Katrine Dirckinck-Holmfeld via The New York Times
Katrine Dirckinck-Holmfeld via The New York Times

Busto jogado nas águas de um porto faz emergir debate sobre passado colonialista da Dinamarca

Grupo de artistas, criticados como vândalos por atirarem o busto do rei Frederick V no porto de Copenhague, alega que o seu propósito era chamar a atenção para a participação da Dinamarca no comércio de escravos

Cara Buckley, The New York Times – Life/Style

26 de fevereiro de 2021 | 07h11

Por um tempo, pareceu que ninguém notava a faltava de um item importante da Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes, a prestigiosa instituição que ocupa um palácio na margem de um dos canais de Copenhague.

Era o busto de Frederick V, rei da Dinamarca e Noruega e duque de Schleswig-Holstein. Amplamente conhecido como um líder afável embora ineficiente, e alcólatra, Frederick V foi o fundador da academia e uma imagem sua há muitos anos estava exposta na Sala de Reuniões da instituição. Em algum momento do outono [do Hemisfério Norte] ela desapareceu, mas os oficiais da Academia só foram perceber a sua ausência no começo de novembro.

Dias mais tarde, o destino do busto foi revelado. Artistas anônimos o haviam retirado do seu pedestal, colocaram um saco plástico sobre a cabeça e o levaram até a margem de um canal para em seguida jogá-lo na água. Um vídeo que foi divulgado mostrava o busto desaparecendo nas águas negras do porto de Copenhague.

Em um documento que acompanhava o vídeo, os artistas afirmavam que queriam prestar a sua solidariedade às pessoas atingidas pelo passado colonial da Dinamarca e provocar um diálogo com instituições criadas naquele tempo. Sob Frederick V, o governo subsidiou com somas consideráveis o mercado de escravos e de açúcar da nação, e administrou as suas colônias.

“Nós queremos um mundo da arte que assuma a responsabilidade - não apenas pelas ações do passado, mas pelo fato de que o colonialismo continua ativo ainda hoje”, declarou o grupo.

Meses mais tarde, o escândalo que se seguiu revelou profundas divisões na sociedade dinamarquesa a respeito do reconhecimento do seu passado colonial.

O Conselho da Academia, formado por assessores artísticos e proprietário do busto, condenou o ato, afirmando que embora seja imperativo que os abusos do passado não sejam ignorados, também é preciso notar que a escravidão era comum na era de Frederick V. “Também é importante que não sejam impostas ao passado as normas do nosso tempo”, disse o documento.

Alguns políticos e importantes personalidades do mundo das artes também concordaram em denunciar o destino do busto como o epítome da negação da cultura e de uma identidade política descontrolada, a ponto de alguns a chamarem de racista. Um artista famoso, Bjorn Norgaard, e uma historiadora da arte, Merete Jankowski, escreveram artigos  comparando o “acontecimento”, como eles o chamaram, à destruição por extremistas das estátuas de Buda Bamiyan no Afeganistão.

“Os métodos e política da identidade são a intolerância, a exclusão, a negação da cultura - e a destruição física, como vimos na Academia de Belas Artes”, escreveu Tom Jensen, editor chefe do jornal dinamarquês Berlingske. “Esta mentalidade é insanamente radical. Nada deve sobrar, tudo deve ser nivelado”.

O fato de o busto afundado ser uma réplica de gesso feita décadas atrás e não o original do século 18, não diminuiu o ultraje. Quando o busto foi recuperado das águas do porto, o mar havia comido os ombros e a cabeça.

Cerca de uma semana depois da exibição do vídeo, uma diretora de departamento da Academia de Arte, Katrine Dirckinck-Holmfeld, decidiu assumir a responsabilidade pelo ato. Foi demitida no mesmo dia, e tornou-se o alvo do opróbrio geral. Entretanto, recebeu o apoio de cerca de mil pessoas, muitas delas artistas e estudantes, que pediram a sua reintegração, mas ela também  foi atacada on-line e ameaçada.

Semanas mais tarde, a diretora da escola, Kirsten Langkilde, também deixou o cargo. Ela condenou o ato, entretanto o Ministério da Cultura atribuiu a sua saída a desentendimentos a respeito da “condução de vários desafios” na escola, que foi fundada há mais de 265 anos e é uma das mais estimadas instituições acadêmicas da Dinamarca. A taxa de aceitação nos programas universitários da escola é de 5%, e entre os seus mais importantes ex-alunos estão o artista Olafur Eliasson, e o designer e arquiteto Arne Jacobsen.

Dirckinck-Homfeld afirmou esperar que isto tenha levado a uma reflexão mais ampla sobre o papel das instituições culturais durante o período colonial, e a vincular o legado colonial com políticas controvertidas atualmente em curso, como as chamadas leis do gueto. Defendidos pelo governo como uma maneira de desmantelar os enclaves mais pobres de imigrantes não ocidentais a fim de integrá-los mais completamente na sociedade dinamarquesa, o conjunto de iniciativas é criticado por muitos como cruel e discriminatório.

“Tudo isto tem a ver com o confronto com a nossa própria imagem”, ela disse. “Na consciência dinamarquesa, existe a convicção de que nós fomos uma potência colonial muito pequena e amistosa, e também de que o racismo é um problema americano”.

A de Frederick V não foi a primeira estátua dinamarquesa a ser alvo de protestos no ano passado. No verão, imagens do missionário Hans Egede na Groenlândia e Copenhague foram pintadas de vermelho e pichadas com a inscrição “descolonizar”. Não muito depois, as palavras “peixe racista” foram rabiscadas no pedestal da escultura da Pequena Sereia - que tem sido repetidamente vandalizada e inclusive decapitada ao longo dos anos - sem que fossem descobertos os motivos de tais atos.

Mas enquanto no verão passado ativistas da justiça racial derrubaram alguns monumentos nos EUA e na Grã-Bretanha, muitos dinamarqueses não consideram as estátuas da sua realeza do século 18 problemáticas - e veem as ações contra elas não como manifestações da liberdade de expressão, mas como impedimentos a ela.

(Depois que a estátua de Egede na Groenlândia foi vandalizada, os groenlandeses votaram aprovando a sua permanência no lugar.)

“É a lógica da deflecção”, disse Mathias Danbolt, professor adjunto de história da Arte da Universidade de Copenhague. “O escândalo nunca é motivado  pela história visual, política ou cultural do colonialismo. O escândalo é sempre motivado por esta acusação”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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