Randall Haas via The New York Times
Randall Haas via The New York Times

Descoberta no Peru ossada de jovem caçadora de animais de grande porte

Cientistas estão divididos quanto às implicações sobre as descobertas envolvendo os papéis dos gêneros

James Gorman, The New York Times - Life/Style

08 de dezembro de 2020 | 05h00

A descoberta da ossada de uma jovem, que data de nove mil anos, enterrada com o que os arqueólogos dizem ser um “kit de ferramentas de caça” nos altiplanos andinos do Peru, desafia um dos dogmas mais aceitos sobre as sociedades de caçadores coletores - de que os homens caçavam e as mulheres tinham a função de coletar o alimento.

Randy Haas, arqueólogo da universidade da Califórnia, em Davis, e um grupo de colegas, num estudo publicado na revista Science Advances, concluíram que a jovem era uma mulher que participava das caças de vicunha e de cervos que eram uma parte importante da sua dieta alimentar.

A descoberta de uma mulher caçadora é inusitada. Mas Haas e seus colegas vão mais longe no tocante à divisão de trabalho nesse período nas Américas, afirmando que pesquisa adicional mostra algo próximo de uma participação igualitária de ambos os sexos no exercício da caça. Em geral, concluíram, “as mulheres desse período antigo nas Américas eram caçadoras de animais de grande porte”.

Outros cientistas consideram convincente a afirmação de que a ossada é de uma mulher caçadora, mas para alguns os dados não respaldam o entendimento mais amplo.

Segundo Robert L. Kelly, antropólogo da universidade de Wyoming, que tem escrito extensivamente sobre os caçadores coletores, embora o esqueleto da jovem deva ser realmente de uma caçadora, ele não está convencido, pela análise de outras descobertas, que “a prevalência de caçadores homens e mulheres fosse quase paritária”. As amostras recolhidas pelos pesquisadores foram pequenas, disse ele, observando que nenhum dos outros túmulos era claramente de mulheres caçadoras.

Para Bonnie Pitblado, antropólogo da universidade de Oklahoma, as conclusões estão bem fundamentadas e constituem uma ideia importante para futura avaliação”. Os autores poderiam questionar mais os papéis de gênero e o que os determinava, afirmou ela, qualificando o estudo como “uma contribuição realmente animadora” para estudos dos primeiros colonizadores das Américas.

Nas sociedades mais recentes e contemporâneas de caçadores coletores, disse Haas, está bem determinado que a caça é tarefa predominantemente masculina. Evidências arqueológicas tendem a apoiar a conclusão de que os papéis de gênero no passado eram similares. Ocasionalmente, restos mortais de mulheres estavam associados a materiais que sugeriam que elas eram caçadoras, mas os exemplos eram tratados como casos à parte. E se não fossem, ele sugere, e a visão geral da caça precisasse ser ajustada?

Haas e os outros arqueólogos encontraram o túmulo da jovem com materiais de caça no sítio arqueológico de Wilamaya Patixa no distrito de Puno, ao sul do Peru, a uma altitude de mais de 3.900 metros. A. Pilco Quispe, colaborador local encontrou os primeiros artefatos nessa área em 2013. Em 2018, trabalhando com membros da comunidade, Haas e os outros colegas escavaram uma área de 37 metros quadrados, recuperando 20 mil artefatos. Encontraram ali cinco túmulos com os restos mortais de seis pessoas, um deles da jovem caçadora.

A descoberta foi particularmente empolgante. Um dos seus colaboradores encontrou pontas de projéteis e uma coleção de pontas e outras ferramentas de pedra, junto com a ossada.

E como se verificou, a pessoa enterrada, que agora é identificada como WMP6, era uma mulher de idade entre 17 e 19 anos de idade. Seus ossos são mais leves do que os de um homem e um estudo de proteínas no esmalte dos dentes, técnica relativamente nova para identificação do sexo, mostrou que se tratava de uma mulher.

Haas examinou 429 túmulos nas Américas que remontam 14.000 a 8.000 anos e identificou 27 indivíduos cujo sexo foi determinado e que foram encontrados com equipamentos de caça de animais de grande porte. Onze eram mulheres e 16 eram homens. Haas admite que os dados não são conclusivos e que a única ossada que era inegavelmente de uma mulher foi a de Wilamaya Patixa. Mas há evidências preponderantes de que 30% a 50% dos caçadores de animais de grande porte eram mulheres.

Essa conclusão é considerada inconsistente por Kelly. Dois dos túmulos eram de bebês, que segundo Haas e seus colaboradores foram enterradas com artefatos sugerindo que seriam caçadores. E Kelly alertou quanto a se dar demasiada atenção aos túmulos. “A interpretação de material enterrado em túmulos como ato simbólico, cultural, não é simples ou clara.

Ele critica a interpretação de outras ossadas também, afirmando que: “Se aceitarmos a WMP6 como a única mulher caçadora na mostra, isto sugere que a prevalência mais provável de mulheres caçadoras seja de 10%. O que não me surpreenderia”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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