Michal Chelbin/The New York Times
Michal Chelbin/The New York Times

Como os artistas por trás da série 'Shtisel' deram vida à jornada de Akiva

Para compreender as tensões com que se defronta um jovem artista ultra-ortodoxo, a equipe de criação da série de TV israelense contratou dois pintores plenamente conscientes do que estava em jogo

Marisa Mazria-Katz, The New York Times – Life/Style

22 de maio de 2021 | 05h00

No meio da noite, em um beco de Jerusalém, o diretor de uma yeshivá está de pé diante de uma pilha de telas em chamas. Ele acabou de pôr fogo nos quadros do seu filho mais novo – retratos da esposa morta do filho – e  olha com expressão sombria enquanto elas ardem.

O óleo, parece, é um potente ativador.

É uma fogueira das vaidades hassídica com um toque de ostracismo do século 21: uma destilação artística, cultural e dipiana de tensões que se encontram no centro da série israelense Shtisel, que explora os silenciosos meandros da vida de uma famílias judia haredi ultra-ortodoxa em Jerusalém.

Na terceira temporada, os quadros de Akiva – principalmente os retratos de sua esposa, Libi (Hadas Yaron) que morreu misteriosamente entre as temporadas – são os veículos da sua dor, que impediu que ele seguisse em frente, para exasperação do pai.

De repente, o filho, Akiva (Michael Aloni) acorda em um mar de suor, tudo isto por causa de um sonho, uma grotesca alegoria das tentativas incansáveis do pai de fazer com que o filho pare de agir como “ um rabanete seco” e deixar para trás a mulher que ele pinta obsessivamente.

“Meus pais sempre encorajaram a minha arte, e no entanto, há sempre uma tensão entre a tradição religiosa e a arte”, disse o co-autor da série, Ori Elon, que criou a história de Akiva, em parte, a partir de suas experiências pessoais. (Elon, como outros entrevistados para este artigo, não fala inglês como primeira língua, as entrevistas foram realizadas por telefone, vídeo, e-mails e mensagens de texto, às vezes com a ajuda de um tradutor). “Esta tensão sempre fez parte da minha vida”, Elon acrescentou, “e continua  a fazer parte.

Arte e produção de imagens foram um ponto de conflito em todas as temporadas de Shtisel –  talvez nunca tanto quanto na temporada três, em que as telas impressionantes de Akiva adquirem um peso de um personagem de verdade. Para captar esta presença dominante, bem como a evolução de Akiva como artista,  a equipe de criação consultou dois artistas israelenses Menahem Halberstadt, cartunista e ilustrador de livros infantis, e Alex Tubis, pintor e professor da Academia de Arte e Desenho Bezalel, em Jerusalém.

Cada um deles criou obras que exemplificaram o talento do personagem e a tendência a usar cores dramáticas. Os primeiros desenhos de Akiva na primeira temporada , feitas por Halberstadt, são de lêmures do zoológico, rabiscados em uma prancheta de anotações; mais tarde na temporada, Akiva passa a preferir autorretratos melancólicos e pinturas a óleo quase impressionistas, na série também pintadas por Halberstadt.

“Akiva tem uma combinação de humor e infantilidade, juntamente com emoções profundas e espirituais”, disse Halberstadt. “Tentei dar expressão a ambas as facetas”.

“Acho que a sua atitude para com a sua arte muda durante a primeira temporada”, acrescentou, “de uma espécie de hobby, que faz no seu tempo livre para sua própria fruição, para algo que para ele tem um significado emocional e espiritual”.

Na temporada dois, para a qual Tobis fez a arte, o trabalho de Akiva muda e passa a incluir retratos extremamente expressivos. Como o de uma criança segurando um peixinho dourado em um saquinho. O tema confronta o espectador com um olhar direto, que evoca os retratos dos personagens da corte de meados do século 17 do pintor Diego Velázquez.

“Acho que eles estão tentando representar algum gênio de um nível muito, muito elevado na série”, disse Tubis. “Ele é um homem religioso”, acrescentou referindo-se a Akiva, e “Deus  está vindo para ele de um outro lugar. Mas, do meu ponto de vista, ele sente isto através de sua arte.”

Uma das peças mais provocadoras da série  pintada por Tubis, é um retrato da mãe de Akiva segurando-o quando criancinha, com alguns fios do cabelo escapando de sua tichel (adereço tradicional para cobrir a cabeça). A indiscrição enfurece o pai de Akiva, Shulem (Doval’e Glickman), que  adquire a pintura do galerista de Akiva e segura uma vela ameaçadoramente para o retrato da esposa morta, antes de decidir que não pode ir adiante. Ao invés disso, ele pega um pincel e pinta por cima dos fios de cabelo.

Mas Akiva é determinado e prolífico. Sua arte o coloca em uma trajetória inimaginável, tornando-se um galerista, aplaudido internacionalmente, uma personalidade entrevistada em horário nobre, e por fim um grande programa de pesquisa no Museu de Israel. A atenção seria insuportável para qualquer jovem artista, mas principalmente para Akiva, suspeito pela comunidade  de realizações individuais.

“No mundo da arte, o sucesso é algo que deve refletir um tipo de autorrealização, mas para um haredi, este tipo de sucesso não tem qualquer significado, porque as coisas não são valorizadas pelo prisma do sucesso, individual ou pessoal”, disse Joshua Simon, ex-diretor e curador chefe dos Museus de Bat Yan de Israel, e professor da Pennsylvania Academy of the Fine Arts em Filadélfia. “Se alguma coisa não está ao serviço do bem geral, ou sustentando a instituição religiosa, não há lugar para ela”.

Fazer arte não é explicitamente proibido no judaísmo; o Segundo Mandamento (“Não farás para ti imagem esculpida, nem nada semelhante ao que há nos céus acima, ou na terra embaixo, ou na água debaixo da terra”) é interpretado de maneira variada. Mas como diz o adágio, ponha dois judeus em uma sala e terá três opiniões.

Elon conhece as pressões, às vezes, opostas. Embora ele não seja ultra-ortodoxo, se considera religioso e é um pintor amador. Muito tempo antes de ele começar a trabalhar em Shtisel, escreveu o roteiro para um curta metragem sobre um artista haredi, também chamado Akiva. Meses mais tarde, Elon conheceu o seu futuro co-criador, Yehonatan Indursky, que foi criado como haredi e estudou em uma yeshiva. Juntos adaptaram o conceito para a TV acrescentaram personagens, criando a família maior de Shtisel.

Os israelenses (e o público em todo o mundo) reagiram com grande entusiasmo à série, e não apenas porque ela revela uma cultura insular; há uma luta pela expressão pessoal no centro da história que tem uma qualidade universal.

Baseada em entrevistas e anedotas, é um apelo ao qual alguns haredi não estão imunes. Embora a televisão em geral seja considerada tabu para muitos deles, não é nenhum segredo que alguns estejam assistindo. Halberstadt acredita que a popularidade da série já esteja criando uma mudança, embora reduzida, em algumas comunidades ultra-ortodoxas, cuja adesão a normas rigorosas e antigas sempre enfatizou a conformidade.

“Akiva lida com a questão do individualismo, mesmo inconscientemente”, disse Halberstadt. “Por um lado, ele não quer romper com a família e com a comunidade. Por outro lado, sente que enquanto indivíduo tem uma voz à qual quer dar expressão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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