Zhaoyu Zhu para The New York Times
Zhaoyu Zhu para The New York Times

Arqueólogos descobrem mais antigas ferramentas de pedra encontradas fora da África

Artefatos indicam que nossos ancestrais chegaram à Ásia muito antes do estimado

Carl Zimmer, The New York Times

23 Julho 2018 | 10h15

As ferramentas de pedra mais antigas já encontradas fora da África foram descobertas recentemente na China, informaram cientistas. Criadas por hominins, membros antigos da linhagem humana, estima-se que as pedras lascadas tenham até 2,1 milhões de anos.

A descoberta pode acrescentar um novo capítulo à história da evolução dos hominins, indicando que algumas espécies teriam deixado a África muito antes do que o estimado anteriormente. A idade das ferramentas indica que os hominins que as criaram eram pequenos macacos bípedes, com cérebros de tamanho comparável ao do chimpanzé. A linhagem humana surgiu na África; os ancestrais dos humanos modernos se distinguiram dos ancestrais dos chimpanzés há mais de 7 milhões de anos.

Em 1891, o explorador holandês Eugene Dubois descobriu um crânio semelhante ao de um ser humano na Indonésia e determinou que este teria aproximadamente meio milhão de anos. Posteriormente, os paleoantropólogos o batizaram de Homo erectus, espécie que foi subsequentemente encontrada em muitos outros sítios da Ásia; alguns espécimes tinham até 1,6 milhão de anos. Esses hominins tinham mais ou menos a altura dos humanos atuais, e cérebros relativamente grandes. Se o cérebro dos chimpanzés corresponde a cerca de um terço do nosso, o cérebro do Homo erectus correspondia a quase dois terços.

Na África, os paleoantropólogos descobriram um registro ainda mais completo de fósseis de hominins. Os mais antigos são de mais de 6 milhões de anos atrás. Os primeiros espécimes desse tipo eram capazes de andar sobre as duas pernas, mas eram baixos e seu cérebro era comparável ao de chimpanzés.

Há cerca de 1,9 milhão de anos, o Homo erectus ou algum parente próximo estava avançando rumo à África Oriental. Muitos paleoantropólogos passaram a acreditar que o Homo erectus foi o primeiro a migrar para fora da África. Mas essa conclusão começou a parecer menos óbvia nos anos 1990, com a descoberta de fósseis de hominins mais antigos na Ásia. Em Dmanisi, na Geórgia, cientistas encontraram fósseis antigos, de até 1,75 milhão de anos. Algumas ferramentas de pedra encontradas ali pareciam ser ainda mais aintigas: 1,82 milhão de anos.

Em 1964, pesquisadores descobriram um crânio de Homo erectus num município do oeste da China chamado Lantian. Estimativas iniciais calcularam que o fóssil tivesse 1,15 milhão de anos. Mas, em 2001, o geólogo Zhaoyu Zhu, da Academia Chinesa de Ciências, em Guangzhou, e seus colegas determinaram que o crânio tem na verdade 1,63 milhão de anos.

No levantamento realizado na região em torno do fóssil, Zhu e seus colegas encontraram também o que pareciam ser ferramentas de pedra a uma profundidade de 60 metros num canal. Foram encontradas mais de cem peças.

No novo estudo, eles argumentam que o dano observado nas pedras não pode ter ocorrido naturalmente. As formações rochosas dos arredores foram criadas a partir do solo fértil, e não contêm pedras com o mesmo tamanho ou consistência observados nas ferramentas.

Os pesquisadores argumentam que os hominins de Lantian devem ter viajado até córregos da montanha para encontrar as pedras certas para a confecção de ferramentas. Os hominins transportavam as ferramentas consigo para obter alimento, usando pedras com extremidades afiadas para cortar a carne das carcaças de animais.

Para determinar a idade das ferramentas, os pesquisadores se valeram das mudanças no campo magnético do planeta. Os geofísicos aprenderam a determinar com exatidão o momento das inversões magnéticas. Esse método é útil para calcular o período de origem de material encontrado em camadas de pedra. A equipe calcula que as ferramentas tenham 2,12 milhões de anos.

E, com isso, torna-se improvável que o primeiro hominin a deixar a África tenha sido o Homo erectus, de acordo com o paleoantropólogo Robin Dennell, da Universidade de Exeter, que se juntou à equipe de Zhaoyu Zhu em 2010.

Ele especulou que um ramo muito anterior da árvore humana teria desbravado novas regiões. "De repente, temos um primata capaz de tirar carne das carcaças, e isso abriu para ele um novo mundo", disse Dennell. "Essa simples tecnologia foi capaz de tirá-lo da África e fazê-lo atravessar a Ásia".

Mas o paleoantropólogo John J. Shea, da Universidade Stony Brook, em Nova York, ainda não se convenceu de que as pedras foram moldadas intencionalmente. E ele não se mostrou inclinado a aceitar apenas as ferramentas como evidência da presença dos hominins na Ásia há mais de 2 milhões de anos. 

"Não podemos extrapolar: se não há fósseis de hominins, não podemos supor a presença de hominins", disse.

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