Jeenah Moon/The New York Times
Jeenah Moon/The New York Times

Obras de arte falsificadas acabam voltando ao mercado

Apesar de ser esperado que sejam destruídas, cópias falsificadas de trabalhos de artistas renomados acabam retornando ao mercado e seguem enganando pessoas

Milton Esterow, The New York Times, Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 05h00

Quem pensa que obras de arte declaradas falsas simplesmente caem em desgraça ou são destruídas, deveria falar com Jane Kallir, autora do catálogo raisonné de Egon Schiele, o pintor austríaco. Ela recebeu a mesma aquarela falsa de Schiele para autenticação, ela disse, 10 vezes de 10 colecionadores diferentes.

Ou talvez deva conversar com David L. Hall, o ex-promotor federal que costumava lidar com casos da equipe responsável por crimes de arte do FBI. Ele contará a você sobre uma aquarela atribuída a Andrew Wyeth que chegou ao mercado três vezes depois que o próprio Wyeth disse que era falsa.

Um negociante pagou US $20.000 por ela e, quando tentou vendê-la em um leilão em 2008, o curador da coleção de Wyeth a reconheceu e contatou o FBI, que a apreendeu. Finalmente, o FBI a deu para Hall como um sinal de agradecimento por todos os anos que ele passou investigando os casos dessa linha.

“Está em uma prateleira em meu escritório”, disse Hall, agora no setor privado, em uma entrevista. “Quando a apreendi, escrevi ‘falsificação’ com tinta no verso.”

Embora possa ser reconfortante ouvir sobre falsificações que são destruídas por ordens de juízes ou corajosamente marcadas como fraudes, a realidade é mais complicada.

Obras declaradas falsas frequentemente seguem caminhos diversos, de acordo com autoridades policiais, acadêmicos e veteranos do mercado de arte. Algumas são retidas pelas universidades como instrumentos de estudo, outras como legados de doadores bem-intencionados que não tinham um olhar especializado. Algumas foram usadas em uma operação policial por um agente secreto que esperava que o senso de riqueza criado por pinturas extravagantes em um iate fosse uma parte persuasiva de seu disfarce.

Mas muitas das obras, os especialistas dizem, têm segundas vidas muito semelhantes às primeiras: como falsificações recicladas para compradores desavisados.

“Vemos que as coisas voltam a circular no mercado - acho que isso acontece rotineiramente”, disse Timothy Carpenter, agente especial supervisor da equipe de crimes de arte do FBI.

A questão é complicada pelo fato de que a descoberta de que algo é falso muitas vezes nada mais é do que uma opinião – especializada e confiável em muitos casos - mas, ainda assim, uma opinião. Os proprietários de tais itens nem sempre estão dispostos a aceitar que foram enganados, especialmente se pagaram muito por um trabalho desacreditado.

“Às vezes, a experiência muda ao longo das gerações”, disse James Roundell, diretor da Dickinson, em Londres, que já chefiou o departamento de arte impressionista e moderna da Christie's.

 “Quando alguém diz ao dono de uma coleção que ele tem algo que não é genuíno, o colecionador não quer anunciar para o mundo exterior que ele tem algo falso.”

Carpenter disse que se lembrou de um caso em que um colecionador iniciante havia comprado cerca de 300 cópias, quase todas falsas, que foram recusadas quando ele tentou vendê-las em uma casa de leilões.

Carpenter disse que a casa de leilões ligou para o FBI. “Apreendemos todas essas peças”, ele disse, “mas esse cara não gostou. Ele achou que a casa de leilões não sabia o que estava fazendo. Ele achou que não sabíamos o que estávamos fazendo. Ele permitiu que ficássemos com mais ou menos 40 peças que apreendemos, mas exigiu a devolução do restante. Tivemos que devolver. São propriedade dele. ”

No fim das contas, o colecionador acabou guardando as cópias em um depósito, de onde foram roubadas, disse Carpenter. “Tenho quase certeza de que estão de volta ao mercado”, ele disse.

Embora haja muitos no mundo da arte que pensam que os fascinados por falsificações exageram sua prevalência no mercado, há poucas dúvidas de que obras desacreditadas encontram um jeito de permanecerem por aí.

Gary Vikan, ex-diretor do Museu Walters Art em Baltimore, disse que o museu tem centenas de falsificações. “São principalmente obras romanas, medievais e renascentistas adquiridas pelo fundador Henry Walters, em 1902”, disse Vikan. “Algumas obras foram vendidas a ele como pinturas de Michelangelo, Ticiano e Rafael.”

O escritório do promotor público de Manhattan tem 14 cópias falsas de trabalhos de Damien Hirst que foram recuperadas do apartamento de um falsificador em 2016, de acordo com um porta-voz.

As universidades com grandes coleções de falsificações incluem a New York University e Harvard. Elas costumam usá-las como ferramentas de ensino.

“Temos cerca de 1.000 objetos que foram doados como falsificações por negociantes, colecionadores e casas de leilão”, disse Margaret Ellis, professora emérita Eugene Thaw de conservação de papel no Centro de Conservação do New York University’s Institute of Fine Arts. “Mas, ocasionalmente, coisas são doadas para universidades e museus e mais tarde são consideradas falsas.”

“As obras vão desde bronzes gregos antigos e Rembrandts, Turners e Van Goghs falsos até cópias contemporâneas”, disse Ellis. “Isso ajuda os alunos a saberem o que estão olhando e pode ser extremamente educativo quando você os coloca lado a lado com o trabalho real. Os alunos de história da arte descobrem que a análise estilística precisa ser apoiada pela análise técnica. ”

O FBI confiscou milhares de falsificações, que normalmente não são destruídas, mas armazenadas em vários lugares.

“Não posso te dar um número exato, mas o total é mais de 3.000”, disse Carpenter. “São principalmente cópias de artistas como Pablo Picasso, Marc Chagall, Roy Lichtenstein, Andy Warhol e Joan Miró. Não vou dizer que elas estão em todos os escritórios de campo. As coisas estão meio espalhadas, mas a maior parte delas está em depósitos em Nova York, Miami, Chicago, Filadélfia e Los Angeles. ”

O FBI tem exibido raramente algumas de suas falsificações. Uma exposição, Caveat Emptor, foi apresentada pela Fordham University em 2013 e incluiu pinturas erroneamente atribuídas a Rembrandt, Gauguin, Renoir, Gris, Matisse e Chagall.

Em um caso, o FBI usou obras de arte falsas que havia confiscado como parte de uma operação policial.

Robert Wittman, ex-chefe da equipe de crimes de arte do FBI, disse que, em 2007, quando atuou como um agente secreto se passando por um negociante de arte duvidoso, ele pegou emprestado seis pinturas falsas, supostamente atribuídas a Dalí, Degas, Soutine, O'Keeffe, Klimt e Chagall de um depósito do FBI em Miami para "provar a dois mafiosos franceses que eu era real".

Os mafiosos o conheciam como Bob Clay. “Ao usar meu primeiro nome verdadeiro”, ele disse, “eu estava seguindo uma regra fundamental para trabalhar disfarçado: manter o mínimo de mentiras. Quanto mais mentiras você conta, mais precisa se lembrar.”

O roteiro pedia que Wittman vendesse as obras para um traficante de drogas colombiano em um iate na costa da Flórida. O traficante, assim como o capitão, o ajudante e cinco mulheres de biquíni a bordo eram agentes do FBI. A venda foi concluída com diamantes falsos e uma suposta transferência bancária, mas os mafiosos acabaram desaparecendo.

“A razão pela qual a arte ajudou foi que parte da minha fama como agente secreto estava no fato de que eu lidava com pinturas roubadas”, disse Wittman. “Isso provou que eu estava envolvido em atividades criminosas.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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