Pak Yong-chol; Sigg Collection, Mauensee via The New York Times
Pak Yong-chol; Sigg Collection, Mauensee via The New York Times

Arte coreana é exibida na Suíça, com protestos do norte e do sul

Rara exposição reúne obras que, apesar de compartilharem uma tradição cultural comum, vêm de mundos diferentes

Catherine Hickley / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 05h00

BERNA, Suíça - Contra um céu escaldante, Kim Il Sung e Kim Jong Il, ex-líderes da Coreia do Norte, assistem com sorrisos radiantes aos mísseis que voam em rajadas de luz e nuvens de fumaça. A pintura - Os Mísseis, de Pak Yong Chol - é uma das posses mais valiosas do colecionador Uli Sigg, adquirida por meio de persistência, persuasão e contatos forjados durante seu mandato como embaixador da Suíça na Coreia do Norte, na década de 1990.

Sigg disse que costumava visitar o museu nacional de arte da Coreia do Norte, na capital, Pyongyang, cujas obras glorificam a força do país. Disse que já estava familiarizado com o estilo de arte realista-socialista promovido pelos governos comunistas da China e da União Soviética, mas ficou impressionado com a variante mais emocional da Coreia do Norte.

“Foi então que decidi que precisava adquirir uma obra de arte”, disse Sigg numa entrevista por chamada de vídeo. “Você consegue comprar pinturas que mostram trabalhadores felizes com bochechas rosadas. Mas eu queria uma com os líderes”.

Suas primeiras abordagens junto às autoridades norte-coreanas foram rechaçadas, disse ele. Imagens dos ditadores “não podiam ser exibidas fora da Coreia do Norte, exceto nas embaixadas - e certamente não em mãos privadas”, disse ele. “Era uma coisa inimaginável”.

Em vez disso, ofereceram a Sigg um retrato de si mesmo, que seria pintado por um dos principais artistas do regime. “Eu disse: ‘Não quero um retrato meu. Quero um retrato dos líderes’”.

Sigg acabou convencendo as autoridades, disse ele, e construiu uma das coleções mais importantes de arte norte-coreana fora do país. Peças da coleção foram recentemente expostas no Kunstmuseum Bern, na Suíça, numa rara apresentação de arte norte-coreana no Ocidente. Mais incomum ainda, a mostra exibe as obras ao lado da arte da vizinha e inimiga do país: a Coreia do Sul.

Em exibição até 5 de setembro, Travessias de fronteira é “sensível” para ambos os lados, disse Sigg. Exibir arte sul-coreana é ilegal no Norte e, por muitos anos, a arte norte-coreana foi proibida no sul. Mesmo antes de a exposição ser aberta no final de abril, ela gerou protestos de ambas as Coreias. Sigg, que deixou o serviço estrangeiro da Suíça em 1998, precisou recuperar suas habilidades diplomáticas.

 

Tecnicamente ainda em guerra, as duas Coreias são separadas pela Zona Desmilitarizada, uma faixa de 400 quilômetros fortificada em ambos os lados com arame farpado e defesas antitanque. Ninguém tem permissão para cruzar a fronteira. Embora os artistas da península dividida compartilhem uma tradição cultural comum, eles trabalham em mundos diferentes.

Os do Sul desfrutam de liberdade criativa numa sociedade cuja música pop se espalhou pelo mundo; Seul, a capital, é um importante centro de arte asiática, com uma cena de galerias animadas e diversificadas. No Norte, todos os artistas profissionais estão organizados em dois estúdios oficiais que funcionam sob o estrito controle da ditadura comunista, isolados das influências internacionais.

As únicas pinturas em exibição pública na Coreia do Norte são encomendas oficiais desses estúdios. Com teatralidade dramática, mas em estilo realista, os líderes do país são retratados quase como ícones religiosos, os trabalhadores aparecem como heróis e as paisagens acentuam o poder e a grandeza de seu cenário natural.

Sigg disse que espera que a exposição ilumine os contrastes entre as duas sociedades. “Para mim, o principal interesse era essa tensão entre as duas Coreias, que antes formavam um espaço mesmo cultural”, disse Sigg. “A exposição deixa essa tensão mais concreta”.

 

Sigg disse que começou a colecionar arte sul-coreana em 2008. Ele observa que todas as obras que adquiriu tratam da divisão da Coreia. A dor da ruptura confronta imediatamente os visitantes do museu de Berna com uma pintura da Zona Desmilitarizada no hall de entrada.

Entre vermelhos, de Sea Hyun-lee, artista do sul, é totalmente pintado em tons dessa cor. Desprovido de pessoas, ecoa a pintura de paisagem tradicional coreana, com uma vista elevada sobre rios sinuosos, montanhas escarpadas, casas abandonadas e pomares floridos cujos frutos talvez não tenham sido colhidos desde que a área entre as duas Coreias foi isolada em 1953.

O trabalho em vídeo de Sojung Jun, Chegada Antecipada do Futuro, explora a herança compartilhada dos norte e sul coreanos. Ela convidou dois pianistas - Kim Cheol-woong, que desertou do Norte, e Uhm Eun-kyung, do Sul - para organizar e executar um dueto que combina melodias tradicionais de uma canção folclórica norte-coreana e uma canção infantil sul-coreana. Na performance filmada, eles se enfrentam em dois pianos de cauda, e closes mostram sua coordenação sutil por contato visual e expressão facial.

Mas a arte tanto pode dividir quanto conectar - como Sigg sabe muito bem. Ele disse que hesitou muito antes de decidir organizar a exposição em Berna, reconhecendo que ela poderia destruir suas relações com a Coreia do Norte. Disse que agora seria barrado se solicitasse o visto.

“A novidade desta vez é que estou enfrentando protestos dos dois estados - geralmente, era apenas de um”, disse ele. “Mas estou relativamente relaxado. Você tem que ter casca grossa quando se trata de arte contemporânea”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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