Dmitry Kostyukov / The New York Times
Dmitry Kostyukov / The New York Times

Um lar novo e seguro para os tesouros ainda não vistos do Louvre

Um centro de conservação ultramoderno no norte da França é um paraíso para itens ameaçados de inundação do porão do museu no centro de Paris

Elaine Sciolino, The New York Times - Life/Style

17 de março de 2021 | 05h00

LIÉVIN (França) – É o passo mais ambicioso da história do Louvre – um projeto de cinco anos para transferir 250 mil obras de arte para um depósito ultramoderno a 193 quilômetros de distância, no norte da França.

Por mais de 16 meses, um fluxo de caminhões transportou silenciosamente tesouros do porão central do museu em Paris, e de outros locais, para o Centro de Conservação do Louvre, fortaleza da cultura localizada em Liévin, cidade perto de Lens.

Cem mil obras já foram transportadas – incluindo pinturas, tapeçarias, grandes esculturas, pequenas estatuetas, móveis e peças decorativas – que datam da antiguidade ao século XIX.

Com os museus fechados na França por causa da pandemia, Jean-Luc Martinez, diretor do Louvre, tem tempo de sobra. Recentemente, ele levou um pequeno grupo de repórteres para visitar o local recém-operacional, destinado a se tornar um dos maiores centros de pesquisa de arte da Europa e a receber os especialistas em museus, acadêmicos e curadores de todo o mundo.

O Louvre fica em um terreno baixo às margens do Sena. Em 2016, as enchentes em Paris foram tão severas que o próprio museu foi ameaçado, o que levou a uma operação de emergência ininterrupta para embrulhar, guardar e transportar milhares de objetos de arte do galpão subterrâneo para um terreno mais alto.

O projeto de conservação em Liévin, que custou 60 milhões de euros (cerca de US$ 73 milhões), começou no fim de 2017 como uma resposta necessária ao aumento imprevisível e inevitável do nível do rio.

"A realidade é que nosso museu está em uma zona de inundação. Não se pode simplesmente levantar e mover as esculturas de mármore. Havia o perigo de que o esgoto invadisse a instituição e de que a água suja e fedorenta danificasse as obras de arte. Precisávamos encontrar uma solução. Urgentemente", disse Martinez durante o passeio.

O Louvre considerou, e depois rejeitou, a ideia de construir um local próximo a Paris: muito caro e pouco prático. Em vez disso, escolheu Liévin, a dez minutos a pé do posto avançado do minimuseu do Louvre na cidade vizinha de Lens, inaugurado em 2012.

Essa região da França, que já foi um próspero centro de mineração, nunca se recuperou economicamente do bombardeio que sofreu na Primeira Guerra Mundial e do colapso da indústria do carvão. As autoridades locais estavam tão ansiosas para expandir a presença do Louvre – e atrair visitantes – que venderam grande parte do terreno para o Centro de Conservação pela quantia simbólica de um euro.

A estrutura de vidro, concreto e aço, inaugurada em outubro de 2019, parece um bunker no estilo Bauhaus, parcialmente enterrado na paisagem.

Um subsolo de areia calcária acima da rocha calcária absorve o excesso de chuva. Um sistema alemão especial de detecção de vazamento impermeabiliza duplamente o telhado. Os complexos sistemas de segurança protegem o edifício contra ataques terroristas e incêndios. As luminárias verdes brilhantes penduradas por toda a instalação prendem e matam os inimigos perigosos, como o besouro comum que danifica os móveis.

Os caminhões transportam as obras de arte para uma garagem, onde são descarregadas e colocadas em uma câmara temporária para aclimatá-las e eliminar os contaminantes. Seis cofres de armazenamento com parede de concreto, cada um focalizando um tipo diferente de objeto, estendem-se por quase um hectare. Há espaços para artesãos, restauradores, pesquisadores e fotógrafos do Louvre e também de outros museus. O Louvre espera que o local possa um dia servir como um refúgio para a arte em perigo de destruição em países que enfrentam guerras e conflitos.

Percorrendo os cofres com teto alto, iluminação fluorescente e janelas do chão ao teto, Martinez parou num local em que pedaços de mármore e pedra estavam embrulhados em plástico e empilhados em caixotes de madeira em pesadas prateleiras de metal. "Em um bom depósito, não há muito para ver. Está tudo bem embrulhado", comentou com uma pitada de desculpas na voz.

De repente, em uma prateleira alta perto do teto, ele avistou uma intrincada obra em mármore, esculpida por Bernini e destinada a servir de base para uma famosa estátua antiga no Louvre de um hermafrodita adormecido. E então, em uma prateleira inferior, ele apontou para um pedaço de pedra de 590 quilos que já fez parte de um edifício localizado perto do antigo local grego da Vitória de Samotrácia, outra escultura preciosa da coleção do Louvre. "Um pesquisador poderia pedir para ver o Bernini, ou dizer: 'Quero ver a peça de Samotrácia!'", observou.

Em um cofre próximo, Isabelle Hasselin, curadora sênior, examinou e catalogou mais de uma dúzia de pequenas estatuetas de terracota da deusa romana Minerva, encontradas na Turquia. Hasselin retirou uma – duas mulheres de braços dados – de uma gaveta de um armário de metal, explicando como a peça havia sido mal restaurada com cola e um alfinete de metal na década de 1960. "Podemos fazer pesquisas profundas aqui, longe da agitação de Paris – e longe da preocupação com as enchentes. Que alívio", disse.

Com 620 mil obras, a coleção do Louvre é a maior do mundo. Apenas 35 mil delas estão em exibição em Paris; outras 35 mil foram compartilhadas com museus regionais na França. Mais de 250 mil desenhos, gravuras e manuscritos – muito frágeis para ser expostos à luz – ficarão armazenados no Louvre de Paris, em um andar alto, a salvo das inundações.

O porão não é o único refúgio do Louvre para obras de arte que não são vistas. Algumas estão escondidas em outras áreas de armazenamento em todo o museu; outras são mantidas em locais secretos em todo o país, para onde foram transferidas por segurança ao longo dos anos. No fim de dezembro, 80 por cento das obras na zona de inundação mais vulnerável foram removidas, de acordo com Brice Mathieu, diretor do Centro de Conservação.

No processo, os curadores fizeram algumas descobertas surpreendentes. Uma caixa de madeira esquecida estava cheia de fragmentos de cerâmica de seis mil anos da antiga cidade persa de Susa; os restauradores juntaram tudo em um vaso. Outra descoberta de Susa foi um ombro de pedra que pertencia à escultura da deusa Narundi, datada de quatro mil anos.

Enquanto Martinez vagava pelos corredores do centro com Marie Lavandier, diretora do museu Louvre-Lens, eles se depararam com uma caixa de couro do século XVIII decorada com flor-de-lis dourada que provavelmente já teve uma coroa. Lavandier tirou uma foto com o celular. "Vejo um objeto como esse e digo a mim mesma, de verdade, que estamos protegendo todos os tesouros e a sofisticação do museu ao longo da história. Isso mexe demais comigo", completou a diretora.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.