KAWS via The New York Times
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Artistas exploram complexidade de Michael Jackson

Uma mostra em Londres mostra como artistas contemporâneos responderam à imagem do Rei do Pop

Thomas Chatterton Williams, The New York Times

05 Agosto 2018 | 10h45

LONDRES - Quando o mundo ficou sabendo da morte de Michael Jackson, em decorrência de uma overdose em 2009, a notícia tinha uma aura de irrealidade em torno de si. Isso ocorreu em parte porque fazia tempo que tinha se tornado difícil lembrar que ele era uma pessoa de verdade. 

Prodígio mirim transformado em Peter Pan ao chegar à idade adulta - com uma recusa fantástica em envelhecer -, Jackson sempre foi mais uma ideia do que um ser humano. Quase uma década depois, sua imagem extraordinária perdura como se ele nunca tivesse nos deixado.

Agora, uma nova exposição na National Portrait Gallery, em Londres, que ficará aberta ao público até 21 de outubro, busca medir o impacto e alcance de Jackson enquanto inspiração e artefato cultural. "Michael Jackson: On the Wall", com curadoria de Nicholas Cullinan, ocupa 14 salas e reúne a obra de 48 artistas, das telas feitas em silk-screen por Andy Warhol até uma pintura em tinta óleo de Kehinde Wiley.

Uma versão imaginária da qual o artista Hank Willis Thomas se apropria é uma das peças mais chocantes da exposição, "Time Can Be a Villain or a Friend (1984/2009)". Nela, vemos uma versão de Jackson com o tom de pele original, um bigode finíssimo e um penteado mais cheio. 

No catálogo, Thomas explica que se trata apenas de uma ilustração do cantor feita para uma edição de 1984 da revista Ebony, um vislumbre do que seria a aparência de Jackson no ano 2000. É, de longe, a obra mais crítica de "On the Wall's": a imagem, antes tão cheia de orgulho e esperança, tornou-se agora uma denúncia, assombrando a exposição com acidez.

Nesta era pós-racial e pós-Obama, de ressurgimento do populismo, a sensação que temos é que ser branco ou negro é realmente importante. Isso nos proporciona um fascinante momento para reavaliar a imagem de Jackson enquanto fundamentalmente "negro", mas, ao mesmo tempo, como uma figura de transcendência racial, ou uma monstruosa profanação. Essas perspectivas diferentes são observadas em toda a exposição.

No catálogo, a crítica Margo Jefferson chama Jackson de "deus pós-moderno da ilusão", destacando "as emoções tão viscerais que ele despertava (e continua despertando) em nós!". Ela antecipa a contribuição severa da ensaísta e romancista Zadie Smith nas páginas seguintes. Zadie escreve a respeito da preocupação inicial de sua mãe com o cantor: "Acho que os Jacksons representavam a possibilidade de o negro ser lindo, de sermos adorados em nossa negritude - ou até reverenciados". 

Mas, ela acrescenta, "Quando comecei a reparar em Michael - mais ou menos em 1980 -, minha mãe não queria mais saber dele, por motivos que nunca expôs, mas que logo se tornaram bastante claros. Para mim, ele logo se converteu numa figura traumática, envolta em vergonha".

Críticas desse tipo cometem o equívoco de reduzir Jackson ao papel de embaixador tribal numa sociedade erguida a partir de ideias demasiadamente simplificadas de raça e identidade de gênero que sua própria arte e representação de si mesmo sempre questionaram. O homem que compôs "We Are the World" tinha uma visão idealista e expansiva de nossa humanidade comum.

Uma das contribuições mais interessantes da exposição "On the Wall" é a série de quatro dípticos de Lorraine O'Grady, "The First and Last of the Modernists (Charles and Michael)". Feitos a partir de fotografias ampliadas do poeta francês Charles Baudelaire, do século 19, e de Jackson em poses semelhantes, tingidas com diferentes tons pastéis, essas peças abordam de maneira divertida a questão do espelhamento.

"Quando Michael morreu, tentei entender por que eu estava chorando como se ele fosse um parente", explicou Lorraine numa entrevista durante a abertura da exposição, em junho. "Percebi que a única pessoa que eu poderia comparar a ele era Baudelaire", disse ela, referindo-se à sexualidade ambígua e à propensão a usar maquiagem como pontos em comum.

"Mas o mais importante é que ambos tinham uma ideia elevada do papel do artista", acrescentou Lorraine. "Se Baudelaire imaginava explicar o novo mundo em que estava vivendo para aqueles ao seu redor, Michael tinha uma visão ainda mais elevada: imaginava ser capaz de unir o mundo todo por meio da música".

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