Amanda Picotte/The New York Times
Amanda Picotte/The New York Times

O boom e o baque dos artistas de TikTok

Jovens criadores usam a rede social para ganhar seguidores e vender suas obras. Mas o que resta de suas carreiras quando imitadores atacam e fãs se desencantam?

Zachary Small, The New York Times - Life/Style

21 de abril de 2021 | 05h00

Embora mal tivesse tocado num pincel, Matthew Chessco se viu em busca das telas para perseguir seus sonhos depois de abandonar a carreira de engenharia mecânica quatro dias depois de começar a trabalhar.

Reinventando-se por meio de meses de tentativas e erros, ele poderia ter seguido o caminho convencional e tentado parceria com uma galeria para vender suas pinturas. Mas, quando chegou a hora de Chessco começar a expor, ele se conectou ao TikTok.

Ali, seus retratos neon de ícones como Bob Ross, George Washington e Megan Thee Stallion conquistaram mais de 2 milhões de fãs – uma multidão várias vezes maior do que a de artistas aclamados pela crítica como Jeff Koons e Kehinde Wiley no Instagram. O público de Chessco gostou de sua estética inspirada em Warhol e de como ele coreografava a criação de suas obras com músicas que iam desde As Quatro Estações de Vivaldi até Gooba do rapper 6ix9ine.

Perdeu, Instagram. O TikTok está arrebanhando espectadores em massa. A maioria das galerias vem mostrando pouco interesse em encontrar sua próxima grande estrela por ali, e os críticos torcem o nariz para seu excesso de pinturas amadoras de neon-pop que mais se parecem com arte de rua. Mas criadores de plataformas como Chessco estão construindo seus negócios e ganhando muito, cortejando os espectadores como os artistas de rua faziam no Instagram há quase uma década.

“Um vídeo das minhas pinturas viralizou mais ou menos um ano atrás. De repente, tive mais de 350 mil visualizações em três dias”, disse Chessco, 27 anos. Ele abriu uma loja on-line e virou um dos artistas visuais mais populares na plataforma de mídia social.

Pouco depois, ele já estava vendendo obras de arte por cerca de US$ 2 mil cada, fazendo parceria com selos de gravadoras e colaborando com agências de publicidade. Esses negócios, diz ele, costumam lhe render quase US$ 5 mil por postagem na plataforma, que é propriedade da empresa ByteDance, com sede em Pequim. Mas o sucesso gera competição.

Chessco recentemente descobriu que tinha um doppelgänger no TikTok: outro artista estava copiando o estilo, os temas e a música de seus vídeos, além de vender pinturas por uma fração do preço, junto com gravuras, num site quase idêntico ao que Chessco usa.

Depois de postar um vídeo em 5 de fevereiro alertando seus seguidores sobre a existência do plagiador, Chessco descobriu que o artista havia bloqueado comentários em sua página e excluído seu site. Mas o doppelgänger logo reabriu sua loja on-line e voltou a postar vídeos alguns dias depois. “A competição é realmente acirrada”, disse Chessco, balançando a cabeça.

Quando vídeos de um minuto podem atrair fama e fortuna, não é de surpreender que jovens artistas estejam evitando escolas de arte e empréstimos estudantis, largando seus empregos e buscando carreiras como artistas em tempo integral no TikTok. Mas a insaciável demanda do aplicativo por conteúdo também está distorcendo sua estética de maneiras inesperadas. O que acontece quando as visualizações despencam, os imitadores atacam e os fãs começam a ditar o gosto do artista? As fortunas podem desaparecer de repente.

Apesar da corrida do ouro, poucos artistas e instituições estabelecidos participam do TikTok. A Galeria Uffizi de Florença, que ganhou as manchetes por seu uso humorístico da rede social, viu uma queda considerável no engajamento nos últimos meses. A fotógrafa Cindy Sherman, prolífica usuária do Instagram, disse por meio de um representante que não tem interesse em ingressar no TikTok agora, chamando a plataforma de “complicada demais”.

Mas os louros do mundo da arte importam pouco no TikTok, onde um algoritmo permite que os usuários percorram infinitamente entre os interesses relacionados; em vez disso, são os artistas que exploram “o momento” que ganham influência. O sucesso requer obras de arte que possam chamar a atenção do espectador imediatamente, em geral com alguma combinação de cultura da internet, anatomia humana e memes sarcásticos. É uma fórmula que funciona bem com os principais grupos demográficos do TikTok: os adolescentes que representam quase um terço dos usuários do aplicativo.

E muitos artistas no TikTok estão enfrentando dificuldades para manter o interesse. Quando ainda era estudante, Gina D’Aloisio, escultora de 22 anos, postou um vídeo dela mesma criando uma máscara facial de silicone assustadoramente realista. Recebeu mais de 22 milhões de visualizações; muitos outros seguidores vieram quando ela compartilhou outras partes carnudas do corpo de sua obra, incluindo um cinzeiro de umbigo e uma vela de pé.

E alguns artistas negros estão descobrindo que o sucesso pode trazer outro tipo de crítica que seus colegas brancos não enfrentam.

Leila Mae Thompson recebeu mais de 1 milhão de visualizações por um vídeo no qual anuncia sua intenção de adotar a confiança dos artistas masculinos. Sua ousadia valeu a pena porque angariou quase 300 novos assinantes na sua página do Patreon, onde os fãs pagavam US$ 5 por mês para receber adesivos personalizados e atualizações sobre seu trabalho.

 

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Thompson, artista autodidata de 23 anos que mora em Richmond, Virgínia, agora opera um pequeno negócio por meio do TikTok, vendendo pôsteres e camisetas que renderam quase US$ 20 mil desde agosto. Seus temas muitas vezes envolvem o movimento Black Lives Matter e respostas artísticas à morte de George Floyd; como resultado, alguns comentaristas a acusaram de capitalizar sobre a injustiça racial, sem perceber que ela se identifica como birracial e negra.

“A raça tem sido uma parte difícil da minha vida”, disse Thompson, “e ter as pessoas fazendo você questionar isso on-line é traumático”.

Ela também reconhece um padrão duplo nessa plataforma onde o número de artistas brancos que obtêm sucesso supera o número de artistas não brancos que chegam ao estrelato. Em junho, o TikTok se desculpou diante de acusações de censura e supressão de conteúdo por parte de usuários negros, muitos dos quais dizem que viram suas ideias serem apropriadas por criadores brancos. No entanto, muitos na comunidade negra do aplicativo dizem que pouca coisa mudou.

“Todos os meus vídeos foram bem. Mas meu rosto não está aparecendo neles”, disse Thompson.

A volatilidade da vida no TikTok levou alguns artistas a formar grupos de apoio. Colette Bernard, escultora de 21 anos do Pratt Institute em Brooklyn, colabora frequentemente com cinco outros usuários, incluindo Thompson, e tenta convencer artistas consagrados de que manter um pé no mundo digital do TikTok e outro na cena artística profissional pode abrir portas.

“Você pode fazer um vídeo de você mesma falando sobre arte saindo do banho com uma toalha na cabeça, coisa que eu já fiz, e alcançar milhares de pessoas”, disse Bernard. “Mas artistas estabelecidos e instituições antigas não estão interessados em mostrar esse nível de crueza ao público”.

Desde que ingressou na plataforma no ano passado, ela ganhou mais de US$ 45 mil por meio de sua loja on-line, concentrando os esforços em itens de baixo preço como adesivos, joias e camisetas. (O Fundo para Criadores do TikTok, o programa de incentivo da plataforma, recompensa um número seleto de usuários com alguns centavos por mil visualizações).

“Vou trabalhar por conta própria quando me formar”, disse Bernard.

Ainda assim, ela reconhece que as caprichosas características do TikTok podem deixar os artistas numa posição vulnerável. “Você tem que postar todos os dias, senão as pessoas perdem o interesse”, disse ela. “E isso mudou completamente o tipo de trabalho que crio. É mais sustentável para mim vender camisetas e adesivos do que as grandes esculturas que faço para a escola”.

Seus níveis de ansiedade atingiram o pico em janeiro, quando, disse ela, uma falha no TikTok fez com que dois de seus vídeos recebessem zero visualizações. Ela tinha investido mais de US$ 20 mil em seus produtos. “Se eles não venderem, estou ferrada”.

Mas em fevereiro, Bernard estava subindo na montanha-russa TikTok. Outro de seus vídeos viralizou e os fãs gastaram quase US$ 10 mil na sua loja on-line no decorrer do dia. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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