Angela Ponce para The New York Times
Angela Ponce para The New York Times

Artigos de luxo produzidos em prisões levantam questões éticas

A marca dinamarquesa Carcel foi criticada por lucrar com o uso de mão de obra de detentas

Elizabeth Paton e Andrea Zárate, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

Num verdejante vale cercado pelos Andes peruanos - depois de passar por dois conjuntos de portões de segurança, arame farpado e uma revista -, 13 mulheres trabalhavam duro. Estavam tecendo e costurando luxuosos casacos de alpaca, blusas de gola rolê e sedosas calças de agasalho, destinados a serem vendidos a consumidores abastados com vidas muito diferentes das suas.

Todas eram prisioneiras do centro penitenciário feminino de Cusco, cumprindo longas sentenças principalmente por crimes ligados ao tráfico de drogas, além de assassinato, tráfico de pessoas e roubo. São também funcionárias da Carcel, uma marca dinamarquesa fundada em 2016 para oferecer a mulheres presas empregos e, possivelmente, um futuro longe do crime.

Passados mais de dois anos do início do programa, as fundadoras da Carcel e as autoridades peruanas dizem que o projeto foi um sucesso comprovado. É popular entre as detentas e os consumidores, provando que a produção rentável e responsável de peças de luxo pode ocorrer atrás das grades.

O Peru está se tornando uma espécie de estudo de caso da questão do auxílio e da exploração. Pouco mais de 5 mil mulheres estão encarceradas no país, e mais de 50% delas estão ativamente empregadas na produção de peças de couro, roupas e tecidos, de acordo com o INPE, instituto penitenciário nacional.

Mas questões envolvendo o lado ético do trabalho prisional também chegaram às manchetes recentemente. Há relatos de muçulmanos internados em brutais campos de internação chineses que produzem artigos esportivos e de greves contra o trabalho imposto em troca de salários irrisórios nas prisões americanas.

As tensões vieram à tona com força nas redes sociais em fevereiro, quando a Carcel lançou uma nova linha de produtos de seda feitos em prisões femininas da Tailândia. "As empresas estão literalmente anunciando que usam trabalho escravo como motivo para comprarmos seus produtos", escreveu alguém no Twitter, abrindo espaço para um coro de críticas indignadas. "Seu 'modelo de negócios sustentável' inclui a necessidade de manter mulheres em prisões", escreveu outro usuário, pontuando a mensagem com emojis de expressão confusa. Quanto mais a Carcel se defendia das críticas, mais furiosas se tornavam as respostas do público. 

"O trabalho nas prisões é um tema muito complicado e pouco transparente", disse Peter McAllister, diretor-executivo da aliança Ethical Trading Initiative, que defende os direitos dos trabalhadores. "Por um lado, há certamente marcas bem-intencionadas com programas de reabilitação que realizam um bom trabalho em todo o mundo. Por outro, há grandes questões a serem respondidas a respeito da participação de detentos como mão de obra predominante na produção de uma marca voltada para o lucro, especialmente levando em consideração os numerosos casos de exploração inaceitável de prisioneiros nas profundezas da cadeia de fornecimento global da indústria da moda".

Prisioneiros e moda

A moda e as prisões têm uma longa história em comum, que remonta aos idos de 1700. Tradicionalmente, a maioria dos programas de manufatura em países como Estados Unidos e Grã-Bretanha eram administrados por órgãos do governo voltados para a produção em massa de artigos de baixo valor em larga escala, como uniformes militares. Os detentos recebiam salários muito abaixo do mínimo, quando ganhavam algo. Nos anos 1990, com um número recorde de pessoas presas em muitos países, houve um aumento no número de empresas privadas empregando prisioneiros para tarefas como telemarketing, fabricação de placas de circuitos e produção de peças de roupa.

Na Grã-Bretanha, cada prisioneiro empregado recebe em média £ 10 por semana, de acordo com um relatório do governo de 2016. Nos EUA, o Bureau of Prisons opera um programa que paga aos detentos cerca de US$ 0,90 por hora pela produção de colchões, óculos, placas de trânsito, proteção militar para o corpo e outros produtos destinados a agências do governo, ganhando US$ 500 milhões em vendas em 2016.

Marcas menores voltadas para a moda de rua estão vendendo roupas fabricadas por detentos, como a Prison Blues nos EUA, a Stripes Clothing na Holanda e a Pietà, outra marca peruana. Todas se dizem capazes de criar um modelo de negócios sustentável ao mesmo tempo que oferecem oportunidades para os prisioneiros.

A Pietà foi fundada em Lima em 2012 pelo francês Thomas Jacob, que já trabalhou para a Chanel, e emprega atualmente cerca de 50 detentos de algumas das maiores prisões do Peru. Os detentos fabricam camisetas, agasalhos e blusas tricotadas, casacos e tênis de cano alto. Os preços vão de US$ 8 pelas sacolas até US$ 120 pelas joias.

"Há na cadeia muitos homens e mulheres diferentes da imagem estereotipada que imaginamos, pessoas que só querem sobreviver, aprender um ofício, trabalhar e se sustentar", disse Jacob, que abriu cinco lojas da Pietà na capital peruana e diz pensar em uma expansão internacional, ainda que reconhecesse os desafios, como as preocupações de segurança.

Ele disse que as detentas não participam apenas da produção das roupas - às vezes contribuem também com o design, o que lhes proporciona um canal de expressão e treinamento diferenciado. Com frequência, servem como modelos das campanhas publicitárias e recebem uma parte do valor da venda de cada peça de roupa produzida, o que proporciona uma renda que pode ser remetida às suas famílias. Ao serem soltas, as ex-detentas podem continuar trabalhando na Pietà, ou procurar emprego em outras empresas tendo a Pietà como referência.

A fundação de uma empresa

Louise van Hauen e Veronica D'Souza, fundadoras da Carcel (que significa "prisão" em espanhol), se conheceram quando trabalhavam no Quênia. Louise era gerente de criação numa empresa de bolsas de couro, e Veronica dirigia uma startup que produzia coletores menstruais. Veronica disse que uma visita a uma prisão feminina no Quênia em 2014 mudou sua forma de pensar. 

"Ficou claro para mim que, virtualmente, todas as detentas eram mães que estavam ali por causa de crimes ligados à sua própria pobreza, seja o roubo ou a prostituição. O mesmo vale para a situação aqui no Peru", disse.

A cadeia de produção de drogas na América Latina exige que a pasta de cocaína seja transportada da área onde é colhida por meio das chamadas "mulas". Muitas delas são mulheres, que frequentemente são rés primárias sem histórico de violência. De acordo com o INPE, 85% delas têm filhos para sustentar.

"Muitas vezes essas mulheres são presas e depois soltas, mas têm dificuldade em encontrar maneiras de sustentar os filhos, e o ciclo do crime recomeça", disse Veronica. "Isso me levou a pensar em como poderíamos criar um novo modelo".

Louise contou que desejava começar em um lugar onde houvesse matéria-prima natural de alta qualidade. 

"Como um dos maiores exportadores de lã de alpaca e sendo um país onde tricotar é um passatempo nacional, o Peru era o candidato perfeito. Historicamente, muitas marcas tiveram dificuldade em lucrar ou aumentar a escala de produção por causa da baixa qualidade do design ou de seus produtos", explicou Louise. Ao criar artigos mais valiosos, os produtos têm mais viabilidade no varejo e margens de lucro mais saudáveis, de acordo com esse raciocínio.

Preparativos para uma nova vida

Virginia Matamoros, diretora da penitenciária feminina de Cusco, disse que a prisão oferecia treinamento básico em costura, tricô, confeitaria e jardinagem para as detentas na esperança de que pudessem começar a trabalhar para empresas que vão prepará-las para a liberdade.

"Aceitamos a Carcel porque se trata de uma empresa organizada e formal que trabalha com salários decentes e pressionou as demais empresas que operam aqui a melhorarem o pagamento e a escala de trabalho", disse Virginia. "É algo extremamente positivo para a autoestima delas".

As detentas da Carcel são treinadas até desenvolverem habilidade suficiente para trabalharem turnos de cinco horas, cinco dias por semana. Elas ganham algo entre 650 e 1.100 soles peruanos (entre US$ 180 e US$ 329) por mês, dependendo de sua experiência. Os ganhos são calculados em relação ao salário mínimo nacional. No Peru, esta soma equivale a 930 soles mensais.  "As mulheres que trabalham para nós ganham o mesmo que uma professora do ensino infantil no país", afirmou Veronica.

A prisão fica com 10% do salário de uma detenta. Os trabalhadores guardam uma parte para as despesas do mês, e o restante vai para a conta de suas famílias. As mulheres também podem receber bonificações pela qualidade de seu trabalho, bom comportamento ou horas extras de serviço.

"Quando cheguei aqui, oito anos atrás, essa prisão era um lugar realmente deprimente", contou Teodomira Quispe Pérez, 51, viúva e mãe de seis filhos que cumpre pena por tráfico de drogas. Ela supervisiona o controle de qualidade na oficina. "Estou pensando em comprar minha própria máquina de costura quando sair", disse enquanto dobrava camisetas de alpaca de US$ 190 a serem vendidas pela Net-a-Porter. "O trabalho na oficina têxtil afasta minha cabeça da detenção".

De acordo com Elizabeth von der Goltz, da Net-a-Porter, marcas da moda com missões sociais estão se tornando cada vez mais populares. "Quase todos os nossos modelitos da Carcel se esgotaram em todo o mundo em apenas duas semanas após o lançamento", disse ela.

A Carcel pretende dobrar seu número de funcionários no Peru. Na segunda sede da empresa, na Tailândia - país com a maior população carcerária feminina do mundo -, contas de banco eletrônicas são desenvolvidas para as prisioneiras a fim de minimizar os desvios nas mãos dos carcereiros. A Carcel disse esperar iniciar suas operações em três ou cinco novos países nos próximos cinco anos. 

Mas os desafios continuam. No mês passado, a Carcel interrompeu as vendas nos EUA quando ficou sabendo de uma proibição à importação de artigos fabricados por detentos. Ao buscar uma isenção da regra, a marca ressaltou que os EUA são um dos poucos países que não ratificaram uma convenção de 2014 da Organização Internacional do Trabalho contra os trabalhos forçados.

"Em seu site, a OIT afirma que 'uma boa indicação do livre consentimento dos presos diante do trabalho é a proximidade das condições do ambiente de trabalho às condições do trabalho em liberdade', e é nisso que baseamos os princípios da Carcel", disse Veronica. "Nós as tratamos como funcionárias de uma empresa, e não como detentas".

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