Maria Mavropoulou/The New York Times
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Arte contemporânea na Grécia: Construindo um centro 'sob a sombra da Acrópole'

Muitos associam a cultura de Atenas a ruínas e artefatos antigos, mas o governo grego e grandes fundações filantrópicas querem colocar a cidade no mapa internacional da arte contemporânea

Roslyn Sulcas, The New York Times - Life/Style

03 de março de 2022 | 05h00

ATENAS - “Mar, sol e sexo, com algumas colunas gregas ao fundo”, disse Poka Yio, diretor artístico da Bienal de Atenas. Ele estava resumindo as campanhas de turismo do governo grego nos anos 2000 enquanto conduzia um visitante por uma antiga loja de departamentos que foi um dos locais da edição de 2021. Parte da motivação para iniciar a bienal em 2007, ele disse, foi mudar esse estereótipo: “Queríamos colocar Atenas no mapa cultural da arte contemporânea”.

Quinze anos depois, Atenas certamente está no radar do público internacional de arte, embora mais como uma curiosidade do que como um grande centro. Apesar da pandemia, 40.000 visitantes foram à Bienal de Atenas, que durou um mês em novembro. De acordo com os organizadores, 10.000 deles vieram do exterior, e a capital grega também estava repleta de exposições de ordem mundial, incluindo a mostra coletiva de 59 artistas da Fundação Neon, Portals, em uma antiga fábrica de tabaco recém-reformada.

“Se os poderes políticos entendessem o quanto se fala em Atenas como um destino cultural contemporâneo, eles poderiam prestar mais atenção, porque significa dinheiro e imagem”, disse Katerina Gregos, diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, conhecido como EMST. Mas a arte contemporânea, ela acrescentou, é relativamente nova na cena grega.

“Vivemos sob a sombra da Acrópole há muito tempo”, ela disse.

Gregos, que nasceu na Grécia e foi a diretora fundadora da Fundação Deste antes de assumir o cargo no EMST no verão passado, estava se referindo ao domínio cultural da herança clássica da Grécia, que atrai a maior parte do financiamento estatal do setor.

“É compreensível”, ela disse. “Quando você tem uma herança cultural tão incrível para proteger, é uma responsabilidade enorme, e somos um país pequeno com finanças finitas.” Ela acrescentou,  “O estado-nação grego moderno foi moldado de acordo com as ideias clássicas, então essa consciência é parte de nossa identidade”.

Como resultado, ela disse, tem havido muito pouco apoio governamental para a arte visual contemporânea, sem nenhum órgão de financiamento como os conselhos de artes da Inglaterra, Canadá ou Austrália, ou organizações financiadas pelo estado para apoiar artistas individuais. Em vez disso, a lacuna é preenchida por instituições privadas como as fundações Deste, Neon, Onassis e Stavros Niarchos, que concedem bolsas, hospedam residências artísticas e realizam exposições.

No entanto, essas iniciativas do setor privado, qualquer que seja seu sucesso, não “substituem a necessidade de uma política pública”, disse Gregos.

O governo grego parece concordar com isso ultimamente. Em julho de 2019, Nicholas Yatromanolakis, formado em Harvard, foi nomeado secretário de cultura contemporânea, antes de ser promovido no início de 2021 a vice do ministro da cultura, responsável pela cultura contemporânea.

Entrevistado em seu escritório no distrito de Excharcheia, no centro de Atenas, repleto de pichações, Yatromanolakis, 46, disse que a cultura contemporânea não era vista anteriormente como um contribuinte sério para a economia, ou importante para a imagem internacional e o soft power da Grécia.

“A pandemia atingiu muito o setor contemporâneo e acho que o primeiro-ministro reconheceu a necessidade de investir mais nessa frente”, ele disse.

Atualmente, os projetos culturais contemporâneos na Grécia recebem cerca de um quarto a um terço do orçamento cultural - que tem uma média de US $400 milhões nos últimos sete anos - enquanto o restante é destinado aos locais de patrimônio clássico. É uma quantidade relativamente pequena quando espalhada entre projetos de patrimônio, teatros e museus nacionais e cultura contemporânea, disse Yerassimos Yannopoulos, advogado e membro do conselho do EMST. (Para contextualizar, o orçamento cultural da França é de cerca de US $4 bilhões.)

“O primeiro-ministro está muito por trás dessa ideia de promover a cultura contemporânea, e Nicholas Yatromanolakis é um cara realmente brilhante, mas a Grécia está em uma situação terrível desde a crise da dívida”, ele disse. “E você não pode mudar as coisas agarrando-se ao glorioso legado arqueológico.”

No entanto, Yatromanolakis disse que o pensamento binário pode ser inútil.

“Acho que colocar o clássico contra o contemporâneo é improdutivo”, ele disse. “Deve ser colaborativo”, acrescentou, citando como exemplo uma exposição de 2019 de obras do artista britânico Antony Gormley em meio a ruínas e artefatos clássicos na ilha de Delos.

Em um e-mail, Yatromanolakis enviou os números do financiamento estatal para projetos contemporâneos de pequena escala, mostrando um aumento notável, de cerca de US $500.000 em 2015 para cerca de US $11 milhões em 2020. Ele também destacou fundos adicionais da União Europeia provenientes do Recovery and Resilience Facility, criado para mitigar o impacto da pandemia, que oferece mais meio bilhão de euros ao setor cultural da Grécia, dividido igualmente entre projetos patrimoniais e contemporâneos.

Yatromanolakis disse que o projeto mais ambicioso em sua agenda é a reforma trabalhista e social para artistas freelancers, cujas necessidades não são levadas em consideração pela atual legislação tributária e trabalhista.

“Se não corrigirmos isso, não teremos as ferramentas para permitir que os profissionais da cultura vivam de seu trabalho”, ele disse. “Não havia nada para a cultura contemporânea, então você tem que começar do zero.

“Apesar de todas as coisas horríveis que a pandemia trouxe, acho que podemos usar isso como um ponto de virada em como fazemos as coisas.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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