Amanda Lucier para The New York Times
Amanda Lucier para The New York Times

As bibliotecas estão se tornando obsoletas?

Em uma era em que as pessoas buscam respostas na Internet, amantes da leitura lutam pela sobrevivência das bibliotecas

Tom Brady, The New York Times

28 de outubro de 2018 | 06h00

Alguns dizem que as bibliotecas dos Estados Unidos são um anacronismo, e, atualmente, o apoio financeiro que elas recebem é frequentemente inadequado. Com tantos títulos em formato digital, uma fatia tão grande da cultura se desenvolvendo na internet e tantas pessoas interagindo virtualmente, o senso comum indica que as bibliotecas públicas estão se tornando obsoletas.

Outros dizem que é cedo para sentenciá-las. Quando a revista Forbes publicou um artigo em meados deste ano sugerindo que a Amazon substituísse as bibliotecas por lojas, a reação foi tão negativa que a Forbes apagou o artigo de seu site.

As visitas, a circulação dos livros e a frequência aumentaram em Nova York e outras cidades. Mas as bibliotecas - onde os pobres podem ler em paz e os sem-teto podem se manter aquecidos e secos - estão sendo abandonadas no momento em que são mais necessárias, escreveu Eric Klinenberg no Times.

"As bibliotecas são lugares onde pessoas com diferentes perfis, interesses e paixões podem participar da vida numa cultura democrática", escreveu Klinenberg. "Os setores público, privado e filantrópico podem trabalhar juntos para oferecer algo além do mínimo".

Os contribuintes do sudoeste do Oregon decidiram poupar dinheiro cortando recursos para as bibliotecas municipais. Mas os amantes dos livros que vivem em pequenas cidades agora tentam entrar no ramo do empréstimo de livros, de acordo com reportagem de Kirk Johnson no Times. E eles estão descobrindo que não é tão fácil quanto pensavam.

Talvez eles devessem prestar atenção na história de Todd Bol, criador da Biblioteca Gratuita numa Caixinha, que deu início a um movimento responsável pela instalação de 75 mil caixas em todos os 50 estados americanos, em mais de 88 municípios. Bol morreu no dia 18 de outubro, aos 62 anos.

Os moradores de Drain, cidade com mil habitantes, tiveram de adiar a festa de reabertura nos meses mais recentes: a biblioteca não possuía livros. Não muito longe dali, em Reedsport, os bibliotecários não conseguiram a lista de associados e seus cartões. Uma nova biblioteca deve ser aberta na cidade de Roseburg, mas, rompendo a tradição, ela não tem planos de compartilhar seu material com outras bibliotecas.

"É cada biblioteca por si, e não sabemos onde isso vai dar", disse a Johnson o voluntário Robert Leo Heilman, da biblioteca municipal de Myrtle Creek.

Trinta e dois anos atrás, os moradores de Los Angeles descobriram como pode ser a vida sem bibliotecas quando a Biblioteca Central pegou fogo, ardendo por oito horas. O resultado: 400 mil livros destruídos e outros 700 mil danificados.

Susan Orlean conta a história desse incêndio em The Library Book (O Livro da Biblioteca, em tradução livre). Como tantos, ela não lembrava do episódio do incêndio, ocorrido no dia 29 de abril de 1986, mesma semana do desastre nuclear de Chernobyl. Ficou sabendo do caso num passeio por uma biblioteca e teve o interesse de escrever a respeito dele.

"As bibliotecas são lugares, e não apenas uma página na internet", disse Susan no podcast Times Book Review. "Elas existem como ponto de encontro numa comunidade, e não há muitos lugares tão abertos e acessíveis a todos".

Susan ficou impressionada com o fato de, na era dos mecanismos de busca, a biblioteca continuar sendo o lugar onde as pessoas mais procuram respostas. Em seu livro, ela comenta as anotações das bibliotecárias com algumas das perguntas que recebiam: "Um sócio telefonou. Queria saber como se diz 'a gravata está na banheira' em sueco. Estava escrevendo um roteiro".

Certo dia, na biblioteca de Los Angeles, ela ouviu uma bibliotecária dizer: "Por que alguém telefonaria para cá para perguntar, 'Qual dos dois é mais malévolo: grilos ou gafanhotos?'".

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