Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Estudos dão novas indicações de como as vítimas do Vesúvio morreram

Suas mortes foram terrivelmente dolorosas, encurraladas em casas muito quentes

Jennifer Pinkowski, The New York Times

03 de fevereiro de 2020 | 06h00

Os bebês e as crianças se amontoaram nas casas de pedra. As mulheres se colocaram a frente delas. Os homens foram os últimos. Todos haviam fugido de Herculano no dia 24 de agosto de 79 d.C., quando o Monte Vesúvio começou a espalhar destruição, assim como fez em Pompeia e em outros assentamentos romanos perto da baia de Nápoles.

Leia Também

Rios Vigiados

Enquanto Pompeia foi consumida pelas cinzas, Herculano queimou por causa de um fluxo piroclástico - um rio extremamente quente, denso e rápido feito de cinzas, gás e rochas. Na praia da cidade, naquele dia morreram centenas de pessoas. Os restos mortais de 340 delas já foram desenterrados desde 1980 - alguns nas casas de pedras, conhecidas como fornici, e outras na praia.

Há muito tempo se debate como elas teriam morrido. Uma hipótese que tem predominado é que o seu sangue e cérebro se volatilizaram por causa do calor extremo do fluxo piroclástico. Em outro local da cidade, alguns pesquisadores propuseram que o cérebro de pelo menos uma pessoa virou vidro.

Alguns estudos publicados recentemente apresentam novas evidências da maneira como o Vesúvio matou algumas pessoas de Herculano. Uma delas, publicada pela revista Antiquity, contesta a hipótese da evaporação. Os pesquisadores que a publicaram afirmam que a condição dos ossos das pessoas  nos fornici sugere que elas foram protegidas da morte instantânea pela estrutura de pedra em que haviam procurado abrigo e pela massa de tecidos corporais de todo o coletivo. Esta proteção os isolou do calor intenso do fluxo, mas eles podem ter sofrido mais porque foram sufocados ou asfixiados.

Os resultados de outra equipe publicados na revista New England Journal of Medicine defendem que o calor do fluxo piroclástico vitrificou o cérebro de pelo menos uma vítima, transformando-o em vidro que se preservou por muitos séculos.

Os cientistas do primeiro estudo analisaram as costelas de 152 indivíduos encontrados em seis das 12 casas de pedras. Eles se concentraram nas microestruturas de cristal dos ossos, que mudam com a exposição ao calor, e na quantidade do colágeno remanescente. Os dados mostraram que as pessoas que se refugiaram nas casas de pedra ficaram expostas a temperaturas de cerca de 260ºC.

Tim Thompson, professor da Universidade Teeside, na Inglaterra, e coautor do estudo, acredita que há duas razões para estes resultados. Uma é que as casas de pedra protegeram as pessoas do fogo direto e do calor do fluxo. Também pode ter influído o número de pessoas que se amontoaram em cada fornici, formando um escudo de proteção recíproca com os próprios corpos.

Por outro lado, isto pode ter prolongado a sua agonia. Quando o fluxo piroclástico invadiu a praia, os escombros se amontoaram nas saídas das casas, prendendo no seu interior poeira, gases e gente.

“Acho - e isto é mera especulação - que provavelmente estas pessoas sufocaram, e não morreram pelo calor”, disse o dr. Thompson. O calor crescente então assou, e preservou, os seus restos mortais.

O segundo estudo examinou um homem encontrado no Collegium Augustalium, um edifício da rua principal de Herculano, a alguma distância da beira do mar. O seu cérebro, disse Pier Paolo Petrone, antropólogo forense da Universidade Federico II de Nápoles, e um dos autores do estudo, se transformou em vidro em consequência do calor elevado, e o crânio da vítima explodiu.

Segundo o dr. Thompson, a diferença entre as suas vítimas na beira do mar e a fatalidade da rua principal do dr. Petrone pode ser explicada pelos abrigos que elas encontraram.

“Os nossos indivíduos ficaram presos nesta espécie de fornos  de pedra, enquanto o seu indivíduo se encontrava em um edifício comum - muito mais exposto e muito mais diretamente afetado pelo fluxo piroclástico em si”, ele disse, acrescentando que os resultados dos dois estudos não se contradizem necessariamente.

Kristina Killgrove, uma bioarqueóloga da Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, que estudou os restos mortais esqueléticos em Oplontis, afirmou que vê com ceticismo as descobertas da equipe do Dr. Petrone.

“Embora a sua análise seja intrigante, não acredito que eles tenham provado que se trata de material cerebral humano, nem tampouco eles descartaram outras origens”, ela disse.

Mas, acrescentou: “Este novo trabalho mostra que os pesquisadores deveriam renovar as suas investigações quanto às causas e à forma da morte em Oplontis, Pompeia e em outros sítios da área do Vesúvio”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Itália [Europa]vulcãoarqueologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.