Omar Degan via The New York Times
Omar Degan via The New York Times

Arquiteto encontra o sentido de pertencimento para com a pátria da família, e para si mesmo

Omar Degan nasceu na Itália de pais somalis que fugiram antes da guerra civil na nação africana. Hoje, ele está ajudando a reconstruir o país olhando para o passado a fim de construir para o futuro

Abdi Latif Dahir, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 05h00

A primeira vez que Omar Degan pôs os pés em Mogadíscio, em outubro de 2017, imediatamente se deu conta de que ela se semelhava bem pouco à paisagem pitoresca que os pais, refugiados somalis que fugiram para a Europa, descreviam para ele quando menino.

Em vez de um cenário idílico de edifícios pintados de branco e de arquitetura modernista com o pano de fundo das águas cor de turquesa do Oceano Índico, ele encontrou uma nova Mogadíscio, nascida às pressas no período de reconstrução depois da guerra civil da Somália. Bloqueios de concreto e paredes à prova de explosões continuavam bastante onipresentes, e os campos para refugiados confinavam com prédios de apartamentos multicoloridos com escassos sinais de estilos ou da herança local.

Para Degan, um arquiteto de 31 anos, essa dissonância soou como uma perda da identidade cultural que desde então ele vem trabalhando para restaurar, e espera que outros  abracem cada vez mais no processo de renovação da cidade ferida.

Nos quatro anos seguintes, na Somália, ele criou através da arquitetura um novo estilo e sentido do que o país é e pode ser depois de dezenas de anos de guerra civil e terrorismo, mesclando temas tradicionais com outros mais modernos, como a sustentabilidade.

“Eu quis que a arquitetura trouxesse de volta o sentido do pertencimento destruído na guerra”, afirmou recentemente em uma entrevista por telefone. “Quis que o povo se tornasse proprietário de um espaço e sentisse orgulho disto. Queria trazer de volta este sentido de pertencer à nação somali e manifestar isto por meio do design e da arquitetura”.

Este sentido era algo pelo qual também ansiava pessoalmente.

Degan nasceu em junho de 1990 em Turim, no noroeste da Itália, de pais que haviam deixado a Somália poucos anos antes da eclosão da guerra. Ao crescer nessa cidade, ele disse, nunca sentiu que pertencia plenamente ao lugar – preso entre sua identidade de homem somali com raízes em uma nação destroçada pela guerra e de cidadão italiano preto em um país que não o abraçava plenamente.

“Na universidade”, contou, “ havia inclusive o desafio quando os próprios professores diziam: ‘Você fala italiano muito bem’, lembrando-me de que eu não pertencia àquele mundo”.

Seus pais queriam que ele estudasse medicina, mas o sonho morreu depois que a mãe cortou o pé, um dia, e ele não suportou a visão do sangue. Ele  gostava de desenhar, então obteve o bacharelado e o mestrado em arquitetura na Universidade Politécnica de Turim, onde se especializou em arquitetura de emergência e reconstrução após conflitos.

Embora pensasse na Somália quando escolheu este foco, ele disse que foi também influenciado por uma tendência a descobrir um sentido na vida, e aprender habilidades que poderia usar para o bem comum.

Apesar disso, ele disse que não pensava em levar o seu trabalho para a Somália por questões de segurança. Em vez disso, trabalhou vários anos na África Ocidental, na América Latina e na Ásia antes de se mudar para Londres para o que pretendia ser uma pausa na carreira. Lá, compartilhou a moradia com uma prima que buscava ajuda para um centro comunitário e uma mesquita na Somália.

Degan concordou em ajudá-la com o projeto, e adiantou: “Não vou com você de modo algum”.

Mas ela foi convincente e um mês mais tarde ele estava em um voo para Mogadíscio, pronto a usar a sua capacidade para ajudar o país da sua família.

Este ano marca o trigésimo aniversário da deposição de ditador somali, major general Mohammed Siad Barre, que desencadeou uma  guerra civil brutal. Mogadíscio – como muitas outras cidades somalis -  foi saqueada por caudilhos de clãs, por adolescentes armados, e posteriormente terroristas que destruíram edifícios do governo, saquearam centros culturais e acabaram com os marcos islâmicos e de estilo italiano. Saquearam inclusive a cidade da qual o romancista somali Nuruddin Farah cantou as “virtudes cosmopolitas”.

Na década passada, com o retorno de uma certa estabilidade, a capital começou lentamente a se transformar. Novos blocos de apartamentos e shopping centers surgiram, o teatro nacional e estádio foram renovados e monumentos históricos foram restaurados.

Mas quando Degan chegou à Mogadíscio, em 2017,  sentiu repulsa pela primeira estrutura com que se deparou: o terminal  azul e preto, de tijolos e vidros do aeroporto.

“Em uma cidade costeira, ensolarada, eu me perguntava quem o teria construído”, lembrou. “A arquitetura em geral conta uma história – a história da nossa herança passada e das nossas esperanças – e nada disso estava ali”.

De lá para cá, seus projetos incluíram um restaurante, e um salão de casamentos com amplos terraços,  paredes de um branco deslumbrante com o tradicional tecido “alindi” multicolorido. Também projetou uma clínica de saúde móvel para tratar das crianças das áreas rurais, uma escola com espaços ajardinados e uma ampla ala de uma maternidade minimalista em um hospital de Mogadíscio.

Quase todos os projetos de Degan são pintados de branco em sinal de respeito pelos tradicionais edifícios brancos da cidade, que mereceu o título de “Pérola Branca do Oceano Índico”.

Entretanto, os seus projetos  também abraçam realidades mais novas: ele está trabalhando em uma versão moderna do banco da Somália e conceituou um memorial para as centenas de pessoas que perderam a vida em um duplo atentado a um caminhão com reboque em Mogadíscio em outubro de 2017 – três dias depois da sua chegada à cidade.

Depois de montar o seu escritório na cidade, agora ele é o mentor de jovens arquitetos. No ano passado, publicou um livro sobre arquitetura em Mogadíscio e está trabalhando em um manual sobre projetos emergenciais na Somália.

Tudo isto indica uma marcada mudança em relação aos anos de sua formação na Itália, onde às vezes sentia “vergonha de ser somali”, disse Degan em uma palestra do TEDx em 2019. E Mogadíscio, uma cidade pela qual, segundo afirma, está “viciado”, ajudou a dar-lhe esta estabilidade.

"Mogadíscio me deu o sentido de vida, de propósito”, disse. “Sinto que pertenço a este lugar, e quero construí-lo de modo que outros possam vir e  também sintam que pertencem a ele”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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