via Barbican Art Gallery
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Décadas mais tarde, um holofote só para Lee Krasner

A pintora mostrava cores vibrantes, suportes misturados e nenhum estilo particular

Jason Farago, The New York Times

01 de setembro de 2019 | 06h00

LONDRES - Um emaranhado de contas; um enevoado retângulo em meio a um campo de pigmento escuro; um rígido zíper cortando uma tela vazia… Nos primeiros anos do pós-guerra em Nova York, os expressionistas abstratos buscavam uma aparência que os distinguisse. Mas Lee Krasner desconfiava de pinturas nos quais marcos específicos funcionavam como autógrafos alternativos - mesmo quando o autógrafo era do próprio marido.

Ela se orgulhava de não ter um estilo único. Era necessário entender cada pintura por si mesma, disse ela, para não acabarmos com “algo rígido em vez de vivo”.

Ainda assim, Lee recebeu pouca atenção dos museus até chegar aos 60 anos, e raramente saiu da sombra de Jackson Pollock, com quem foi casada de 1945 até a morte precoce dele, em 1956.

Não seria correto dizer que ela nunca teve reconhecimento. É uma das poucas pintoras a receber uma retrospectiva completa no Museum of Modern Art: a exposição foi inaugurada poucos meses depois de sua morte, em 1984. Em maio, uma panorâmica de Lee pintada em 1960 foi leiloada por US$ 11,7 milhões, um recorde para a artista.

Mas ainda é raro vermos uma explosão de sua arte na dimensão de “Lee Krasner: Living Color", exposição em fase final na Barbican Art Gallery, em Londres, antes de ser reaberta em outubro na Schirn Kunsthalle Frankfurt. No ano que vem, a exposição estará no Zentrum Paul Klee, em Berna, Suíça, e em seguida no Museu Guggenheim em Bilbao, Espanha.

É uma exposição simples, educada e totalmente segura. Sua apresentação cronológica lembra um curso introdutório.

Ainda assim, se a exposição reunir apenas menos de 100 obras para apresentar a oscilante carreira de Lee a um novo público, já ficarei satisfeito. Suas pinturas mais importantes, especialmente os violentos anéis e manchas de tinta dos meses seguintes à morte de Pollock e os tempestuosos quadros monocromáticos dos anos 1960, trazem uma autoridade persistente.

Lee era filha de refugiados ucranianos, a primeira filha do casal nascida nos Estados Unidos. Em 1937, ela ganhou uma bolsa de estudos para trabalhar com Hans Hofmann, imigrante alemão considerado o professor de arte mais progressista de Nova York. Os desenhos de observação com carvão feitos por ela nas aulas dele são uma das primeiras revelações dessa exposição: circuitos de carvão densos e enevoados.

Suas primeiras pinturas abstratas demonstram uma profunda habilidade técnica mesmo quando parecem excessivamente calculadas. Redes rítmicas de tinta preta sobre fundos multicoloridos têm uma qualidade decorosa, enquanto outras pinturas incorporam glifos e símbolos semelhantes aos de seus colegas de Nova York, Bradley Walker Tomlin e Mark Tobey, bem como as primeiras telas de Pollock, que ela conheceu em 1941.

Em 1945, o casal se mudou de Nova York para Springs, cidade rural no extremo oriental de Long Island. Trabalhando no celeiro, Pollock descobriu a técnica do gotejamento. Lee fazia pinturas menores e mosaicos que também apostavam na sua composição não hierárquica. Ela expôs muitas dessas obras em 1951, mas a exposição foi um fracasso - e Lee fez as telas em pedaços.

Ela começou a compor camadas para suas abstrações rasgadas com estopa, novos desenhos, e até alguns quadros descartados de Pollock, feitos com o gotejamento. Os resultados foram colagens chocantes e sísmicas, transbordando confiança.

Essas colagens fantásticas, concluídas em 1954-55, ajudam muito a corrigir o equívoco segundo o qual Lee só teria se encontrado enquanto pintora após a mort de Pollock, em meados de 1956. 

Ainda naquele ano, ela completaria o quadro articulado mais importante da sua carreira: “Prophecy", uma composição selvagem e espasmódica que parece destinada a explodir para fora da moldura estreita e vertical. A figura retorna, sob a forma de uma mulher nua e quebrada, com a carne rosada escorrendo por contornos pretos. Três outros quadros estendem o tema nesse mesmo ano.

Ainda é fácil demais ler esses quadros brutais como manifestação de pesar. Para Lee, a vocação da pintura ia muito além da expressividade pessoal, e ela não era sentimentalista; já em 1957, tinha se mudado para o estúdio de Pollock no celeiro, onde tinha espaço suficiente para trabalhar na escala de murais. Foi ali que ela executou as grandiosas abstrações quase monocromáticas que são mais físicas do que todas as obras que as antecederam. A tinta mancha a tela sem tratamento como a sujeira ou o sangue.

Essas primeiras abstrações em larga escala me parecem bastante teatrais. Parece haver mais recompensas nos coloridos panoramas dos anos 1960 - como nos quatro metros de largura de “Combat", concluída em 1965 e emprestada à National Gallery of Victoria, em Melbourne, Austrália, canalizando seu amor pelas cores vivas de Matisse em um desfile de bolhas rosas e manchas.

Mas o expressionismo abstrato sempre foi uma maneira extravagante de pintar, e algo de teatral sempre fez parte do pacote americano. O que Lee desejava - e provou, nos seus melhores momentos - era que não houvesse oposição entre o teatral e o cerebral, havendo espaço para ambos em uma vida dedicada à pintura.

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