Amanda Picotte/The New York Times
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Meredith Mendelsohn / The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 05h00

HUDSON, Nova York – No início deste ano, uma árvore conífera, uma tsuga, morreu no Olana State Historic Site, a antiga propriedade idílica de Frederic Edwin Church, uma importante personalidade da Hudson River School do século 19. Foi uma perda significativa, por razões ecológicas, estéticas e sentimentais. Depois de ter sido uma sentinela do gramado diante da villa fabulosa de Church, inspirada na arquitetura persa, a árvore tornou-se um artefato vivo de sua ambição artística, e de suas iniciativas menos conhecidas como proto-conservacionista, e havia sido planejada em uma época em que a sua atenção dedicada à pintura de paisagens detalhadas voltara-se para o desenho delas. 

Mas como um capítulo da vida importante da árvore havia se encerrado, uma nova fase vital começou graças a uma artista contemporânea, Jean Shin, conhecida por suas instalações em grande escala construídas com os refugos da sociedade. Shin passava o começo da primavera trabalhando no gramado verdejante da casa-museu de Church, transformando coníferas outrora majestosas em uma escultura específica do lugar. O tronco muscular de pouco mais de 12 metros de altura agora está apoiado sobre duas pedras e combina meticulosamente com uma espécie de colcha de retalhosos de couro em nuances amarelo limão e azul celeste. Shin empilhou delicadamente a sua cortiça embaixo dela, enquanto o espécime perdia a sua casca e sofria uma magnífica metamorfose.

Intitulada Fallen (Caída), a obra poderia lembrar um corpo preparado para a sepultura, e não apenas porque as nossas percepções foram coloridas por um ano de dor e perdas. “É uma mortalha feita por encomenda, para honrá-la e protegê-la”, disse Shin, enquanto inspecionava os delicados adereços de couro da árvore - um teste realizado no seu estúdio, um celeiro reformado a sudoeste de Olana. “É como um caixão aberto. Quero que as pessoas vejam a árvore de perto, para senti-la e rememorá-la. Nós perdemos esta tactilidade no ano que passou”.

De fato, os visitantes são convidados a tocar a obra, que ficará exposta publicamente em Olana até o dia 31 de outubro. A instalação foi encomendada como parte de uma exposição intitulada Cross Pollination: Martin Johnson Heade, Frederic  Church, Thomas Cole, and Our Contemporary Moment (Polinização cruzada: Martin Johnson Heade, Frederic Church, Thomas Cole, e o Nosso Momento Contemporâneo, em tradução livre), que será inaugurada no Olana e no Thomas Cole National Historic Site no dia 12 de junho.

Mas Fallen é muito mais do que um memorial. O projeto de Shin também chama a atenção ao ar livre, por trazer a consciência para o impacto produzido pela intervenção humana na paisagem ao redor de Olana no passado, presente e futuro. “Penso em tudo o que esta árvore viu durante os seus 140 anos,” disse Shin. “Ela tenta contar uma história”.

Como faz com frequência, Shin comunica esta história através dos seus materiais – neste caso, a profunda união entre o couro e a árvore pela mão da artista. “Este couro e esta árvore jamais poderiam encontrar-se” disse Shin. Milhões de árvores tsugas morreram pelas mãos da indústria do curtume do couro, na primeira metade do século 19, quando a região de Catskill prosperou como seu epicentro. A casca da árvore contém abundantes taninos, usados no processo do curtimento do couro na época, e os curtumes acabaram com quase todos os bosques desta espécie de coníferas.

“Fiquei muito impressionada pelo fato de o desejo de artigos de couro ter provocado uma destruição em massa”, disse Shin. Church também ficou impressionado. “Imaginamos a família Church olhando do alto do morro, local da casa grande em Olana, e eles percebendo com absoluta clareza trechos dos bosques cortados da cadeia da frente dos montes Catskill”, disse Will Coleman, diretor das coleções e mostras da Olana Partnership, que administra o local com o Escritório Estadual de Parques, Recreação e Preservação Histórica de Nova York.

Church respondeu reflorestando Olana, que agora é considerada uma obra de arte ambiental em grande escala. “As pessoas acham que ele estava tirando as árvores para abrir uma visão panorâmica, mas na realidade as estava plantando aos milhares”, disse Mark Prezorski, vice-diretor sênior, desde muito tempo curador da paisagem da Olana Partnership, e co-curador de Fallen.

“É realmente significativo que ele escolheu plantar uma conífera bem ao lado da casa grande”, acrescentou Coleman. “Esta foi uma espécie muito ameaçada naquele período, e ele a traz de volta, concedendo-lhe este lugar de honra.”

A árvore, agora recoberta de couro, morreu de causas naturais muito antes do seu tempo. (A tsuga pode viver mais de 600 anos.) Mas mesmo que tivesse sobrevivido, estaria sob a mira de outro inimigo, a pequena adelgid lanosa que suga a seiva das plantas, um inseto semelhante a uma abelha que há várias décadas vem matando as árvores ao longo da costa leste. Sua presença também pode ser atribuída à intervenção humana. Ela chegou com as árvores ornamentais japonesas importadas para embelezar os jardins americanos.

Shin e Church sentem certa ternura por árvores mortas. Church, que viajou o mundo colecionando fotos de suas riquezas naturais, que ele traduziu com extraordinários detalhes, muita vezes pinturas idealizadas, frequentemente imagens de troncos e galhos quebrados. De sua parte,  Shin, que nasceu na Coreia do Sul e cresceu perto de Washington, correu o risco de se ferir com lascas antes. Em 2019, quando o Storm King Art Center derrubou duas dúzias de árvores de bordo decadentes, ela salvou pedaços da madeira para fazer uma mesa comunitária enorme para piqueniques no parque das esculturas. (A obra, Allée Gathering, será instalada nos próximos meses na Art Omi na vizinha Ghent, Nova York.)

Os indesejados e os esquecidos estão profundamente entrelaçados em Fallen. Para criar sua cobertura sob medida, Shin usou pedaços de couro descartados por companhias de moda, como Marc Jacobs e Chloé. Ela os prendeu à madeira com tachas. “Pensei nisto como uma segunda pele”, ela disse, mas acrescentou: “Está parecendo mais uma armadura. Uma proteção, uma defesa contra novos machucados.” Também vem à mente uma tapeçaria fina, mas a tsuga é macia demais para mobiliário e os curtidores frequentemente a abandonaram. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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