Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times
Holland Cotter, The New York Times - Life/Style

14 de setembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK - Uma fortaleza amarelo-cinzenta de pedra, aço e vidro no Central Park, o Metropolitan Museum of Art (MET) pretende excluir basicamente tudo o que o parque representa. Ele é isolado do mau tempo, da mudança das estações, e das mudanças naturais de todo tipo do museu. A única parte do museu que constitui uma exceção é o Cantor Roof Garden. Aberto às intempéries, é lavado sucessivamente pela água e pelo sol o ano todo.

E embora o restante do museu tenha permanecido escuro e silencioso desde o início do lockdown, o seu terraço, está cheio de vida. As sementes, carregadas pelo vento, brotaram no chão. Patos selvagens fizeram seu ninho e constituíram família em uma caixa de plantas. Em julho, os trabalhos de instalação de uma escultura do artista Hector Zamora, da Cidade do México, inacabados desde março, voltaram com força total em tempo para a reabertura do MET ao público em geral, no dia 29 de agosto. (Seus membros o visitaram nos dias 27 e 28.)

O projeto de Zamora, Lattice Detour, o oitavo de uma série de encomendas anuais para o terraço do museu, revela-se perfeitamente adequado ao momento e ao local. Organizado por Iria Candela, a curadora do museu no setor de arte latino-americana, é um monumento à abertura em contraposição ao fechamento, à leveza contra o peso, ao passageiro contra o permanente. É também uma imagem carregada de significado político de tudo o que um muro - e especificamente o muro planejado para a fronteira entre EUA e México  aplaudido por sua “beleza” por nosso atual presidente - deveria ser e representar.

Ao entrarmos no Roof Garden, descendo do elevador, a peça parece exatamente o oposto da abertura e da luz. Esta parede curva  de tijolos de terracota, de mais de 30 metros de comprimento e 7 de altura, parece ter uma superfície sólida, e estar posicionada de maneira perversa para obstruir a visão espetacular do parque e do horizonte de Manhattan com seus arranha-céus. Temos a impressão de que para absorver esta visão ao ar livre é preciso contornar este obstáculo proibido.

Mas à medida que nos aproximamos, a superfície revela-se lentamente de uma transparência inesperada: os tijolos, constatamos, são vazados e formam uma malha porosa. Ao nos deslocar-nos ao longo do muro, a textura aberta se torna gradativamente clara. Quando olhamos o muro diretamente, temos a visão plena, embora filtrada através dele - como pixelizada - do parque  e da cidade ao longe. Além disso, se voltarmos mais tarde, no decorrer do dia, veremos o muro produzir desenhos cambiantes de sombra e luz. De maneira mais dramática, de manhã cedo e à noite, e indubitavelmente nas noites de lua cheia.

Ao mesmo tempo, o muro é, por tradição, uma barreira proposital, através da qual, neste caso, podemos olhar, mas não atravessar. No sentido mais agressivamente político, um  muro é um instrumento de divisão e exclusão, com o objetivo de “nos” manter distantes “deles”, dos desprezados e temidos, uma dinâmica extremamente familiar aos americanos de ambos os lados da nossa fronteira meridional, hoje em dia.

Zamora, cuja estreia individual em Nova York se dá com esta encomenda, fez um comentário político por meio da arquitetura, que é central à sua obra. Em 2004, ele construiu uma estrutura temporária de aço e madeira do lado de fora do Museo de Arte Carrillo Gil, na Cidade do México, e viveu neste apêndice durante semanas, ligando-se à rede de força do museu para ter eletricidade. A peça, Parachutist, Av. Revolucion, 1608 Bis, referindo-se aos barracos erguidos pelos sem teto às margens da cidade, e à inclusão da presença de um “outsider” agora comerciável, no mundo da arte correntemente aceita.

Em 2009, ele instalou uma obra intitulada Atopic Delirium em dois edifícios modernistas praticamente idênticos no centro de Bogotá, na Colômbia. Um com inquilinos de classe alta; o outro caindo aos pedaços. Ele instalou em um apartamento no último andar de cada edifício cachos de bananas maduras, tantas bananas que a fruta parecia explodir como um tumor das janelas e começou a apodrecer em poucos dias.

Os tijolos usados na peça do MET foram fabricados no México. Trazidos de lá - de caminhão cruzando a fronteira até Nova York - acrescentam uma dimensão tópica ao muro de Zamora, assim como o fato de que, na construção, ele usou os tijolos de uma maneira inusitada. Em geral, eles seriam empilhados verticalmente, com as extremidades abertas invisíveis, formando colunas verticais. Na peça do Met, eles são colocados horizontalmente, de forma que suas cavidades, e o desenho geométrico que revelam, se tornam funcionais de uma maneira diferente, prática, mas também estética, ornamental.

E arte histórica. A curva do muro, e seu jogo de transparência e densidade, trazem à mente outra escultura anterior semelhante a um muro, Tilted Arc,  de Richard Setta de 1981. A obra de Serra também era curva e isolada, mas totalmente sólida e interrupta.

Com 3,6 metros de altura, de aço Corten escuro, ela cortava a praça em frente ao Federal Building, em Lower Manhattan. Os funcionários de escritório que atravessavam diariamente o espaço criticaram inicialmente a obra pela intrusão de sua massa que os obrigava a alterar o trajeto, e por sua feiura total, na opinião de muitos. Em 1989, depois de uma acesa batalha legal, Tilted Arc foi retirada.

A obra encomendada pelo MET a Zamora é ao mesmo tempo uma homenagem e um crítica a Tilted Arc. Desse modo, ela reafirma a ideia de que a arte pública e a política deveriam ser - apenas ser - inseparáveis. E sugere que, de uma maneira que os atuais líderes dos EUA sequer podem começar a imaginar, um muro pode expandir e aprofundar o nosso amor por um mundo que nenhuma política de agressão ou de proteção jamais poderá excluir. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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