Hiroko Matsuike/The New York Times
Hiroko Matsuike/The New York Times

Arranha-céus sobem em Manhattan e apagam identidade de bairro

Incorporadoras querem demolir edifícios e construir outro espigão em Yorkville, bairro que historicamente era formado por edifícios de classe trabalhadora sem elevador

Joseph Berger, The New York Times

21 de setembro de 2019 | 06h00

Quase todas as semanas, Jeremy Schaller recebe a visita do representante de uma incorporadora que quer comprar os dois edifícios modestos de quatro andares que abrigam a Schaller and Weber, uma loja de salsichas e chucrute no Upper East Side de Manhattan. Uma incorporadora chegou a oferecer  US$ 24 milhões, quase o quádruplo do valor de mercado de ambos os edifícios. As incorporadoras querem demolir os edifícios e construir outro arranha-céu no bairro de Yorkville, que historicamente era formado por edifícios de classe trabalhadora sem elevador e com lojas familiares.

Mas Schaller recusou todas as ofertas, até as que prometiam que ele poderia reabrir a loja no edifício planejado. “Esta loja é icônica e sua estética ficaria comprometida se nós derrubássemos os edifícios", explica ele, que tem 40 anos e representa a terceira geração da família à frente da loja.

Outros proprietários, porém, não conseguiram resistir. O avanço inexorável dos prédios enormes que se espalhou por Nova York tomou também Yorkville. Isto porque o metrô da Segunda Avenida, a linha mais nova da cidade, atrai novos moradores.

Uns dez edifícios foram inaugurados nos últimos cinco anos ou estão perto da conclusão em um bairro outrora celebrado por seu caráter simples, de imigrantes do leste e do centro da Europa. Alguns dos novos edifícios têm até 50 ou 60 andares, muito mais elevados do que os 20 ou 30 com os quais os moradores estão acostumados.

Outros edifícios começaram a ser construídos ou estão sendo planejados. A maioria dos descendentes de imigrantes alemães, húngaros, checos e eslovacos que encontraram trabalho nas cervejarias e fábricas de charutos  já se foi há muito. E também quase todos os restaurantes, com exceção de alguns e de poucas lojas que atendiam essas famílias.

Mudança de cenário

Nas últimas décadas, os prédios sem elevador e outros de poucos andares abrigaram universitários recém-formados, famílias jovens, aposentados e os que aspiravam à pátria americana. Eles queriam lavar suas roupas em uma lavadora automática. Adoravam as lojinhas de sapateiros, de peixeiros e as lanchonetes.

Margaret Price, que mora no bairro desde o início da década de 1980, disse que os novos arranha-céus acabaram com o caráter peculiar de Yorkville. “Agora poderíamos estar morando em qualquer lugar”, compara. “Não se consegue distingui-lo de outro qualquer”.

Aumento populacional

O governo do prefeito Bill de Blasio, entretanto, acredita que deve dar prioridade à maximização das habitações à medida que a população da cidade vai se aproximando dos nove milhões previstos e o número dos sem teto cresce igualmente. Vários arranha-céus, segundo as autoridades, reservam 20% ou mais dos seus apartamentos para famílias de baixa renda ou renda modesta.

Uma das principais incorporadoras da cidade, a Gary Bennett, que concluiu a construção de um edifício de 120 metros em Yorkville e planeja mais três deste tipo, disse que os novos edifícios devem ser elevados porque não há mais terrenos disponíveis em Manhattan e os que existem são caros. “Você gostaria de uma Nova York que parou de construir?”, indaga. “As pessoas se mudam para cá e dizem: 'chega de urbanização', mas é isto que vocês querem? Somos uma cidade de oito milhões de habitantes. Não somos uma aldeia”.

Expansão generalizada

O que está acontecendo em Yorkville acontece também em Long Island City, no centro de  Brooklyn, Crown Heights e no Lower East Side, apagando gradativamente as características que distinguem cada bairro. “Todo mundo na cidade que preza a identidade cultural do seu bairro deveria ver Yorkville como um sinal de alerta”, indica Ben Kallos, vereador, neto de imigrantes judeus húngaros cujo distrito inclui Yorkville. “A última coisa de que um bairro residencial precisa é mais torres de vidro para bilionários”.

O debate que acontece em Yorkville está ocorrendo em muitas cidades americanas com escassez de habitações, enquanto os bairros lutam contra o planejamento de novas moradias, queixando-se do aumento do trânsito, da vista bloqueada e de serviços sobrecarregados.

Curiosamente, Schaller descobriu que o seu negócio cresceu mais de 20% com as novas construções, com o amento dos moradores ricos que gastam mais com a sua seleção de 100 cervejas alemãs, presuntos curados e queijos europeus. “É bom para os meus negócios, mas o bairro perdeu grande parte da sua atmosfera de comunidade”, reconhece. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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