Woohae Cho/The New York Times
Woohae Cho/The New York Times

Grande nome da arte sul-coreana, Park Seo-Bo planeja seu legado

Enquanto o pintor prossegue com o seu projeto de dois museus, as mostras continuam – juntamente com um livro sincero de sua filha

Andrew Russeth, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 05h00

SEUL, Coreia do Sul – Em 1951, enquanto a Guerra da Coreia se arrastava, um jovem artista chamado Park Jae-Hong foi para Seul. O conflito havia interrompido o seu primeiro ano na escola de artes, e ele foi obrigado a prestar serviço militar, primeiramente pelo Norte, e depois pelo Sul. Ele sobreviveu a bombardeios aéreos, a rações escassas, ao frio terrível – e conseguiu ser exonerado. De volta à capital, tentando obter dinheiro para pagar a escola, Park pediu a soldados dos Estados Unidos se podia fazer o seu retrato. Trocou os dólares por won – a moeda da Coreia – adquiriu material para trabalhar, além de congee (mingau de arroz) com as sobras das bases militares. “Uma xícara daquilo e um copo de soju, e eu ficava muito feliz”, contou recentemente por meio de intérprete durante uma visita.

Com um lenço vermelho no pescoço, Park estava sentado na Gizi, uma ampla residência, espaço de trabalho e galeria, em Seul, onde mora com a família desde 2018. Nas paredes, estavam penduradas algumas de suas obras – abstrações em cores radiantes que vibram com as linhas finas. Hoje, ele é uma figura “de enorme influência, como professor e artista”, disse Alexandra Munroe, curadora sênior do Museu Guggenheim para a arte asiática. Em novembro, ele fará 90 anos.

Embora Park caminhe com uma elegante bengala de madeira, estava repleto de energia enquanto tomávamos chá e ele lembrava de episódios sobre a sua notável carreira à medida que se aproxima de novos marcos históricos. Após uma exposição na primavera passada no White Cube, em Londres, ele tem outras na fila na Kukje Gallery, de Seul, na Tokyo Gallery+BTAP, no Japão, e no Château la Coste, na Provence. Acaba de ser lançada uma tradução inglesa de uma emocionante biografia escrita por dua filha, e ele está concluindo não um, mas dois museus de sua arte na Coreia do Sul.

Esta estratégia em duas frentes é clássica de Park, que nunca foi uma pessoa que jamais tornaria mais fácil um caminho difícil. Ele nasceu na Yecheon, na zona rural, em 1931 durante o governo colonial japonês, e seu pai queria que ele seguisse a carreira do direito. Quando foi aceito no curso de artes na Hongik University (onde se matriculou às escondidas), Park pai “não comeu por duas semanas por causa da decepção”, contou. “Um pintor era considerado um indivíduo pobre e a sua condição muito baixa na hierarquia social”.

Às vésperas da formatura em 1955, Park fugiu de Seul para evitar ser convocado pelo exército, adotando o nome Seo-Bo. E o manteve. Depois de encontrar o sucesso na mostra nacional oficial, protestou o espírito conservador da instituição com colegas artistas. Eles pediram “uma insurgência contra a obstinação do velho cenário artístico” em um manifesto, e organizaram uma mostra independente.

Como muitos de seus colegas de tendência vanguardista, Park Seo-Bo canalizou os horrores da guerra em dolorosas e agressivas abstrações. Quando era jovem, contou: “Eu estava sempre chorando. Tinha medo até de pequenos insetos. Mas a guerra me tornou realmente forte. Ela me mudou completamente”.

Estes primeiros anos de sua vida são um verdadeiro roteiro de cinema. Quando ele casou com uma estudante de arte mais jovem, Yoon Myoung-Sook, em 1958, Kim Tschang-Yeul, um colega artista que trabalhava como policial, o acompanhou até o Sul na lua de mel, exibindo as suas credenciais nos postos de controle para garantir que o noivo fugitivo não fosse preso. O casal viveu modestamente em Seul, cidade que havia empobrecido e estava se reconstruindo. Na época, havia uma ditadura no poder. Yoon garantia arranjos para viver, enquanto Park pintava incansavelmente e ambos conseguiam empregos como professores. Finalmente, estabeleceram-se em Hongik.

Embora andasse artisticamente sem rumo no final dos anos 1960, acabou encontrando o estilo que o definiria. Ele estava lendo textos budistas e confucionistas, na tentativa de encontrar um caminho para seguir adiante. Um dia, observou seu segundo filho, Seung Ho (atualmente Seung) de três anos, que se esforçava em vão para escrever uma palavra dentro de uma grade. “Ele apagava e voltava a apagar, e no final ficou tão aborrecido que só fez estes rabiscos”, contou Park, agitando violentamente a mão imitando. “Havia inúmeras marcas de borracha de apagar. Eu percebi que o negócio era desistir, deixar aquilo”.

Park introduziu esta revelação na sua arte. Empoleirado sobre uma plataforma baixa, com uma tela embaixo dele, ele corria o lápis em ondas sobre uma tinta branca molhada, e riscava sem parar. Abandonando as marcas expressionistas, ele buscou o que chamou de “ação sem fim e repetição infinita”. Estas pinturas fascinantes, que intitulou “Écriture”, (escrita, em francês), são estudos de casos sobre como ações simples, prolongadas no tempo, podem fascinar. Campos brancos, pretos e cinzentos refulgentes, evocam a mão do artista em movimento. Ele explicou que fazer isso era uma maneira de “esvaziar” a mente.

O Guggenheim tem uma “Écriture” fascinante de 1973 (o ano em que Park estreou a série em Tóquio), com fileiras apertadas em grafite fluindo por uma superfície de mais de dois metros de altura e três de largura. “Torna-se imersiva e atmosférica”, disse Munroe, descrevendo o quadro como “algo que fala muito de imperfeições. É também de respiração. E também sobre a marca do corpo”.

A série tornou Park o líder de um movimento coreano que seria conhecido como Dansaekhwa (“pintura monocromática”), cujos artistas utilizavam materiais tradicionais para novos fins inventivos, influenciados por práticas indígenas e por grupos de vanguarda estrangeiros. Park acabou incorporando o robusto papel hanji da Coreia, feito da casca interna das árvores de amoras em suas obras, encharcando-a até tornar-se uma polpa e manipulando-a sobre telas antes de secar.

Uma mostra de Dansaekhwa na Biennale de Veneza, em 2015, elevou a fama dos seus artistas. Na época, alguns haviam encontrado o sucesso vivendo no exterior, em ambientes artísticos mais fortes, como os amigos de Park Lee Ufan, no Japão e na França, e Kim na França. Mas Park trabalhava na sua pátria, ensinava e ajudava a montar festivais de arte, tornando-se uma das principais expressões do universo artístico da nação. “Apesar de a Coreia ter muitas falhas, muitas fraquezas, minhas raízes estão lá”, ele afirmou.

Isso significou que a “reputação artística de Park na arte mundial na realidade não estava à altura do que ele merecia”, afirmou Kate Lim, escritora e curadora coreana em Cingapura, que atribui a ele uma pintura revolucionária e “o domínio do papel tradicional como uma cor, como textura, até mesmo forma”. “Ligeiramente indignada” com a sua presença discreta do pintor no exterior, ela escreveu uma biografia em inglês em 2014.

Ao longo dos anos, o ativismo esfriou. “Eu mantenho esta paz interior”, disse Park, quando perguntei qual era o segredo do seu atual vigor. “Antes, até uma coisa pequena me incomodava. Me ofendia. Pode dizer que finalmente amadureci”. Park voltou à ativa depois de dois infartos e um derrame. E contou à filha: “A vida de um homem depende da clemência de sua esposa”. (Yoon, acaba de publicar um livro de ensaios pessoais; o marido fez o prefácio.) Uma viagem que o casal fez a Fukushima, no Japão, em 2000, para ver suas folhas de outono, mudou drasticamente a sua arte.

“Desde então, ela versa sobre a natureza, sobre a cura”, disse Park. Entraram cores suntuosas, para confortar o espectador. Segurando a bengala, ele caminhou pela sua galeria, apontando para uma potente peça vermelha inspirada por essa folhagem, e uma amarela inspirada em um dia límpido na ilha de Jeju. Estreitas colunas de hanji, com extremidades ásperas, envolvem as telas – ornamentação feita com um material humilde, antigo, cautelosamente mantido no lugar por réguas e outros instrumentos para superfície plana.

Em janeiro, Kim, há muitos anos compatriota de Park, que pintou brilhantes gotas d’ água, morreu aos 91 anos. Kim havia criado um museu dedicado à obra dele; agora Park está seguindo o seu exemplo. O primeiro dos seus dois museus, sobre a sua obra Dansaekhwa, deverá ser inaugurado no espaço Jongno de Seul, em agosto de 2022. O terreno foi doado pela prefeitura local, e o edifício de cerca de 2.049 metros quadrados, projetado por Yang Kiran, está sendo financiado pela Fundação Cultural e Artística Park Seo-Bo. (O seu primeiro filho, Park Seung-Jo, é o seu presidente.)

A realização mais ambiciosa está em Yecheon, o local de nascimento de Park. Para um museu que pesquisa as iniciativas de sua vida (ele doará cerca de 120 peças), Park andou cortejando o arquiteto suíço Peter Zumthor. Sua obra é “quase como entrar em uma catedral nas horas matutinas”, ele disse. (O seu edifício favorito de Zumthor é o Kolumba, um tranquilo museu de arte em Colônia, na Alemanha, de tijolos cinzentos e madeira.) O arquiteto ainda não assinou o contrato, e os detalhes do projeto, apoiado pelas autoridades locais ainda estão sendo determinados, mas Park é conhecido por conseguir o que quer.

Quando faz os seus lances em leilões de jarros da lua em porcelana da Dinastia Joseon (1392-1910), Park disse que muitas vezes compete ferozmente. Pelo menos seis urnas brancas lustrosas estão espalhadas pelo quarto. “Estou apaixonado por elas quase como um louco”, afirmou. A maioria delas era quase esférica, com sutis variações intrigantes. Mas uma tinha uma onda espessa oblonga em torno de todo o seu corpo. Era “a estranha na barriga” do forno, ele disse, explicando que o objeto data talvez de 300 anos atrás. Normalmente, os artesãos a teriam descartado. “Mas esta, apesar de ser instável, tinha um equilíbrio próprio, e eles não a quebraram”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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