Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Armas de guerra chegam às ruas da Suécia

Granadas e outros aparatos ilegais estão contribuindo para o aumento da violência entre gangues nas ruas de Estocolmo

Ellen Barry e Christina Anderson, The New York Times

08 Março 2018 | 10h00

ESTOCOLMO - Daniel Cuevas Zuniga tinha encerrado um turno da noite em janeiro e voltava para casa de bicicleta com a mulher em Varby Gard, subúrbio de Estocolmo, quando reparou num objeto esférico no chão. Ele parou e o apanhou.

Era uma granada de mão M-75. Fabricada para o exército da Iugoslávia e depois apreendida por paramilitares durante a guerra civil dos anos 1990, as granadas são cheias de explosivo plástico e 3 mil esferas de aço, adequada para ataques contra abrigos fortificados do inimigo. Quando Zuniga, 63 anos, tocou o objeto, o choque foi tão poderoso que a mulher dele, Wanna, que pedalava à sua frente, foi jogada para fora de sua bicicleta, coberta de ferimentos causados pelos estilhaços.

Armas produzidas em países distantes para guerras do passado estão chegando aos bairros de imigrantes daqui, acabando com a sensação de segurança dos suecos. A incidência de homicídios no país permanece baixa, mas ataques e tiroteios ligados a gangues estão se tornando mais frequentes, e o número de bairros classificados pela polícia como "afetados pelo crime, instabilidade social e falta de segurança" está aumentando. 

O crime e a imigração serão certamente temas importantes na eleição de setembro, bem como os tradicionais debates a respeito dos sistemas de ensino e saúde.

A violência entre gangues na Suécia, antes limitada aos subúrbios de baixa renda, começou a se espalhar. Nas cidades maiores, hospitais informam a ocorrência de confrontos armados em salas de emergência, e administradores escolares dizem que ameaças e armas se tornaram comuns. 

Dois homens de Uppsala, ambos na casa dos 20 anos, foram detidos recentemente sob acusação de arremessarem granadas contra o lar de um funcionário de um banco. A polícia acredita que a granada que matou Zuniga foi jogada por membros de uma gangue que tinham como alvo rivais ou policiais.

Paulus Borisho, 55, estava em sua lanchonete de kebabs, e a explosão que matou Zuniga fez suas janelas tremerem. Como muitos dos vizinhos, Borisho buscou asilo na Suécia para fugir de uma guerra. Como soldado das forças especiais de uma milícia libanesa, ele já tinha lidado com granadas. Para ele, o fato de tal arma ser encontrada a poucos metros de uma escola foi difícil de aceitar. "Agora, quando penso no futuro, sinto medo", disse ele. "Tenho medo pela Europa".

As armas ilegais costumam entrar na Suécia por meio da ponte Oresund, de 16 quilômetros, que liga a cidade de Malmo, no sul do país, à Dinamarca. A fronteira com a Dinamarca é aberta, e não há efetivo policial suficiente para revistar cada veículo. Até o ano passado, as granadas de mão eram classificadas como "produtos inflamáveis", e não como armas.

"Perdemos a confiança das pessoas que vivem e trabalham nessa região", disse Gunnar Appelgren, superintendente de polícia e especialista em violência entre gangues.

O partido de extrema direita da Suécia culpa a política liberal de imigração do governo pela alta no crime. A maioria das autoridades policiais atribui a violência entre gangues a um fracasso na integração, citando um estudo recente de uma gangue de rua sueca que revelou que 24% de seus membros eram suecos, e 42% tinham nascido na Suécia.

Preso à parede do escritório de Affixed na Central de Polícia de Estocolmo há um gráfico mostrando o aumento no uso de granadas de mão. Até 2014 havia apenas um punhado de casos por ano. Em 2015, esse número deu um salto: 45 granadas foram apreendidas pela polícia, e 10 outras foram detonadas. No ano seguinte, 55 foram apreendidas e 35, detonadas. Um aumento modesto foi observado em 2017, quando 39 foram apreendidas e 21, detonadas.

O acordo de paz de Dayton, que pôs fim à guerra da Bósnia, exigia que  os paramilitares desmobilizassem seus arsenais. Vendedores na Bósnia e na Sérvia têm conexões na diáspora da Suécia e estão tão ansiosos para se livrar do excesso de granadas que as incluem gratuitamente na compra de AK-47s, disse Appelgren. Na Suécia o preço de rua de uma granada de mão é 100 coroas, ou US$ 12,50. 

"Não sei de nenhum outro país ocidental onde as granadas sejam tão presentes. Nossa hipótese é que são usadas para mandar um recado. Não tanto como arma, mas como ferramenta de intimidação. Não é preciso fazer mira perfeita. O objetivo do atacante não é matar uma pessoa em particular", explicou Manne Gerell, professor de criminologia da Universidade de Malmo.

Quanto a Zuniga, a Suécia tinha lhe tratado bem. Ele tinha imigrado do Chile em 1985. Encontrou trabalho como auxiliar de saúde e era um homem imenso e simpático que chamava todos por algum apelido, Bandito, Diablo, Loco. Mas, nos últimos tempos, ele se queixou dizendo que não se sentia seguro.

Varby Gard produziu uma gangue de rua, a Rede Varby Gard, que é formada por imigrantes de primeira e segunda geração vindos da Finlândia, dos Bálcãs e da África, disse Lars Broms, detetive que investiga a morte de Zuniga. Dois rapazes de 18 anos foram detidos.

Zuniga, que se aproximava da aposentadoria, tinha planejado seus últimos anos, poupando dinheiro para construir uma casa na Tailândia, onde vivia a família da mulher. Ele disse aos amigos que pretendia partir em abril. Em vez disso, no mês passado, seu velório foi realizado numa capela de Estocolmo.

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