Naim Karimi
Naim Karimi

No Afeganistão, o perigo de ser artista (principalmente se for mulher)

Mubra Khademi realizou uma performance de rua sobre violência sexual contra a mulher, mas foi insultada e chamada de 'louca'

Farah Nayeri, Thw New York Times

29 de janeiro de 2020 | 06h00

Na tarde do dia 26 de fevereiro de 2015, a artista Mubra Khademi vestiu uma armadura de metal e foi para a rua. A armadura, que ela havia montado na oficina de um ferreiro, tinha seios bulbosos e um traseiro amplo. Foi o centro das atenções em uma performance de rua. Só que esta não era uma rua qualquer. Era uma avenida movimentada de Cabul, a capital do Afeganistão. Kubra caminhou por oito minutos em uma performance silenciosa. No fim, o trânsito tinha parado e se formara uma multidão de homens que a ameaçavam.

“Eles me insultaram e zombaram de mim; diziam: ‘É uma louca, é estrangeira, está fora de si, é uma prostituta”, lembrou a artista em Paris, onde mora atualmente. “No entanto, se eu não tivesse montado a performance, me sentiria infeliz. Foi um sucesso completo. Foi chocante para todo mundo”.

Kubra disse que a sua performance refletia a realidade diária das mulheres no Afeganistão, que enfrentam assédio e agressão sexual em todo lugar – em casa, no trabalho, na rua.

“Não há uma única mulher no Afeganistão que não tenha sido violada em algum grau ao longo de sua vida", destacou. “Nós vivemos em uma cultura da violação”. Ela rememorou, ainda, um abuso sexual que sofrera aos 5 anos, e já desde criança desejava poder usar uma armadura protetora. A roupa de metal de Kubra e um vídeo de sua exibição estão entre as 60 obras de arte da exposição Kharmohra: Arte sob fogo no Afeganistao, no museu Mucem de Marselha, na França, que irá até 1º de março.

Na exposição há pinturas, desenhos, fotografias, instalações e vídeos de 11 artistas afegãs, a maioria das quais vive no Afeganistão, disse Guilda Chahverdi, a curadora da mostra Kharmohra, que nasceu no Irã. “Ela é considerada um perigo para a religião, a moral e a dignidade da tradição afegã”, continuou a artista.

Para os que a promoveram, particularmente mulheres, a vida pode ser uma luta constante. Uma foto de Farzana Wahidy, Casamento, Cabul (2008) mostra uma noiva que acabou de casar na cama, ao lado do marido, olhando deprimida para a câmera.

O outro tema da mostra é a violência letal que assola o país. O ataque liderado pelo taleban no restaurante Taverne du Liban em Cabul, em janeiro de 2014 – que deixou 21 mortos – é o tema de uma performance do artista Kaveh Ayreek. Dois dias depois do assalto coordenado, ele participou de uma passeata comemorativa pela paz. Por três vezes, durante a passeata, Kaveh caiu no chão, representando os espasmos da morte, enquanto um integrante da sua companhia de teatro desenhava os contornos do seu corpo no calçamento. (A performance é lembrada na exposição por meio de fotografias e silhuetas desenhadas no chão da galeria.)

As facções em luta no Afeganistão  estão “ocupadas destruindo”, disse Kubra, “enquanto nós estamos escrevendo muito pacificamente esta história”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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