Ruth Blasco
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Pesquisadores descobrem armazenamento de carne em caverna de Israel

Ossos foram usados para conservar carne há 420 mil anos; estudo foi publicado na revista científica Science Advances

Nicholas St. Fleur, The New York Times

26 de outubro de 2019 | 06h00

Fechada há milênios, a Caverna de Qesem, na região central de Israel, é uma cápsula do tempo feita de calcário, com informações sobre as vidas e as dietas das pessoas do Paleolítico, de 200 mil a 420 mil anos anos atrás. Dentro dela, humanos ancestrais fatiavam sua caça com lâminas de pedra e assavam a carne em fogueiras.

“Acredita-se que os primeiros hominídeos de Denisova consumiam imediatamente qualquer alimento que conseguissem, sem armazenar, preservar ou guardar nada para depois”, afirmou Ran Barkai, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Nem todas as refeições, porém, eram feitas logo após as caçadas. Barkai e seus colegas descobriram que os primeiros habitantes da caverna também podem ter armazenado ossos de animais recheados de tutano por até nove semanas.

A descoberta pode ser o primeiro exemplo de humanos da Pré-História armazenando comida para ser consumida posteriormente, e também pode oferecer conhecimento a respeito das habilidades de planejamento dos humanos ancestrais em relação às suas necessidades futuras. O estudo foi publicado na revista científica Science Advances.

A equipe de Barkai examinou aproximadamente 82 mil fragmentos de animais encontrados na Caverna de Qesem (a maioria deles, cervos) e notou marcas incomuns de talhos pesados nas terminações de alguns ossos de pernas. Pesquisadores descobriram que os hominídeos de Denisova ancestrais, que compartilhavam características do Homo sapiens e do Homo neanderthalensis, removiam a pele seca dos ossos para chegar ao tutano. Sua hipótese é que as marcas de corte seriam indício de que os ossos eram armazenados para que o tutano fosse consumido posteriormente.

Para testar a ideia, a equipe coletou ossos de pernas de cervos mortos recentemente e os armazenou por várias semanas em condições semelhantes às encontradas dentro da caverna. Após cada semana, um pesquisador removia a pele seca, talhava o osso para abri-lo e analisava o valor nutritivo do tutano.

A equipe descobriu que as marcas resultantes nos ossos talhados eram similares às observadas na Caverna de Qesem. “Foi uma surpresa”, afirmou Ruth Blasco, zooarqueóloga do Centro Nacional de Pesquisa da Evolução Humana, da Espanha, uma das principais autoras do estudo. “Os denisovanos de Qesem demonstraram um comportamento muito moderno em suas estratégias de sobrevivência.”

Um teste químico demonstrou que, após nove semanas, a gordura do tutano começou a se degradar, e somente uma pequena parte continuava nutritiva. Briana Pobiner, paleoantropóloga do Museu de História Natural do Instituto Smithsonian, em Washington, comemorou o estudo e afirmou que, se essa remoção de pele seca realmente deixa uma marca de talho peculiar, “agora cabe a nós, zooarqueólogos, procurar por esses traços em conjuntos de fósseis mais antigos, para ver se conseguimos registrar esse hábito de armazenamento de comida ainda mais antigamente”.

E esse tutano era saboroso? Um dos pesquisadores não resistiu à tentação de prová-lo. “É como uma salsicha mole, sem sal e um pouco passada”, afirmou Jordi Rosell, arqueólogo da Universidade Rovira i Virgili, na Espanha. “Posso dizer que o sabor não é tão ruim, talvez um pouco mais rançoso nas últimas semanas, mas nada mau.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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