo trabalho em seu país natal.

Mas Soberano não trabalha como acompanhante terapêutico nem enfermeiro. Ele está num ramo que, atualmente, não paga o suficiente para atrair os americanos em maior número: Soberano é professor da rede pública de ensino.

Conforme aumentam os casos de professores que abandonam o cargo por causa do baixo salário e investimento no ensino, um movimento para recrutar professores no exterior está crescendo. 

Entre os estados atingidos mais recentemente pelo protesto está o Arizona, onde o pagamento dos professores é mais de US$ 10 mil inferior à média nacional de US$ 59 mil por ano, e a Carolina do Norte, onde o salário é US$ 9 mil inferior. O distrito escolar da Pendergast Elementary, onde Soberano trabalha, recrutou mais de 50 professores das Filipinas desde 2015. Eles recebem vistos da categoria J-1, permitindo que trabalhem temporariamente nos Estados Unidos, mas sem possibilidade de cidadania. Mais de 2.800 professores estrangeiros chegaram no ano passado por meio de vistos J-1, de acordo com o departamento de estado.

“Em momentos como esse, é preciso ser inovador e criativo no recrutamento", disse Patricia Davis-Tussey, diretora de recursos humanos da Pendergast. “Somos adeptos da diversidade e ganhamos muito com a experiência de intercâmbio cultural. O mesmo vale para nossos estudantes”.

Na Pendergast, onde os salários de aproximadamente US$ 40 mil por ano são uma fonte de dores de cabeça para os educadores americanos do distrito, Soberano se mostra grato pelo pagamento. Ele contraiu dívidas para encontrar um emprego nos EUA. Disse que usou a poupança e o crédito bancário para pagar US$ 12.500, o equivalente a aproximadamente três anos de salário nas Filipinas, a um consultor da Califórnia que recruta professores para vistos J-1.

“É necessário fazer alguns sacrifícios para deixar a família em casa", disse Soberano.  

Todas as noites, ele prepara aulas para os alunos e, a cada manhã, acorda às 4h para conversar com a mulher e as duas filhas adolescentes, que estão encerrando o dia em Manila. Apesar da separação, ele disse que a experiência tem sido recompensadora, “por lecionar em uma cultura diferente, e também do ponto de vista financeiro".

Os distritos escolares que recrutam professores como Soberano dizem não conseguir encontrar número suficiente de americanos dispostos a trabalhar pelo baixo salário oferecido. Mas os críticos afirmam que a prática mantém os salários baixos.

“Em vez de aumentar os salários, os distritos recorrem novamente ao recrutamento de estrangeiros como modo de solucionar a escassez de professores", disse Randi Weingarten, presidente da Federação Americana dos Professores, um sindicato de professores, em pronunciamento. Ela acrescentou que embora seu sindicato pretenda “lutar para que qualquer um trabalhando em nossas comunidades e educando nossas crianças receba salários justos, direitos e proteções no ambiente de trabalho, independentemente da nacionalidade, o uso do programa de vistos J-1 para preencher as vagas é um abuso do programa de intercâmbio".

De acordo com o departamento de estado, 183 professores do Arizona receberam novos vistos J-1 no ano passado, uma alta em relação aos 17 em 2010.

Administradores e pesquisadores dizem que educadores estrangeiros experientes podem ser uma opção melhor para os estudantes do que os substitutos que acabariam ficando com esses cargos. Mas as pesquisas apontam claramente que a rotatividade dos professores atrapalha o desenvolvimento acadêmico. Por causa das limitações do visto J-1, esses professores assumem aulas em caráter temporário e, sem um aumento nos salários e ajustes regulares, os administradores desses distritos dirão que é impossível atrair professores americanos em número suficiente e mantê-los na sala de aula.

As Filipinas foram o país que mais mandou professores aos EUA pelo visto J-1 em 2017, seguidas por Jamaica e China.

Soberano, cujo visto exige que ele volte ao país de origem após o fim de sua validade, diz torcer pela possibilidade de residir nos EUA como professor no longo prazo.

“Adoraria trazer minha família para cá", disse ele.

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