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Kalpesh Lathigra/The New York Times
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Arlo Parks quer que sua música soe como 'um cinema com som surround'

A cantora e compositora britânica de 20 anos faz música que captura a miséria moderna de uma forma que parece improvavelmente encorajadora

David Peisner, The New York Times - Life/Style

20 de fevereiro de 2021 | 05h00

No primeiro dia em que Arlo Parks apareceu em um apartamento de Londres para trabalhar com música com o produtor Luca Buccellati, em 2018, tinha apenas 17 anos. Ela ainda não era completamente Arlo Parks; a cantora e compositora havia recentemente tirado esse nome do éter, inspirada nos pseudônimos de dois artistas que ela admirava profundamente, King Krule e Frank Ocean, e visando encontrar algo um pouco mais curto do que seu nome de nascimento, Anais Oluwatoyin Estelle Marinho (ou "Isa" para os amigos). "Soou forte, mas também um pouco andrógino, e gostei disso", disse Parks em uma ligação via FaceTime no fim de novembro.

Buccellati tinha passado a manhã escrevendo e gravando uma música que chamou de The Breakup Song, com uma letra engraçada que se destinava, principalmente, a divertir seu colega de quarto. Quando Parks chegou, ele tocou a canção para ela, imaginando que seria um quebra-gelo do qual ela riria antes que se acomodassem para começar o trabalho de verdade. "Ela imediatamente disse: 'Uau, tire os vocais e me dê cinco minutos'", lembrou Buccellati.

A música ressoou em Parks. "Eu me lembro de pensar que o baixo remetia a algo como Voodoo e a bateria tinha essa energia crocante de Low End Theory", contou a artista, referindo-se aos álbuns clássicos de D'Angelo e A Tribe Called Quest. Ela rapidamente anotou a letra, gravou o vocal principal e os harmônicos e, em 15 minutos, terminaram Cola, instantâneo sobressalente, hipnótico e precisamente renderizado de um relacionamento em colapso. A música, o primeiro lançamento oficial de Parks, já foi tocada mais de 15 milhões de vezes no Spotify. "Aquele foi um momento decisivo para estabelecer o som de Arlo Parks", comentou Buccellati.

Parks não alterou muito seu processo desde então. "Se não vem como um raio, então talvez não deva ser feito. Sou muito impaciente. Estou acostumada com músicas que chegam de forma rápida e instintiva", explicou ela, sentada em seu quarto em West London, onde mora com os pais. Parks, agora com 20 anos, estava vestindo uma camisa de botões escura com estampa colorida. Sobre o ombro direito, fotos emolduradas de Jimi Hendrix, David Bowie e MF Doom formavam uma fileira ordenada sobre a parede branca.

"Cola" foi o primeiro de uma série constante de singles que mostram uma artista transitando entre uma mistura eclética de influências – Jill Scott, The Cure, Joan Armatrading, Tricky, a poetisa do Instagram Nayyirah Waheed – e escrevendo incisivamente sobre as ondas da desgraça moderna de uma maneira improvável e encorajadora. É um talento especialmente relevante nesta época de pandemia, que deixou tantas pessoas em um estado de isolamento ansioso.

"Parece que ela está sempre cantando para você, embora esteja contando histórias dela e dos amigos. Conectar com as pessoas dessa forma é um dom raro. Ela tem os pés no chão e é calorosa, honesta e divertida, mas suas letras são forjadas na escuridão. Os melhores artistas sempre têm essa dualidade", disse Paul Epworth, produtor que trabalhou com Adele, Florence and the Machine e Coldplay, e que produziu duas faixas do álbum de estreia de Parks, Collapsed in Sunbeams.

Parks afirmou que um senso de intimidade e conexão está no cerne do álbum: "Acho que nessa época em que o espaço entre as pessoas é tão pronunciado e o caos pode parecer opressor, as músicas tocam uma parte específica e vulnerável delas".

Seu olho afiado e sua psique suavemente ferida provaram ser valiosos para as composições. Super Sad Generation, outro fruto daquelas primeiras sessões com Buccellati, abre com Parks friamente definindo a cena:

"Quando foi que ficamos tão magros / E começamos a tomar cetamina nos fins de semana?"

 

Em outras canções mais antigas, detalhes exatos e substantivos próprios se acumulam: ritalina, paredes azuis-claras, comer Parma Violets – doce britânico popular – no caminho de volta da terapia, a camiseta que faz um ex ficar parecido com Gerard Way, o vocalista do My Chemical Romance.

"Sou uma pessoa muito sensorial, e certamente é assim que penso. Como é escuro o vermelho do suéter de alguém, o álbum que foi a trilha sonora de um outono específico, o nome da mãe de alguém – todas essas coisas criam uma imagem mais imersiva. Quero que minhas músicas soem como um cinema com som surround", descreveu a artista.

Essa ambição se realizou ainda mais em Collapsed in Sunbeams. O álbum, que leva o título de uma frase do livro de Zadie Smith Sobre a Beleza, foi composto e gravado durante a pandemia, mas as canções foram inspiradas na releitura do diário que Parks começou a escrever quando tinha 13 anos. "Esse álbum inteiro é basicamente meu diário. É uma cápsula do tempo da adolescência."

Ela trabalhou novamente com Buccellati na maioria das canções, hospedando-se em Airbnbs na região leste de Londres.

O álbum tem uma paleta sônica mais ampla do que os primeiros singles econômicos de Parks. Os arranjos estão mais cheios; as batidas, um pouco mais vivas. Mas é seu foco afiado como contadora de histórias que se destaca. Em Eugene, ela está morrendo de ciúme da melhor amiga por quem desenvolveu uma paixão e que se apaixonou por um cara.

"Você toca para ele os discos que te mostrei / Lê Sylvia Plath para ele / Achei que isso era nosso".

Arlo Parks, que é bissexual, examina relacionamentos fracassados com uma generosidade que desarma e um toque leve. Green Eyes, que foi inspirada no poema de Pat Parker My Lover Is a Woman, conta a história de uma ex-amante que "não conseguia segurar minha mão em público", mas o faz sem rancor em meio a uma batida arejada e embaralhada.

"Cada palavra e cada frase têm um propósito, mas tudo deve ser absorvido em um ritmo próprio. Ela dá espaço para que o público entre e saia de seu relacionamento com as canções. É o tipo de espaço em que, ao colocar Eugene pela 200ª vez no carro, você realmente ouve o que ela está dizendo o tempo todo", explicou o cantor e compositor Clairo, que contribuiu com a guitarra e a segunda voz na faixa Green Eyes.

O primeiro single do álbum, Black Dog, retrato empático de um amigo mergulhado em uma depressão profunda, foi lançado no início de maio e se tornou uma espécie de hino da pandemia. O fim trágico da história é que o amigo que inspirou a música se suicidou, mas, segundo Parks, escrevê-la "fez parte do processo de luto, assim como a reação do público. Receber mensagens de fãs, que estavam realmente solitários, dizendo que músicas como Black Dog os acalentaram e fizeram com que se sentissem seguros e acolhidos realmente aqueceu meu espírito".

Em um momento que tem sido tão desprovido de contato humano presencial, Collapsed in Sunbeams é um álbum doloroso de ouvir. Apesar do véu de tristeza que paira sobre muitas das músicas, em sua essência o álbum é uma celebração das pessoas e dos sistemas de apoio que nos livram das batalhas diárias contra o desespero.

Ele descreve um universo onde o amor, a luxúria, a bebida, o ciúme, a tristeza e, acima de tudo, as pessoas com quem compartilhamos tudo isso são a própria espinha dorsal da vida e não apenas mercadorias que aparecem e somem da tela de um laptop. O fato de essas linhas da vida terem sido rompidas no ano passado, ou pelo menos erodidas, pode trazer, às vezes, uma melancolia ainda mais profunda para a música.

Mesmo que a música de Parks seja, como Epworth colocou, "forjada na escuridão", ela não é consumida por ela. "Ela está procurando a luz. Acho mais difícil escrever sobre alegria porque é mais simples. Há mais complexidade nas coisas tristes. Mas sou uma otimista desafiadora", disse Parks. Esse vislumbre de possibilidade, essa crença de que a luz no fim de nosso túnel escuro coletivo poderia ser algo que não um trem em movimento, é o que faz da música de Parks uma parte de muitos kits de sobrevivência à pandemia.

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