Tracy Nguyen;The New York Times
Tracy Nguyen;The New York Times

Schwarzenegger repara imagem com tom de moderação e dá conselhos sobre dinâmica política

Em meio a uma pandemia, Schwarzenegger tem sido procurado em sua mansão em Los Angeles, adotando seu papel improvável de 'estadista idoso' da Califórnia

Shawn Hubler, The New York Times

27 de maio de 2021 | 05h00

LOS ANGELES – Arnold Schwarzenegger se acomodou em uma grande poltrona reclinável de couro no pátio dos fundos de sua mansão. Sua cachorrinha, Cherry, acomodou-se a seus pés, usando uma gravata-borboleta.

No gramado, seu miniburro, Lulu, estava fugindo para os arbustos. Seu minicavalo, Whiskey, vagava perto de um busto de mármore de Abraham Lincoln. No bar, uma réplica – do tamanho de uma casa de boneca – do tanque que ele dirigiu durante o período em que serviu no Exército austríaco. Um Hummer movido a biocombustível estava na garagem. Havia uma miniatura de 2,7 metros da Estátua da Liberdade no foyer. As coisas eram muito grandes ou muito pequenas.

É aqui que Schwarzenegger tem feito o julgamento pessoal desde que foi ao Dodger Stadium em janeiro para se vacinar, evento que foi visto 20 milhões de vezes nas redes sociais. As pessoas clamam por uma visita agendada ao pátio dos fundos – não apenas as pessoas que são do show business, mas também consultores políticos, apresentadores de talk show e pessoas que tentam destituir o governador da Califórnia Gavin Newsom.

Subindo o Mandeville Canyon e atravessando o portão de ferro forjado, eles vêm falar de Newsom com Schwarzenegger. Geralmente, acabam conversando sobre Schwarzenegger com Schwarzenegger.

"Por que fui eleito? Por que Trump foi eleito? Porque as pessoas estavam insatisfeitas com os políticos. Elas odeiam os políticos. Não confiam neles. Essa é a história predominante", disse Schwarzenegger, de 73 anos, que enfrentou uma onda de angústia populista em 2003 para se tornar o 38º governador da Califórnia, vencendo a votação que removeu Gray Davis do cargo.

Já se passaram dez anos desde que Schwarzenegger deixou a capital, Sacramento. Astro de cinema de ação que foi eleito – e reeleito – com a promessa de resgatar a Califórnia dos excessos democratas, acabou com um índice de aprovação de 27% e um escândalo pessoal que pôs fim a seu casamento.

A Califórnia, porém, é a terra da segunda chance – e da terceira e da quarta. Schwarzenegger não só reparou sua imagem como fez com que a Califórnia recalibrasse a opinião a respeito de suas contribuições. É uma figura política mais popular hoje do que quando foi eleito, um feito para um republicano em um estado tão democrata.

As razões são tão abrangentes e pequenas quanto as razões pelas quais a Califórnia o elegeu inicialmente. Parte delas tem a ver com a pandemia. Algumas têm a ver com o ex-presidente Donald Trump. Sua adoção do bipartidarismo tem um papel, assim como a fixação do estado em votações de destituição de cargo – sem mencionar Whiskey e Lulu, que roubaram a cena em uma série de vídeos caseiros de serviço público que ele postou durante a pandemia. Mas muito disso é o próprio Arnold – a única pessoa na história dos 170 anos do estado a se tornar governador depois de uma votação de destituição de cargo – apenas sendo Arnold.

Schwarzenegger convenceu governadores passados e atuais a se juntar a ele em um anúncio promovendo o uso de máscara e convocou seus animais de estimação, seus filhos, sua equipe de funcionários e a namorada, uma fisioterapeuta do oeste de Los Angeles, a ajudar a produzir anúncios de serviço público sobre o distanciamento social e a lavagem das mãos. Arrecadou milhões de dólares no ano passado para a compra de equipamentos de proteção à saúde, sendo que, dessa quantia, US$ 1 milhão foi doado pelo próprio astro. Durante a eleição, ele gastou US$ 2,5 milhões em oito estados para manter os locais de votação abertos.

Em janeiro, quando as falsas alegações de Trump de fraude eleitoral incitaram uma multidão a invadir o Congresso, Schwarzenegger postou um discurso comparando as ações ao saque de bairros judeus que levou o nome de Kristallnacht, ou Noite dos Cristais, em 1938, perpetrado pelos nazistas europeus. O vídeo de sete minutos atraiu quase 78 milhões de visualizações apenas nas redes sociais.

Há também o Instituto Schwarzenegger de Política Estatal e Global na Universidade do Sul da Califórnia, sua nova série de animação infantil, seu próximo programa de espionagem na Netflix e a cúpula ambiental que ele está organizando na Áustria.

Segundo ele, nada disso tem a ver com a ideia de concorrer novamente a um cargo público. "Estadista idoso" é como ele descreve seu papel agora. "Quando deixa o cargo, você percebe – bom, eu percebi – que não pode simplesmente interrompê-lo assim. Só porque terminei aquele trabalho, que é apenas uma espécie de trabalho temporário, significa que só tenho interesse temporário? Não! É como nos esportes: você passa a acompanhar".

Enquanto a campanha de votação para destituição do cargo, liderada pelos republicanos da Califórnia, avançava para ser realizada provavelmente em novembro, cerca de meia dúzia de candidatos a assumir o cargo de Newsom, incluindo alguns democratas, procurou Schwarzenegger confidencialmente em busca de apoio, de acordo com seus assessores. Ele os vê presencialmente ou via FaceTime ou Zoom; "Quero ver o rosto das pessoas", disse ele, brandindo seu iPad.

Ele oferece conselhos sobre a dinâmica política, mas não endossou Newsom ou outro rival, nem se posicionou a favor ou contra a votação para destituição. "Todo mundo que está interessado entrou em contato comigo, conversou comigo e recebeu conselhos sobre o assunto. Descrevo o cenário às pessoas e conto como foi minha experiência. Não encorajo nem desencorajo ninguém", contou Schwarzenegger.

Em tempos hiperpartidários, essa neutralidade é uma exceção. Embora esteja um pouco afastado do Partido Republicano e tenha chamado Trump de "o pior presidente de todos os tempos", ele tem defendido a moderação e olhado para além do partido. O democrata que ele derrotou para se tornar governador, Davis, agora é considerado um amigo.

Astro global casado com uma pessoa da família Kennedy, Schwarzenegger veio para Sacramento à custa de Davis, democrata liberal azarado o suficiente para estar no comando durante a crise das pontocom, do 11 de setembro e dos apagões.

Ele não tinha planejado concorrer, embora os líderes republicanos tenham implorado e Davis o tenha enfrentado em uma reunião na qual ele queria somente fazer lobby para sua causa principal, os programas pós-escolares.

Ele revelou que sua ex-esposa, Maria Shriver – cujas contas públicas ecoaram suas lembranças –, relutou em arrastar a família para os holofotes da política. Estava indeciso até que Jay Leno o levou ao seu sofá no Tonight Show e o público veio abaixo. "Deixo minha boca falar por si mesma", comentou, ainda rindo de sua alegria quando foi dito que concorreria a governador. Mas ele disse que, quando voltou para casa, Shriver estava chorando.

Uma maioria de 55,4% dos eleitores decidiu destituir Davis, e uma pluralidade de 48,6% escolheu Schwarzenegger como seu substituto. Como governador, prometeu revisar a maneira como as decisões orçamentárias estaduais eram tomadas. Suas propostas financeiras não deram certo, mas ele venceu as reformas eleitorais estaduais que, com o tempo, dificultaram a tomada de decisões por parte dos extremistas de ambos os partidos.

Uma comissão imparcial substituiu a "gerrymandering", a divisão partidária arbitrária que define os limites dos distritos legislativos, dificultando sua manipulação pelos partidos. Com isso, o sistema primário da Califórnia dos "dois principais" colocou mais políticos moderados de ambos os partidos na eleição.

Mas a aprovação de tais reformas consumiu quase todo o capital político de Schwarzenegger quando ele deixou o cargo. Olhando para trás, ele acredita que a votação de destituição do cargo foi principalmente uma expressão de forças sociais muito maiores: "Em 2003, estávamos saindo de uma recessão mundial – foi um fenômeno global – e ao lado disso estavam os problemas de estado."

O escândalo corroeu a própria imagem de Schwarzenegger quando, meses depois que deixou o cargo, foi divulgada a notícia de que ele teve um filho com uma empregada doméstica em meados da década de 1990. Foi a gota d'água para Shriver, que o defendeu em 2003 depois que várias mulheres denunciaram ter sido assediadas por ele. "O fim do casamento foi meu maior erro. Quanto maiores eles são, maior a queda. Eu não podia me queixar; fui responsável por isso. Eu era o governador e, claro, caí lá de cima", afirmou Schwarzenegger.

Seus filhos são todos adultos agora, e ele é avô. Aquela poltrona reclinável no pátio dos fundos o ajudou a se recuperar de uma cirurgia cardíaca em 2018. Uma pesquisa do YouGov.com deste ano revelou que ele era o republicano mais popular do país, com 51% de aprovação. "Meu pai sempre me aconselhou: 'Seja útil.' É isso que estou sempre tentando fazer", completou o ator.

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