Christopher Stobie/The New York Times
Christopher Stobie/The New York Times

Artista se reúne a idosos para dar vida a uma escultura social

Elizabeth Turk imaginou guarda-chuvas iluminados espalhando esperança durante a pandemia. Uma comunidade de aposentados disse sim e se tornou sua tela

Lisa Fung, The New York Times - Life/Style

30 de dezembro de 2020 | 05h00

POMONA, CALIFÓRNIA - Bem no meio do terreno verdejante da comunidade de aposentados Mount San Antonio Gardens, Elizabeth Turk estava imersa em seu mais recente projeto, uma ambiciosa obra de arte que ela conseguia imaginar, mas ainda não realizar.

“O que você diz a si mesmo quando enfrenta adversidades?”, ela perguntou aos residentes, inspirando-se num projeto que criaria esperança durante a pandemia de covid-19. Tendo a comunidade de 120 mil metros quadrados como tela e seus 500 residentes e funcionários como meio, Turk imaginou “um jardim selvagem bombado” para uma instalação de arte em movimento intitulada Projeto: Olhe para cima.

“Mergulhar neste projeto foi uma verdadeira benção, porque me manteve otimista”, disse Turk, 59 anos, bolsista da Fundação MacArthur em 2010. Olhe para cima segue o modelo de seu Shoreline Project, um projeto de 2018 do Museu de Arte de Laguna que trouxe mil voluntários para Laguna Beach, com guarda-chuvas especiais iluminados nas mãos.

Os participantes interagiam e serpenteavam ao longo da costa, enquanto centenas assistiam ao espetáculo dos penhascos com vista para a praia. Inspirada pela resiliência e otimismo dos residentes da comunidade de aposentados, Turk queria criar uma experiência otimista do mesmo tipo do projeto Shoreline, destruindo o mito do idoso indefeso. Desta vez, porém, a instalação com financiamento privado seria fechada ao público por questões de segurança.

Turk planejava criar uma obra de arte multimídia, com imagens caleidoscópicas de câmeras de drones dos participantes enquanto eles se movessem por vários locais do terreno. Quando a pandemia chegou, Turk, que mora em Nova York e Newport Beach, Califórnia, estava trabalhando em planos para recriar Shoreline no Laos. Mas esse projeto foi rapidamente arquivado. Aí veio um telefonema do Mount San Antonio Gardens, 50 quilômetros a leste de Los Angeles, que tem entre seus residentes professores do Claremont College, que fica nos arredores.

Em fevereiro, Turk, ex-aluna do Scripps College, deu uma palestra no lugar sobre sua obra, entre elas suas esculturas de mármore de Tipping Point: Echoes of Extinction e Shoreline. Representantes do lugar a procuraram em julho para consultá-la sobre o design dos guarda-chuvas para a loja de presentes. Mas a discussão rapidamente se voltou para os residentes, que têm entre 64 e 104 anos de idade.

“A conversa acertou meu coração”, relembrou a artista. “Pensei: não há comunidade melhor para nos lembrar da alegria e da resiliência – pessoas vulneráveis nos levando de volta à alegria e à união”. Olhe para cima começou na piscina – dentro e ao redor da água – com um saxofonista tocando jazz e drones zumbindo no alto, filmando a apresentação. Depois, dezenas de aposentados passaram a serpentear pela horta comunitária ao som da Marcha dos Soldados de Chumbo, de Tchaikovsky.

 

No gramado, vários casais dançando Unchained Melody, rodeados por 100 residentes balançando seus guarda-chuvas para criar sombras na grama. Perto do final, todos os participantes se reuniram num estacionamento central, movendo-se numa coreografia final antes de se dispersar ao som de What a Wonderful World, de Louis Armstrong. Muitos ficaram para trás, os guarda-chuvas ainda abertos, não querendo que o dia acabasse.

O residente Michael Lamkin, professor de música aposentado e ex-vice-presidente do Scripps College, classificou o evento como “um momento de alegria. Um momento de verdadeira celebração”. “O mundo está tão dividido”, disse ele. “Uma coisa assim, onde as pessoas podem estar juntas, onde as pessoas podem estar unidas num projeto e se sentir muito bem por serem humanas por alguns momentos, isso é edificante”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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