Amy Lombard para The New York Times
Amy Lombard para The New York Times

Artista plástico Eduardo Navarro expõe obras comestíveis nos EUA

Para o argentino, após consumidos, os desenhos serão absorvidos pelas células e pela consciência dos espectadores

Meredith Mendelsohn, The New York Times

29 Abril 2018 | 10h45

Concordamos em nos encontrar para o almoço no Brooklyn, num antigo restaurante com as paredes revestidas de madeira. Quando cheguei, o artista Eduardo Navarro já estava sentado à mesa, mordiscando uma entrada de palitos de muçarela.

Decidi guardar o apetite para o prato principal, que jazia num recipiente translúcido de plástico cor de rosa sobre a mesa: o desenho dele.

O argentino Navarro, 38 anos, tinha acabado de chegar de sua casa em Basileia, na Suíça, para se preparar para a exposição “Into Ourselves”, montada no Drawing Center, em Nova York. Ele expôs ali 16 desenhos comestíveis este mês, exibidos em prateleiras, e eu receberia uma amostra de degustação antes da abertura da exposição, quando ele ofereceria aos frequentadores uma de suas imagens dissolvida em sopa.

Para ele, esses desenhos não terão desaparecido por completo do mundo. Em vez disso, assumirão uma forma diferente, digeridos por aqueles que os comeram e para sempre absorvidos nas células destes (e, possivelmente, também por suas consciências).

“Sempre tive curiosidade em relação aos bebês, que, ao chegarem no novo mundo, colocam as coisas na boca", disse ele. “Talvez, se realmente quisermos compreender uma ilustração, seja necessário comê-la”.

O projeto de Navarro não é apenas um gesto provocador, é também um experimento sensorial. Ele está pedindo que contemplemos a arte com aquilo que chamou de um “olho interno", ou usando o estômago em lugar do cérebro.

Nem toda a obra de Navarro envolve comida, mas boa parte dela pede aos participantes que usem seus corpos e sentidos de maneiras que se afastam do roteiro humano tradicional. Na Bienal de São Paulo de 2016, por exemplo, ele afixou uma imensa tuba a uma palmeira. Os visitantes podiam aproximar o ouvido da tuba para ouvir a árvore. A ideia não era ouvir o farfalhar das folhas, mas o organismo em si.

Os peculiares desenhos de Navarro usando caneta marca-texto preta mostram entidades surrealistas que parecem saídas dos quadrinhos, como máquinas que ganham vida ou organismos que só poderiam aparecer em sonhos. São feitos com caneta comestível sobre folhas de papel arroz, do tipo que as padarias usam para imprimir imagens em bolos. O material é mais firme e mais poroso que o papel feito a partir de polpa vegetal, como um papelão fibroso e crocante.

As ilustrações não são obviamente comestíveis, mas, para as obras em exposição no Drawing Center, ele inseriu dicas de culinária em fendas no papel: folhas de louro, um ramo de alecrim, um pedaço de canela. As ilustrações são expostas sob lâmpadas vermelhas de calor, do mesmo tipo usado para chocar ovos de galinha, e o artista destacou que o ambiente não é muito diferente de um estômago.

Esta fusão entre arte e culinária se inspira num conceito da física quântica segundo o qual informação e energia nunca são destruídas, algo que há muito o interessa (o médico Tom Banks comandou um debate intitulado “Entropia, Buracos Negros, Café e Sopa” no Drawing Center).

Alguns dias mais tarde, no Drawing Center, Navarro preparou uma apimentada sopa de legumes numa tigela gigante. Ele dissolveu quatro folhas de uma ilustração na tigela, e ofereceu aos visitantes que provassem uma porção.

“A sopa é apenas um veículo para transportar as imagens até o estômago", disse-me Navarro. / Tess Thackara contribuiu com a reportagem.

Mais conteúdo sobre:
artes plásticasexposição

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.