Mason Trinca para The New York Times
Mason Trinca para The New York Times

Projeto usa plástico de oceano para criar esculturas de animais ameaçados pela poluição

Washed Ashore já retirou cerca de 26 toneladas de lixo das praias

Alex V. Cipolle, The New York Times

01 de abril de 2020 | 06h00

BANDON, Oregon - Angela Haseltine Pozzi olha nos olhos de Cosmo, um papagaio-do-mar de 1,8 metro de altura em um penhasco com vista para o litoral do Oregon, batido pelo vento. Cosmo suporta as intempéries sem problemas, pois é feito de plástico, uma escultura da organização sem fins lucrativos Washed Ashore, de Angela.

“Recolhemos 26 toneladas de material das praias", disse Angela, “o que causa pouco impacto no problema mais amplo da poluição, mas ajuda na conscientização do público, fazendo as pessoas despertarem".

A Washed Ashore pegou o lixo, os detritos que o mar traz às praias do Oregon como chinelos e garrafas, e construiu 70 esculturas de grande porte, número que está aumentando. Entre elas estão o polvo Octavia, a tartaruga Edward e o urso polar Daisy. 

Os animais - todos são de espécies ameaçadas pelo lixo do qual são feitas as esculturas - foram expostos em todo o território dos Estados Unidos, da Praça das Nações Unidas em Nova York até o Museu Nacional Smithsonian de História Natural em Washington, passando pelo Zoológico de Tulsa, em Oklahoma. 

Angela treina os funcionários locais e passa a eles o conteúdo criado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que estima em oito milhões de toneladas métricas o total de plástico que chega ao oceano por ano. Os animais podem ficar presos no plástico ou ingeri-lo.

“Ela usou um conceito acessível a crianças e adultos para criar esses animais incríveis, mas a mensagem é muito poderosa: a poluição pelo plástico alcança uma escala que jamais sequer sonhamos", disse Don Moore, do Zoológico do Oregon.

A ONG foi inspirada em parte pela criação de Angela em meio à arte e à natureza, como filha dos artistas James Haseltine e Maury Wilson Haseltine. 

Foi também o resultado de uma tragédia pessoal. Angela vivia com o primeiro marido, Craig Pozzi, e a filha em Vancouver, Washington. Depois de um diagnóstico equivocado, Pozzi morreu em decorrência de um tumor cerebral em 2004. Angela recebeu US$ 2,4 milhões em um processo na justiça.

“Eu me mudei para Bandon porque estava péssima e tinha que descobrir como cicatrizar", disse ela. Na infância, ela visitava a casa da avó na cidade. Descobriu-se caminhando pelas praias, ao encontrar intermináveis pedaços de plástico.

Ela decidiu que salvaria o oceano, e esse seria o legado do marido. Com o dinheiro do processo, ela fundou a Washed Ashore. Passados dez anos, a ONG tem seis funcionários, trabalhando com aprendizes de arte e mais de 10 mil voluntários.

Em uma tarde recente de sábado, voluntários reuniam pedaços de plástico pretos, brancos e laranjas - as cores do condor da Califórnia. Angela disse que as esculturas não eram “arte comunitária improvisada”, e sim o resultado de uma comunidade que cria arte junta.

“O trabalho só vale à pena se for poderoso, e essa força é transmitida usando os elementos e princípios da arte", disse ela, acrescentando, “quero ser a voz deles”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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