Emile Ducke / The New York Times
Emile Ducke / The New York Times

A casa assombrada dos soviéticos ganha vida nova em Kaliningrado

Os moradores da cidade na região mais ocidental da Rússia procuram um significado em um edifício que muitos consideram um erro arquitetônico flagrante. “É feio, mas é nosso.”

Andrew E. Kramer, The New York Times - Life/Style

08 de março de 2021 | 05h00

KALININGRADO, RÚSSIA - Yevgenia Kvasova ainda era jovem quando viu algo parecido com uma gigantesca cabeça erguida no centro de sua cidade, no extremo oeste da Rússia. "Ela me lança um olhar macabro sempre que saio de casa", disse Kvasova, hoje com 62 anos, referindo-se à estrutura, conhecida como a Casa dos Sovietes, que, de fato, ostenta uma série de varandas em formato de olho, que parecem observar a todos de sua fachada.

Mesmo os arquitetos que admiram o design original e arrojado, uma mistura dos estilos modernista e brutalista, admitem que a Casa dos Sovietes não cumpriu sua promessa como símbolo do controle da União Soviética sobre os antigos territórios alemães capturados durante a Segunda Guerra Mundial.

Em vez disso, o edifício se tornou um símbolo das falhas do sistema soviético, pois a construção de baixa qualidade e os defeitos estruturais jamais permitiram que ele fosse ocupado.

Agora, 42 anos depois, um governador regional anunciou que a Casa dos Sovietes finalmente será destruída. A demolição está programada para este semestre.

Mas sua feiura tornou o edifício estranhamente amado pelos jovens da cidade, que o adotaram como um emblema peculiar de sua cidade natal e de uma União Soviética que eles nunca conheceram em primeira mão.

"É como um monumento à União Soviética e devemos mantê-lo. Não gosto da aparência, mas as pessoas gostam de coisas defeituosas. É feio, mas é nosso", afirmou Yevgenia Kryazheva, garçonete do Tyotka Fischer, restaurante alemão cujas janelas dão vista para a Casa dos Sovietes.

Kaliningrado, agradável cidade portuária onde as gaivotas voam pelas grandes praças centrais e casas de telhados íngremes que margeiam as ruas arborizadas, já foi parte da Alemanha e era conhecida como Königsberg, a sede do poder na Prússia Oriental, como a região era conhecida.

Depois que a União Soviética conquistou o território dos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 80 por cento das estruturas estavam em ruínas. Na década de 1960, as autoridades soviéticas, com a intenção de limpar Kaliningrado de sua herança alemã, implodiram a parte ainda existente de um castelo gótico para abrir caminho para a Casa dos Sovietes.

A construção começou uma década depois. O edifício evoca uma cabeça porque foi concebido para servir como sede.

As sacadas salientes são olhos, acima dos quais assoma uma caixa-forte enorme, com escritórios destinados aos funcionários do Partido Comunista que orientariam a economia. Eles nunca ocuparam o prédio devido às falhas estruturais.

Os críticos dizem que o conceito era impregnado de autoritarismo. As pessoas da região apelidaram o prédio de "Cabeça de Robô". Para piorar, o edifício nunca foi concluído. A chuva entrou, o concreto encharcado inchou e blocos caíram. Por algum tempo, feirantes armazenaram mercadorias em salas abandonadas. O espaço nunca foi usado como escritório.

Mas, mesmo no período pós-soviético, os governos locais evitaram tomar a medida politicamente difícil de remover o prédio vazio, porque isso seria, em essência, admitir uma falha no esforço soviético para substituir o legado cultural da Alemanha.

Assim, a Casa dos Sovietes foi abandonada. Hoje em dia, o vento assobia nas janelas quebradas. Durante uma visita recente, dois cães de guarda desgrenhados e mal-humorados latiam ferozmente atrás de uma cerca.

"Na verdade, seria melhor se eles construíssem algo diferente. É realmente horrível. Mas está aqui há tanto tempo que todos nos acostumamos", comentou Aleksey Levanyuk, parado ao lado de sua van estacionada, enquanto olhava para o prédio como se o percebesse pela primeira vez.

Para ser justo, o edifício, vagamente inspirado no futurista Congresso Nacional, em Brasília, aparece em diversas antologias de projetos modernistas marcantes e é admirado por arquitetos no mundo todo.

Com o passar dos anos, o destino da abandonada Casa dos Sovietes se misturou aos debates sobre o futuro de Kaliningrado, enclave russo espremido entre a Polônia e a Lituânia.

Nos primeiros momentos do período pós-soviético, o presidente Boris Yeltsin lançou o conceito de uma Hong Kong russa, um centro bancário e de investimento aberto à Europa.

Naquela época, surgiram planos de demolir a Casa dos Sovietes e reconstruir o Castelo Real de Königsberg como um símbolo de abraçar o passado alemão e o futuro europeu - e para atrair turistas. O presidente Vladimir Putin até endossou a ideia no início de seu mandato.

"Naquela época, tínhamos visões utópicas", disse Alexander Dobralsky, advogado e apoiador do líder da oposição Alexei Navalny, que, como outros liberais, defendia a integração de Kaliningrado com seus vizinhos europeus.

Depois que as relações com o Ocidente pioraram com a crise da Ucrânia, a Polônia cancelou as viagens sem visto para residentes de Kaliningrado, já que a região começou a se tornar uma ameaça à segurança. O ex-assessor de segurança nacional dos EUA, Robert O'Brien, chamou o enclave russo de "uma faca no coração da Europa".

Moscou instalou na região uma série de mísseis nucleares conhecidos como Iskanders. A sul da cidade fica uma das novas regiões de conflito potencial na Europa, a Faixa de Suwalki, com 103 quilômetros de extensão, que fica entre Kaliningrado e a Bielorrússia, e é a única rota terrestre da Otan entre a Europa Ocidental e os países bálticos.

Em Kaliningrado, grupos nacionalistas começaram a defender a rejeitada Casa dos Sovietes, apesar de seus defeitos. "O prédio mostra nosso poder russo nas antigas terras alemãs", afirmou um desses grupos, a Sociedade Russa, em um comunicado. Mas nunca ficou claro como esse poder será exercido.

"Somos um posto militar avançado, uma base para foguetes, ou somos uma porta de entrada comercial da Rússia para a União Europeia. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo", disse Pyotr Chernenko, presidente de um sindicato de arquitetos em Kaliningrado.

Contudo, algumas pessoas veem o prédio como uma importante lembrança da história.

Maksim Popov, designer gráfico de 40 anos, ganha muito dinheiro vendendo bolsas e camisetas com imagens da Casa dos Sovietes, às vezes com outras partes imaginárias, como pernas e braços sob a cabeça. "A Casa dos Sovietes foi construída para ser um símbolo de vitória em nossa história. Mas, se a destruirmos, como destruímos o castelo, será que realmente aprendemos alguma lição?", questionou Popov.

Portanto, qual é o plano agora?

O governador, Anton Alikhanov, que anunciou a demolição em novembro passado, prometeu o que chamou de "uma nova Casa dos Sovietes" em seu lugar. Será uma cópia próxima - com a diferença de que, desta vez, ela vai funcionar. "O prédio será reconstruído", garantiu.

O novo edifício será erguido sobre o alicerce original; terá a mesma altura, as mesmas dimensões e motivos arquitetônicos semelhantes, segundo ele. O encanamento, os poços de elevador e outros elementos de engenharia serão modernos. Não será uma réplica exata, informou o governador. "Não podemos deixar este lugar vazio. Antes da chegada dos alemães, havia cidades prussianas. Então, a Ordem Teutônica veio e construiu um castelo. Quando conquistamos este território, os símbolos soviéticos apareceram. Agora, um novo tempo chegou, uma nova Rússia, e novos símbolos devem aparecer", explicou, adiantando que poderá manter o nome, Casa dos Sovietes, já que "o marketing é importante".

Vadim Chaly, professor de filosofia da Universidade Federal do Báltico, disse que essa era uma solução reveladora para o problema da Casa dos Sovietes, que já dura décadas: "Agora, eles querem derrubar o prédio e colocar uma cópia em seu lugar. É exatamente isso que está acontecendo conosco. Eles querem uma cópia da União Soviética em muitos sentidos, mas com algumas alterações. Uma versão mais moderna."

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