Yasushi Ichikawa/Corning Museum of Glass via The New York Times
Yasushi Ichikawa/Corning Museum of Glass via The New York Times

Vidro quebrado inspira os trabalhos da artista Rui Sasaki

Obra exposta em museu consiste de mais de 200 peças de vidro fosforescente em forma de gotas de chuva que Sasaki levou um ano para produzir

Ted Loos, The New York Times - Life/Style

28 de setembro de 2020 | 05h00

Artistas e designers que trabalham com cerâmica e vidro são considerados indivíduos delicados. Afinal, eles são especializados em obras que que quebram facilmente. Mas o inverso também é verdade. É preciso ser muito valente para soprar vidro ou lidar com um forno, uma vez que o derretimento do vidro, as explosões e os estilhaços provocados fazem parte do processo.

Rui Sasaki se enquadra neste molde. Uma pessoa de voz macia, mas extremamente obstinada na sua exploração de um meio artístico complexo e, em grande escala, como a que talvez seja sua obra mais conhecida, Liquid Sunshine/I am a Pluviophile, uma encomenda para o Museu do Vidro Corning, em Corning, Nova York, que ficou em exposição até janeiro deste ano e agora faz parte da coleção do museu.

A obra consiste de mais de 200 peças de vidro fosforescente em forma de gotas de chuva que Sasaki levou um ano para produzir. No momento, ela trabalha numa nova versão da peça para o Toyama Glass Art Museum. “Fragilidade e vidro quebrado são uma inspiração para mim”, disse a artista, que tem 36 anos, falando de sua casa em Kanazawa, no Japão. “Isso porque o vidro é muito frágil, mas realmente forte, muito mais forte do que o ferro em alguns aspectos”.

“É uma importante inspiração para mim. Nós nunca temos de fato muita luz do sol na minha área, na maior parte do tempo chove no Japão. Está sempre nublado”. Sasaki  disse que cresceu num subúrbio de Tóquio muito mais ensolarado. Em vez de criar objetos estáticos, ela prefere as instalações. No museu de Corning, Liquid Sunshine é uma experiência em que os visitantes ficam numa sala escura onde as luzes apagam cada vez que alguém entra, por meio de um detector de movimento.

As lascas de vidro fosforescentes que são constantemente carregadas eletricamente, brilham, mas atenuam durante o tempo em que as pessoas permanecem no espaço, “como a luz solar se apaga durante os dias escuros do inverno”, escreveu a artista nos seus comentários sobre a peça. Ela também usou vidro fosforescente na sua obra de 2015, Weather Chandelier, que estava conectada a um painel solar. O material especial é encomendado da China.

Susie Silbert, curadora do museu de Corning, que organizou a exposição de Liquid Sunshine, disse que o preparo da instalação por Sasaki deixou-a impressionada. “Ela se reuniu com cientistas para ver como o vidro transparente funciona com a fosforescência. Ela realmente teve de solucionar a questão. Foi feita muita pesquisa. Nem todas as formas de vidro conseguem”.

Embora Sasaki crie objetos esteticamente belos, seu trabalho também envolve uma leve ameaça. No caso da sua instalação de 2010, Walking on Glass, realmente ocorreu isso, com os visitantes pulverizando painéis de vidro, que viravam pó. Para Self-Container nº2, exibida em 2015, ela criou uma caixa de blocos de vidro transparentes, abertas na parte de cima, larga o bastante para encaixar seu próprio corpo numa posição dobrada.

“Eu queria ser arqueóloga ou cirurgiã”, disse ela. Mas quando ainda estava na escola secundária ela viajou com o pai para Okinawa, um centro de atividade de artesãos no Japão, onde viu pela primeira vez como soprar vidro. “Fiquei impressionada. Fascinada com o trabalho e então mudei minha meta em termos de carreira.

Quando criança “eu era obcecada por nadar no oceano e na piscina. Queria estar dentro d'água o tempo todo e estava realmente interessada em material transparente”. Depois da visita a Okinawa, ela mentalmente fez a  conexão: “Água é vidro. Vidro é água”. Sasaki lembra de ter dado a má notícia para os pais. “Disse a eles que desejava ser artista e eles reagiram dizendo ‘oh meu Deus, você vai escolher uma vida instável’. Eles ficaram muito surpresos”.

Sasaki, que é professora de uma escola de artes local, Kanazawa Utatsuyama Kogei Kobo, concluiu sua formação na Musashino Art University, em Tóquio, em 2006. E ingressou mais tarde na Rhode Island School of Design (RISD) onde fez um mestrado em Belas Artes e aperfeiçoou seu inglês.

“Seu ingresso na RIS foi um choque cultural para ela”, disse Jocelyne Price, diretora do departamento de atividades com vidro, na escola, e uma das professoras de Sasaki. “Eu quase a reprovei no primeiro semestre. Mas sua tenacidade a favoreceu”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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