Jingyu Lin/The New York Times
Jingyu Lin/The New York Times

Artistas americanos de origem asiática, que agora também são ativistas, reagem contra o racismo

Levados a combater uma visão enviesada, artista criam formas para serem ouvidos: 'nossa comunidade não podia continuar a ser invisível', disse um deles

Aruna D'Souza, The New York Times

18 de maio de 2021 | 05h00

No início da pandemia, a notícia começou a se espalhar entre os artistas americanos de origem asiática: os ataques racistas estavam aumentando. Jamie Chan contou a um colega artista, Kenneth Tam, que foi expulsa de um Uber compartilhado pelo motorista depois de fungar algumas vezes. Anicka Yi, artista que mora em Nova York, ligou para Christine Y. Kim, curadora do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, para dizer que alguém cuspiu nela em uma rua de Manhattan; Kim, por sua vez, contou ter sido abordada em um estacionamento de um mercado.

Tam decidiu começar a registrar esses incidentes em uma planilha do Google que chamou de "Não somos a covid". O material circulou inicialmente nas redes sociais entre as comunidades artísticas e depois entre um público mais amplo. Nos últimos meses, o documento foi preenchido com relatórios que vão desde microagressões até violência de fato.

"Eu tinha presumido que coisas como essa começariam a ser cometidas, mas não tão depressa, e não com conhecidos. Isso me fez perceber que eu precisava educar a mim e talvez a outras pessoas sobre o assunto", disse Tam em uma entrevista por telefone.

O aumento dos ataques racistas, alguns deles terrivelmente letais, galvanizou artistas da comunidade asiática nos Estados Unidos. Eles estão aproveitando as mídias sociais para aumentar a conscientização, reunindo-se para protestar apesar das precauções de pandemia, fazendo novos trabalhos e - talvez acima de tudo - encontrando novos motivos de solidariedade uns com os outros e com outras comunidades afetadas para descobrir como reagir ao cenário atual.

O sentimento antiasiático recente pode ter sido alimentado pela resposta xenófoba do ex-presidente Donald Trump à covid-19 - que ele repetidamente chamou de "o vírus chinês". Mas já existia muito antes dele, desde a chegada dos trabalhadores chineses no século 19, e persiste teimosamente, mesmo depois de sua saída do cargo.

Os efeitos dessa retórica revelaram as vulnerabilidades de um grupo que compreende 5% da população dos Estados Unidos e é incrivelmente diverso em sua composição, marcado por disparidades extremas de renda, idioma e cultura.

Os assassinatos em Atlanta, perpetrados depois que um jovem branco abriu fogo contra os trabalhadores e outras pessoas em casas de massagem cujos donos são asiáticos, destacaram as complexidades adicionais de gênero e raça: das oito vítimas, seis eram mulheres ásio-americanas, a maioria de descendência coreana.

Uma exposição intitulada Godzilla vs. the Art World: 1990-2001, que estava programada para estrear em maio no Moca, o Museu dos Chineses na América, e uma próxima antologia editada pelo curador Howie Chen sobre o grupo Godzilla, afiliação não muito sólida de artistas e curadores, são lembretes oportunos de que o ativismo não é algo novo para os trabalhadores de arte da comunidade. Eles se organizam há anos para aumentar a representação, melhorar a visibilidade e forjar alianças com outros grupos.

O Godzilla foi fundado em 1990 na cidade de Nova York por Ken Chu, Bing Lee, Margo Machida e outros. O grupo enfrentou problemas por ser ásio-americano em um mundo da arte que tendia a identificar raça apenas como preto e branco. Na esteira da Bienal Whitney de 1991, ele escreveu ao diretor do museu para criticar a quase ausência de artistas ásio-americanos.

A mensagem teve o efeito desejado: a bienal de 1993 incluiu trabalhos de vários artistas de ascendência asiática, incluindo Byron Kim. Sua Synecdoche, grade minimalista de painéis pintados, cada um relacionado ao exato tom de pele de um amigo, vizinho ou estranho, funcionou como um retrato de grupo abstrato de seu mundo multicultural.

Uma série recente de trabalhos abstratos de Kim sinaliza uma mudança importante: o foco ainda é a cor da pele - mas desta vez a pele está machucada. Feitas na época da eleição presidencial de 2016, as telas tingidas de pigmento são menos uma celebração do multiculturalismo do que um comentário sutil sobre o surgimento de políticas xenófobas e racistas nos Estados Unidos.

Da mesma forma, a onda atual de ativismo parece menos preocupada com a representação - a inclusão de artistas em exposições ou a contratação de mais funcionários ásio-americanos em museus - do que com questões maiores como vigilância de bairros de imigrantes, desigualdade de renda e criminalização do trabalho sexual - que colocam suas comunidades em risco.

Essa mudança de abordagem levou recentemente 19 artistas envolvidos com o grupo Godzilla a se retirarem da exposição planejada pelo Moca em protesto contra o que chamaram de "apoio cúmplice" do museu à construção de uma prisão em Chinatown. (O museu recebeu uma concessão de US$ 35 milhões da cidade, parte de um programa para investir fundos em bairros que serão afetados pela construção de instalações depois do fechamento da Ilha Rikers.)

O museu contesta essa caracterização. Segundo Nancy Yao Maasbach, presidente do museu, "o Moca sempre foi inalterável e claramente contra uma prisão em Chinatown". Ela acrescentou que sua posição é que o financiamento cultural para grupos marginalizados é "fundamental para redefinir a narrativa americana".

A artista Betty Yu, fundadora da Chinatown Art Brigade, ou CAB, comentou que "a maneira de lutar contra esse tipo de xenofobia e de supremacia branca é organizar e combater as raízes do racismo estrutural e do capitalismo". Com os cofundadores Tomie Arai e ManSee Kong, e uma rede de outros artistas e organizadores, a CAB tem trabalhado nos últimos cinco anos para se opor à gentrificação do bairro de Chinatown, em Nova York, e ao consequente deslocamento em massa.

A perda de moradias populares e o fechamento de fábricas de roupas que empregam milhares de novos imigrantes não estão desligados do mundo da arte. Mais e mais galerias de arte estão se mudando para a área, aumentando o valor dos aluguéis.

Essa invasão fez com que outros grupos ativistas elegessem o mundo da arte como um epicentro para falar do ódio aos asiáticos. A Stop DiscriminAsian, ou SDA, surgiu há um ano, quando Yi começou a conectar grupos e indivíduos díspares centrados na Ásia que trabalhavam em todo o país, incluindo Kim e Tam. À medida que o grupo crescia, a questão de como alavancar posições próprias no mundo da arte se tornou central. "Foi uma coisa atraente para a qual pensamos que poderíamos contribuir como trabalhadores das artes só pelo fato de que tantos espaços de arte, pelo menos em Nova York e Los Angeles e até mesmo na Bay Area, eram fisicamente adjacentes às comunidades asiáticas", observou Tam.

Uma das principais estratégias para os artistas-ativistas de hoje é criar visibilidade: chamar a atenção para a presença muitas vezes invisível e despercebida de comunidades ásio-americanas nas cidades e na cultura - para seu trabalho e suas contribuições, e para a violência dirigida a elas.

A recém-nomeada Artista Pública Residente, Amanda Phingbodhipakkiya, começou a trabalhar com a Comissão de Direitos Humanos da Cidade de Nova York em agosto. Assim que foi contratada, Phingbodhipakkiya começou a conceber um projeto de arte pública a ser levado para o metrô, que abordaria a forma como as comunidades da diáspora asiática na cidade passam, em grande parte, despercebidas. "O comissário e eu demos uma volta no Prospect Park. Não tenho certeza se ela estava buscando ideias novas naquela manhã, mas comecei a trabalhar imediatamente. Senti que não havia tempo a perder, e nossa comunidade não aguentava mais ficar invisível. Foi algo que abordei com extrema urgência", lembrou Phingbodhipakkiya.

O resultado da colaboração é uma série de arte pública intitulada I Still Believe in Our City (Ainda acredito em nossa cidade), instalada em pontos de ônibus, estações de metrô e, de forma espetacular, ao lado do Barclays Center. A escolha dos terminais de transporte foi deliberada, de acordo com a artista, uma vez que muitos dos ataques racistas foram cometidos lá. Phingbodhipakkiya também os tornou disponíveis para download gratuito em seu site.

Apresentando uma série de ásio-americanos com legendas como "Não te deixei doente", "Nosso lugar é aqui" e "Não sou seu bode expiatório", os artistas, recentemente, posaram para a capa da Time e apareceram com frequência em cartazes de protesto em manifestações desde o tiroteio de Atlanta.

À medida que os artistas começam a enfrentar o ódio contra os asiáticos, permanece a questão da utilidade do termo "ásio-americano", dada a gama de experiências que pretende descrever. "Anicka Yi abordou isso de forma muito clara: 'O que significa ser ásio-americano no século 21?'", disse Margaret Liu Clinton, curadora e membro da SDA, que fala do desejo de desenvolver conversas pan-asiáticas entre a maior gama possível de trabalhadores da arte. "O que continua a se desenrolar é uma consciência compartilhada de como nossas experiências são diferentes em gênero, classe, geração, imigração, e isso é que é realmente empolgante neste trabalho agora."

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