Ramsay de Give / The New York Times
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Arte e artesanato: existe diferença?

Profissionais contestam as tradicionais hierarquias da produção artística

Guy Trebay, The New York Times

22 de setembro de 2019 | 06h00

SANTA FE, NOVO MÉXICO - Quem pode fazer arte? Quem fez recentemente esta pergunta foi Luke Syson, diretor do Museu Fitzwilliam de Cambridge, Inglaterra. Com isto, Syson se somava ao coro cada vez mais numeroso de profissionais de museus que estão contestando as tradicionais hierarquias da produção artística. Neste caso, ele falava da obscura arte do scrimshaw, e mais em geral da importância de reconhecer artistas dotados, cujo trabalho muitas vezes é relegado à condição de obra secundária de profissionais conhecidos.

Em julho, eu estava nesta cidade no meio do deserto, e refletia sobre a indagação de Syson. Dispostas na areia sobre três mesas dobráveis estavam as criações de Leandro Gómez Quintero, um dos 18 expositores de 52 países reunidos para a 16ª edição anual do importante Mercado Internacional de Arte Folclórica.

As obras de Gómez estavam ali, mas o artista cubano, não (por questões referentes ao seu visto). Suas miniaturas excêntricas de veículos vintage da ilha tornaram-se a assinatura visual da posição anacrônica de Cuba no cenário global. Cada uma delas foi criada de material tirado do lixo e recolhido pelo autor: espuma, clips para papéis, retalhos de plásticos, pazinhas de picolé e barbante. “Para mim, esta é a essência da arte popular”, reforça Stuart Ashman, meu guia, naquela tarde. “Nasce do nada, não vem de lugar nenhum”.

Frequentemente, a pessoa que deseja fazer algo novo é uma mulher. Como os famosos abacaxis de Carapan. Estes objetos se identificam a tal ponto com a arte folclórica mexicana em seu nível mais elevado que, quando o departamento cultural do banco Banamex organizou uma mostra intitulada Grandes Mestres da Arte Popular Mexicana em 2001, e publicou o livro que a acompanhava, um dos abacaxis de Hilario Alejos Madrigal foi escolhido para a capa.

Madrigal, de 53 anos, é um renomado mestre da forma – no entanto, foi sua mãe, Elisa Madrigal Martinez, que originalmente imaginou este tipo de obra. Ousadamente esculturais, os abacaxis de cerâmica são imponentes mesmo quando não são construídos na grande escala favorita do próprio Madrigal. “Certas pessoas não os veem como arte”, diz Tomas Aguirre, seu agente. “E se surpreendem com os preços”.

Na realidade, até os maiores recipientes de Madrigal, de US$ 1.300, podem desestimular  um comprador por menos do custo de um desenho em uma galeria. E, para um tapete totalmente abstrato do tamanho de um quarto do tecelão de Oaxaca, Juan Isaac Vásquez García - um objeto têxtil cujos elementos são feitos à mão - o preço chega a poucos dólares a mais. “Trabalho com tear desde que tinha 7 anos”, lembra Vásquez, de 84, no silêncio que antecedeu a enxurrada de visitantes que se seguiu (mais de 20 mil este ano).

Um poderoso fator na mudança da percepção do artesanato é a rede social, que se revelou fundamental para a prática de um coletivo de arte popular peruana, chamado Amapolay. Estes artesãos que não dependem apenas das feiras de artesanato para vender suas camisetas, pôsteres e bonés gráficos e políticos, utilizam diversas  plataformas a fim de promover o seu trabalho ativista para o povo indígena do Peru.

“Nosso tipo de trabalho foi chamado de chicha,  mas é muito maior do que isto”, afirma Fernando Ernesto Castro Chávez, referindo-se a uma fusão de expressões urbanas e indígenas. “Chicha é fácil demais porque se baseia nesta imagem romântica do povo indígena”, acrescenta. “Mas a cultura não é estática”.

Porfirio Gutierrez, de 40, um tecelão do México, que atualmente vive nos Estados Unidos, disse: “Foi a minha ida ao norte que me deu uma perspectiva sobre o que significa integrar a visão de mundo da pessoa, de qualquer coisa que diz respeito a ela, na narrativa que ela cria e torná-la sua própria tela. Quando isto acontece, nesse momento o artesanato se torna arte”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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