Gabriela Bhaskar/The New York Times
Gabriela Bhaskar/The New York Times

Artista plástico Stanley Whitney e sua dança com Matisse

Com uma nova exposição na galeria e uma retrospectiva em andamento, pintor abstrato radicado em Nova York está por completo

Hilarie M. Sheets, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 05h00

BRIDGEHAMPTON, Nova York – Stanley Whitney começa todas as suas pinturas do mesmo jeito. Como um pedreiro, o artista de 74 anos pinta uma faixa horizontal ao longo da borda superior da tela e, em seguida, inclui blocos de cores saturadas, da esquerda para a direita, de cima para baixo, criando um quadriculado vibrante, instável e improvisado.

"É como uma seção de pergunta e resposta; as pinturas me dizem o que fazer", disse Whitney, que pode pular uma etapa ou voltar rapidamente conforme a tela exigir. Nas últimas três décadas, cada vez que pinta, coloca o álbum Bitches Brew de Miles Davis para tocar. "Ele me deixa no clima certo. Você meio que se torna a música."

Nas telas grandes e pequenas nas paredes de seu novo e espaçoso estúdio, Whitney alcançou uma variedade gloriosa de paleta, ritmo, justaposição e toque. Muitas dessas pinturas criadas no ano passado estão agora na exposição Stanley Whitney: TwentyTwenty, na Galeria Lisson, em Nova York.

O artista Adam Pendleton, que tem vários desenhos e pinturas de Whitney, admira a dedicação obstinada de seu colega mais velho "que usa uma caixa de ferramentas que parece estática, mas que é infinita em todas as maneiras como ele a descontrói". O longo envolvimento de Whitney com o quadriculado remete a "como quebrar a ordem visual e imbuí-la de música, de vida, de uma espécie de poesia".

Whitney e sua esposa, a pintora Marina Adams, acabaram de concluir um projeto que durou dois anos: a construção de dois estúdios adjacentes e uma casa em Bridgehampton. Todas as estruturas, em forma de celeiro, foram feitas com metal industrial de baixa manutenção. Durante décadas, Whitney pintou no corredor do apartamento do casal em Manhattan. O sucesso demorou a chegar.

O artista veio pela primeira vez a Nova York em 1968, com a ambição de pintar arte abstrata, numa época em que se esperava que os artistas negros fizessem um trabalho representacional que refletisse a vida afro-americana e a pintura em si estava caindo em desuso no mundo da arte. "Só o fato de ser um jovem artista negro já era uma posição muito radical", comentou Alex Logsdail, diretor executivo da galeria.

"Sempre fui um colorista", comentou Whitney, que concluiu um mestrado em belas-artes na Universidade Yale em 1972 e se inspirou fortemente em artistas como Matisse, Cézanne, Pollock e Rothko enquanto descobria como queria pintar e como se encaixava na cena de Nova York, que, em grande parte, o ignorou. "Eu ia a todas as galerias, voltava para o estúdio e dizia a mim mesmo: 'Stanley, você viu do que eles gostam; quer continuar fazendo isso?' E respondia: 'Sim, quero continuar fazendo isso.'" O mundo da arte finalmente o alcançou.

Exposições simultâneas de Whitney em 2015 no Studio Museum no Harlem e na galeria Karma, na região central da cidade, foram aclamadas pela crítica, num momento em que museus e comerciantes estavam começando a reavaliar o trabalho de artistas marginalizados.

A Lisson começou a representá-lo logo em seguida, e já está na nona mostra solo de Whitney nos espaços da galeria em Nova York e na Europa. A pintura Light a New Wilderness (Ilumine uma nova natureza), de 2016, estabeleceu um recorde de leilão para o artista este ano na galeria Christie's, de Londres, ao ser vendida por 525 mil libras (mais de US$ 700 mil), quase três vezes o valor da estimativa mais alta. E a primeira retrospectiva de Whitney está sendo planejada para 2023 no Museu de Arte Buffalo AKG, no interior do estado de Nova York, organizada pela curadora-chefe Cathleen Chaffee, que declarou: "Percebi como seria importante criar uma mostra maior dessas obras, desde as experimentações formais nos anos 70 até essas pinturas iterativas dos últimos 20 anos, que pudessem se desdobrar no espaço e no tempo em relação umas às outras." Ela comparou a prática madura de Whitney com a de Giorgio Morandi, Josef Albers e Agnes Martin, que encontraram liberdade trabalhando dentro de um conjunto de limites criado por eles mesmos.

Para a Bienal de Veneza, em abril de 2022, Chaffee está organizando uma apresentação, com o curador Vincenzo de Bellis, no Palazzo Tiepolo Passi, de pinturas de Whitney feitas na Itália desde o início dos anos 1990, ponto crucial em sua carreira. Frustrado com sua invisibilidade em Nova York, o artista, que viajava semanalmente à Filadélfia para dar aulas na Escola de Arte e Arquitetura Tyler desde 1973, aproveitou a oportunidade oferecida pela escola e se mudou para Roma com a esposa em 1992, onde morou por cinco anos. Lá, inspirado no tamanho, na densidade e na geometria simples do Coliseu e do Panteão, bem como nas pirâmides depois de uma viagem que fez ao Egito, Whitney começou a desmoronar e comprimir o espaço que circundava os elementos em suas composições all-over. "Tive a ideia de empilhar as coisas. Queria um sistema que pudesse ser visto imediatamente."

A exposição de Veneza vai incluir obras da década de 1990, que mostram uma relação clara com a arquitetura antiga em seus quadriculados gestuais e dissonantes e telas mais refinadas pintadas nas últimas duas décadas durante os verões que Whitney e Adams passaram em uma casa que compraram nos arredores de Parma, na Itália, e que refletem a influência das naturezas-mortas meditativas de Morandi.

A primeira encomenda do Museu Whitney vai ser revelada este mês com a inauguração do novo Centro Ruth R. Marder para Estudos de Matisse, do Museu de Arte de Baltimore. Ali, Whitney canalizou seu amor pela linha orgânica e pelas cores vivas de Henri Matisse em três vitrais enormes intitulados Dance With Me Henri (Dance comigo, Henri). "O trabalho de Stanley fala muito da estrutura construída por meio da cor. Ele tem tudo a ver com uma encomenda de arquitetura", disse Katy Siegel, curadora sênior do museu para pesquisa e programação. Em entrevistas, Whitney sempre mencionou Matisse criando seu trabalho sensual em Nice, na França, durante a guerra, com as ruas ocupadas por nazistas – imagem não muito diferente do estudante Whitney, em meados dos anos 60, pintando no porão do Instituto de Arte de Kansas City enquanto o movimento pelos direitos civis fervilhava do lado de fora. "Ele também se relaciona com a sensação de Matisse de que você pode estar vivendo em tempos muito desafiadores, mas fazendo um trabalho que reflete sua liberdade como artista, e não uma mensagem política específica que possa ser lida com facilidade", explicou Siegel.

No ano passado, uma exposição de desenhos do caderno de esboços de Whitney em Lisson, intitulada No to Prision Life (Não à vida na prisão), organizada para arrecadar recursos para o Fundo Arte para Justiça, da filantropa Agnes Gund, "trouxe uma declaração política aberta que ninguém tinha notado", observou Logsdail, o agente do artista. Emoldurado pelo tema do encarceramento, "de repente o quadriculado primordial e as formas abstratas foram transformados em uma cela claustrofóbica e trancada", escreveu Gund em um comunicado sobre a exposição.

Um desenho denso com linhas sinuosas de grafite, intitulado Always Running From the Police – NYC 2020 (Sempre fugindo da polícia – NYC 2020), faz referência à própria experiência de Whitney crescendo em Bryn Mawr, na Pensilvânia, onde sua família morava em um apartamento acima da sapataria de seu pai. "Assim que saíamos do trem, a polícia nos parava. Um policial me parava todo dia depois da escola. Foi um jogo que jogamos. Eu achava que a vida era assim", contou Whitney, que gostava de ir à Filadélfia com um amigo para desenhar.

Na escola de arte do Centro-Oeste dos Estados Unidos, Whitney combinou os aspectos das novas descobertas, incluindo Munch, Courbet e Velázquez, com seu autorretrato. Mas não gostou da conversa psicológica em torno desse trabalho e o interrompeu. Em um programa de verão na Faculdade Skidmore em Nova York em 1968, tornou-se o queridinho do professor Philip Guston, na época um expressionista abstrato à beira de uma mudança radical de estilo. "Eu o conheci quando ele estava perdido como eu, mas eu estava indo da figuração à abstração e ele estava indo na direção contrária", comentou Whitney, que diz que foi Guston que o ensinou a estruturar uma pintura e quem o recomendou a um programa que o levou à cidade de Nova York.

Observar Whitney melhorar com a idade foi uma inspiração para o pintor Odili Donald Odita, que se tornou amigo do artista depois que viu sua exposição de 1995 na Galeria Skoto, em Manhattan. "Ainda o vejo como um mentor e uma referência do que é ter sucesso como um artista que faz ótimas pinturas e tenta melhorá-las cada vez mais", afirmou Odita. Whitney revelou que aguarda por sua retrospectiva com uma mistura de entusiasmo e ansiedade: "Será interessante ver o que fiz. Quero saber se consigo andar com os meninos maiores."

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O estúdio na casa de Stanley Whitney em Bridgehampton, Nova York, em 20 de outubro de 2021. (Gabriela Bhaskar/The New York Times)

Stanley Whitney no estúdio de sua casa em Bridgehampton, Nova York, em 20 de outubro de 2021. (Gabriela Bhaskar/The New York Times)

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