William Widmer para The New York Times
William Widmer para The New York Times

Exposição artística faz cidade americana enfrentar seus preconceitos

Trabalho da fotógrafa Mary Beth Meehan com moradores de Newnan gerou descontentamento entre nacionalistas brancos

Audra D. S. Burch, The New York Times

02 de fevereiro de 2020 | 06h00

NEWNAN, Georgia - Era a tarde de sábado que esta pequena cidade do sul dos Estados Unidos temia. Um grupo de neonazistas havia prometido realizar uma manifestação no centro de Newnan para comemorar o aniversário de Adolf Hitler e protestar contra a imigração ilegal e a remoção dos monumentos da Confederação.

Newnan se orgulhava de seu charme silencioso oferecendo aquele estilo de vida típico de uma cidade pequena a cerca de 65 quilômetros a sudoeste de Atlanta. Agora, em um dia de primavera em abril de 2018, um grupo neonazista havia se reunido em um parque.

Apenas algumas dezenas de nacionalistas brancos participaram da reunião, em que também comentavam como a Newnan com a qual tinham sonhado para o futuro tinha deixado de existir. Sua população mais que dobrou, chegando a quase 40.000 habitantes em menos de 20 anos, atraindo uma coleção cada vez mais diversificada de recém-chegados. Newnan estava mudando, e muitos na comunidade queriam abraçar essa mudança mais abertamente. Um ano após o encontro dos neonazistas no parque, a cidade inaugurou uma instalação artística com 17 retratos em grande escala, imagens das pessoas comuns que compõem Newnan.

As fotos foram penduradas nas varandas dos prédios de tijolos no centro da cidade. Há Helen Berry, uma americana negra que trabalhava em uma fábrica de costura; Wiley Driver, um trabalhador branco que dobrou e embalou cobertores em uma fábrica local antes de sua morte em 2017; e Jineet Blanco, uma garçonete que chegou a Newnan carregando suas tradições e sonhos mexicanos. E também as irmãs Shah.

Um retrato de Aatika e Zahraw Shah usando hijabs podia ser visto ao lado de um prédio vazio. As irmãs nasceram na Georgia e moram em Newnan desde 2012. Seus pais se mudaram do Paquistão para os Estados Unidos.

A reação ao retrato delas foi rápida e intensa. James Shelnutt estava dirigindo pelo centro da cidade quando o viu. "Sinto que o Islã é uma ameaça ao modo de vida americano", disse ele. "Não deve haver nenhum retrato relacionado a ele." Shelnutt decidiu manifestar-se no Facebook e incentivou os outros moradores a reclamar. A discussão rapidamente se transformou em ataques antimuçulmanos e xingamentos.

Os retratos deveriam ser inclusivos, reverter preconceitos e desvendar os casulos que as pessoas criaram na comunidade. Isso realmente aconteceu - mas eles também expuseram como a imigração e as mudanças demográficas reformularam a dinâmica racial que já definiu os EUA.

"Não sei se Newnan olhou para si mesma assim tão de perto antes desse momento", disse Robert Hancock, presidente do programa de residência artística de Newnan, que ajudou a autorizar a instalação.

As pessoas que se identificam como brancas ainda representam mais da metade da população de Newnan, mas os recém-chegados são de outras origens étnicas. A parcela de hispânicos mais que dobrou, enquanto a população asiática cresceu mais de cinco vezes entre 2000 e 2017.

"Seeing Newnan", como é chamada a instalação artística, foi criada pela fotógrafa Mary Beth Meehan. Hancock estava em uma conferência de arte em 2015 quando viu uma das instalações da fotógrafa e decidiu entrar em contato com ela.

"Apenas senti que estávamos vivendo separados", disse Hancock ao comentar a convivência dos habitantes de Newnan. “Vivíamos em pequenas bolhas. Pensei que este projeto poderia perfurá-las.”

Mary Beth chegou à cidade em 2016 como parte do programa de residência artística. Ela passou mais de dois anos visitando Newman. 

"Newnan estava pronta para começar esse debate, e a evidência é que, apesar das tensões e dificuldades, as pessoas não me ignoravam nem me mandavam ir embora", disse ela. "Eles continuaram me convidando a voltar."

Mary Beth fez uma de suas últimas viagens a Newnan em outubro de 2018. Zahraw e Aatika Shah estavam entre os fotografados durante a viagem, mas, quando ela mostrou o retrato para o Hancock, ele fez uma pausa.

"Eu sabia instintivamente que a imagem seria controversa", disse ele. Mas Hancock decidiu que as irmãs estariam entre os retratos selecionados. "As pessoas precisavam abrir os olhos e ver o lugar bonito e diversificado em que vivemos", disse ele.

Alguns moradores de Newnan protestaram contra o retrato das irmãs na postagem de Shelnutt no Facebook. O post recebeu quase mil respostas, a maioria delas defendendo as irmãs.

A reação fez a família Shah perceber que muitos moradores de Newnan não conheciam quem fazia parte da cidade. "Estamos aqui há sete anos", disse Aatika Shah, 22 anos, "e agora, porque nunca nos viram e depois viram nossa foto, pensam de alguma forma que não pertencemos a este lugar".

Mary Beth esperava que seus retratos obrigassem as pessoas a se verem. Ela passou centenas de horas conversando com os residentes e essas conversas frequentemente se voltavam para a questão racial.

Quando a fotógrafa conheceu o reverendo Jimmy Patterson, cujo retrato está exposto em um prédio, ele contou a ela a respeito de sua própria epifania. Patterson foi um dos vários líderes religiosos que lideraram os protestos contra a manifestação neonazista em 2018.

Ele aproveitou a ocasião para se desculpar por um capítulo sombrio da história de sua família: um de seus ancestrais teve escravos, e Patterson, que é branco, descobriu um testamento em que esse antepassado os deixava para os parentes como se fossem itens de sua herança.

Ele falou sobre os anos que levou para desaprender seus próprios preconceitos. E, então, pediu perdão.

Os retratos de Mary Beth, que continuarão em exibição até junho, já tiveram um efeito duradouro na cidade.

"A verdade é que essas conversas são difíceis, desconfortáveis e embaraçosas, mas precisamos embarcar nelas", disse o reverendo David Jones II, pastor da Igreja Presbiteriana de Newnan. "Precisamos conversar a respeito de quem mora em nossa comunidade e, se eles são diferentes, por que isso nos deixa desconfortáveis?" / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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