Ulet Ifansasti / The New York Times
Ulet Ifansasti / The New York Times

Um álbum lançado por 44 gravadoras. Esse é o novo jukebox global?

Por uma década, Senyawa ajudou a redefinir como a música indonésia soava. Agora, a dupla quer revolucionar a forma como ela é ouvida

Grayson Haver Currin, The New York Times - Life/Style

08 de março de 2021 | 05h00

Quando os bloqueios por causa do coronavírus começaram a aumentar entre as 900 ilhas habitadas da Indonésia no fim de março do ano passado, Rully Shabara e Wukir Suryadi, como muitos artistas em todo o mundo, passaram a se preocupar com seu futuro musical.

Durante a última década, o duo, chamado Senyawa, emergiu como um dos únicos emissários internacionais da rica cena experimental da Indonésia. Apresentou-se pelas ilhas do sudeste asiático e participou de festivais de prestígio no exterior, ganhando 90 por cento de sua renda em turnês. Sua mistura tumultuada da virulência do heavy metal com a confusão do free jazz – vociferada no barítono atlético de Shabara e apoiada pelos elaborados instrumentos caseiros de Suryadi – dissipou a noção de que toda música indonésia soa como um gamelão ou hipnotiza como um estilo popular.

"Quando o Senyawa começou, o máximo que se conhecia da Indonésia era o gamelão, ou Bali; as pessoas achavam que só se toca música tradicional aqui. Se você queria ir aos Estados Unidos e gritar, todo mundo esperava que você tocasse flauta. Mas agora se conhece a música indonésia. Essa porta foi aberta", disse Shabara, rindo, durante uma recente videochamada de Yogyakarta.

A pandemia ameaçou fechar essa porta de novo, por isso o Senyawa apresentou um plano não convencional. Em setembro passado, enquanto preparava seu novo álbum, Alkisah, o duo decidiu que sua música não seria mais lançada por uma única gravadora. Em vez disso, faria uma chamada on-line aberta para qualquer selo disposto a se alistar em uma confederação global, com cada membro vendendo pequenas edições localizadas do mesmo álbum. Pelo menos 44 gravadoras espalhadas por quatro continentes vão oferecer versões exclusivas de Alkisah, cada uma com um projeto gráfico distinto e, em muitos casos, faixas bônus. É a iteração mais audaciosa até agora do novo credo do Senyawa: "A descentralização deve ser o futuro."

"Não se trata mais do Senyawa. Não se trata de nosso álbum. Não queremos dominar ninguém. Essa pode ser a música de qualquer um", afirmou Shabara, batendo com o dedo em direção à tela enquanto Suryadi, de pernas cruzadas, empoleirava-se atrás dele como um louva-a-deus, dando longas tragadas em um cigarro.

A menos que um álbum seja lançado por conta própria, a maioria deles fica sob a alçada de uma única gravadora. Ou um selo pode lidar com um disco nas Américas, enquanto outro assume as rédeas na Europa ou na Ásia. Na melhor das hipóteses, as partes interessadas coordenam as datas de lançamento ou as estratégias promocionais, com prioridade muitas vezes oferecida à gravadora com a maior participação potencial no mercado. Esta é um membro desigual em uma equipe solta.

O Senyawa se perguntou o que aconteceria se não só aumentasse a equipe para um tamanho incomumente grande, mas também desse aos participantes uma relativa autonomia. Afinal, Alkisah é uma suíte vertiginosa de oito músicas sobre a revolução que é possível quando as potências mundiais entram em colapso, construída sobre uma base divertida de rock progressivo, noise, metal e um pouco de canto tradicional. Por que não repensar, de todos os ângulos, o próprio sistema que entrega música aos ouvintes?

A dupla distribuiu gráficos e arquivos de áudios, incentivando as gravadoras a criar capas que possam atrair seu público e a encomendar remixes que garantam a empolgação local.

"Queremos que os selos se apropriem do trabalho. Uma pessoa em Beirute pode ter o álbum do Senyawa, mas deve soar como um álbum de Beirute, não da Indonésia", comentou Shabara. A capa de Beirute brilha em laranja iridescente e rosa, com o nome da banda rabiscado em árabe. Uma das quatro edições alemãs é nítida e impressionante, sugerindo uma música eletrônica minimalista descolada. Juntas, as diversas edições de Alkisah ostentam cerca de 200 remixagens.

Quando James Vella ouviu pela primeira vez o plano do Senyawa em outubro passado, ficou intrigado com o conceito, embora pragmaticamente incerto. Seu selo britânico ilimitado, Phantom Limb, havia lançado anteriormente o trabalho solo de Shabara, e ele adorava o ardor aventureiro do duo. Mas será que sua nova empreitada poderia se dar ao luxo de dividir o público do rock experimental indonésio com mais de 40 outras marcas?

"Como fãs, queríamos dizer sim. Mas qualquer gravadora minúscula está sempre a um lançamento do fracasso. Se investir tempo e recursos em um álbum que não vende, pode ser sua sentença de morte. Isso aqui é um pouco mais complicado", explicou Vella por telefone, de Londres.

Ele, no entanto, começou a entender que esse plano melhoraria o tipo de compartilhamento de recursos que alguns selos já utilizam. O Phantom Limb, por exemplo, fez uma parceria com uma marca belga para comercializar Alkisah. As 44 gravadoras agora se juntam no aplicativo de bate-papo Discord, trocando ideias e informações.

Essas empresas internacionais privadas se fundiram digitalmente de fato em uma rede de ajuda mútua, espelhando o etos de Senyawa em seu país. Com uma loja de montagem de instrumentos, estúdio, cozinha, dormitórios e até mesmo colmeias dentro de casa, seu complexo em Yogyakarta lembra o loft de um artista de uma Nova York que já não existe. O grupo licencia molho picante, cigarros e incensos da marca Senyawa para auxiliar a comunidade. Durante a pandemia, Shabara desenhou 200 retratos de estranhos; em troca, cada um deles concordou em alimentar um vizinho.

Para as gravadoras, não se trata apenas de altruísmo. O Senyawa contratou a Morphine Records em Berlim para supervisionar a produção e a distribuição de 2.300 cópias para uma dúzia de selos, gerando custos muito mais baixos do que se essas empresas fizessem pedidos separados. Uma em Bali vai receber 50; outra, na Espanha, 200. A economia significa que cada transação pode render US$ 10, dando a essas marcas de butique uma chance rara de obter um lucro modesto. A Phantom Limb vendeu o que Vella chamou de uma parte "saudável" de suas 300 cópias antes mesmo do lançamento de Alkisah.

"Pode haver apenas 500 pessoas interessadas no álbum que estou divulgando, mas estou tentando encontrar todas elas, onde quer que estejam no mundo", afirmou Phil Freeman, cuja Burning Ambulance é uma das duas minúsculas gravadoras americanas que trabalham com o Senyawa.

Shabara se emocionou quando discutiu a viabilidade futura desse esquema, detalhando os refinamentos organizacionais que ele imagina. E Rabih Beaini, proprietário da marca alemã que cuida da fabricação, sugeriu que as bandas grandes e as pequenas poderiam aumentar seu público recrutando uma infinidade de parceiros cooperativos. "Você poderia ter cem selos que alcançariam mercados obscuros em países onde normalmente você não venderia sua música. É bastante utópico", disse Beaini, de Berlim.

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