Christopher Gregory for The New York Times
Christopher Gregory for The New York Times
Amy Qin, The New York Times

28 de fevereiro de 2019 | 06h00

Pequim - O artista dissidente chinês Ai Weiwei estava em prisão domiciliar em Pequim quando foi convidado para dirigir à distância um segmento para Berlin, I Love You (Berlim, eu te amo), um filme que faz parte de série Cities of Love, ambientado na capital alemã. O segmento retratou a separação de uma família e apresentou seu filho de 5 anos, Ai Lao, que morava na Alemanha.

“É terno e tem alguma tristeza”, disse Ai sobre seu segmento, que ele dirigiu em 2015. “Não é politicamente sensível, de forma alguma”. Mas na versão final do filme, que foi lançado nos Estados Unidos no mês passado, a contribuição de Ai não foi vista. Segundo ele, os produtores disseram que cortaram seu segmento depois que investidores, distribuidores e outros parceiros levantaram preocupações quanto à recepção política do artista na China.

“Quando descobri, fiquei muito zangado”, disse Ai. “Foi frustrante ver criadores e instituições ocidentais colaborando com a censura chinesa de uma forma tão óbvia”. Com os atores Keira Knightley, Helen Mirren e Luke Wilson, Berlin, I Love You faz parte da franquia Cities of Love, na qual diretores internacionais são convidados a fazer pequenas vinhetas que se cruzam em uma cidade em particular.

Claus Clausen e Edda Reiser, dois dos produtores do filme, confirmaram o relato de Ai, acrescentando que eles lutaram para manter seu segmento no filme, mas no final sentiram que não tinham escolha a não ser excluí-lo. “Alguns dos distribuidores apenas nos disseram: ‘Francamente, não vamos levar o filme com ele’”, disse Clausen, referindo-se a Ai. “Nós estávamos realmente desesperados. Não importa que decisão tomássemos, íamos sair perdendo”. “No final, ficamos com o coração partido”, acrescentou.

É o mais recente exemplo de como o vasto aparato de censura e a força econômica da China estendem a influência de Pequim para muito além de suas fronteiras. Nos últimos anos, a China exerceu considerável influência sobre a forma como é retratada nos filmes de Hollywood.

Ai, um dos artistas mais conhecidos da China, que agora vive em Berlim, tem sido um crítico declarado do governo chinês. Em 2011, ele foi secretamente mantido por 81 dias em um centro de detenção chinês. Ele disse que os produtores disseram a ele que um dos produtores executivos do filme se manifestou contra a inclusão de seu segmento na versão final. Ele disse que também ficou sabendo há pouco tempo que o mesmo produtor executivo estava fazendo um episódio da série em Xangai.

Nos últimos anos, a franquia Cities of Love, que já apresentou histórias passadas em Paris e Nova York, vem expandindo sua presença na China. De acordo com seu site, a franquia mantém escritórios em Xangai. Emmanuel Benbihy, o produtor francês e desenvolvedor do conceito Cities of Love, está baseado nessa cidade e esteve envolvido nos filmes sobre Xangai e Berlim. Ele escreveu on-line que montou uma fundação sem fins lucrativos em Xangai para lançar programas City, I Love You na grande China.

Segundo Benbihy, o segmento de Ai fora cortado do filme por razões artísticas. “A tarefa dada a cada diretor é contar um encontro de amor que aconteça em um bairro específico de uma cidade (Berlim no caso)”, disse ele em um e-mail. “O segmento de Ai Weiwei não cumpriu essa tarefa, e nossa principal preocupação é sempre criar a unidade do filme.”

Ai disse que os produtores enviaram Berlin, I Love You para o Festival de Berlim, mas ele foi rejeitado, e especula que tenha sido por causa de seu envolvimento. Em um comunicado, o festival disse que não poderia discutir filmes que não estavam no programa, mas que "o envolvimento de Ai Weiwei jamais seria um critério para escolher ou não um filme".

No mês passado, o último filme do conhecido diretor chinês Zhang Yimou, sobre a Revolução Cultural da China, foi abruptamente retirado do festival de Berlim por causa de chamadas “dificuldades técnicas”, um eufemismo comum para a censura na China. Outro filme chinês, Better Days (Dias melhores), foi retirado do festival depois que o filme não recebeu as permissões necessárias das autoridades chinesas, segundo a Variety, uma revista americana de entretenimento.

Até agora, as críticas de Berlin, I Love You foram moderadas, na melhor das hipóteses. Um crítico escreveu no The Hollywood Reporter: “Este filme, como os outros, pretende ser um cartão de dia dos namorados para o seu cenário. Infelizmente, parece mais uma carta anônima com maldades”.

Ai disse que ficou mais preocupado ao longo dos anos com o fato de alguns governos, empresas e organizações ocidentais estarem dispostos a se autocensurar para não ofender a China. “Isso mostra até que ponto vai a China, usando seu poder para influenciar o Ocidente em todos os aspectos”, disse ele. Reiser, a produtora, concordou. “Não subestimamos a influência da China, mas o medo”, disse ela. “O medo da China no mundo livre”.

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