Diego Levy para The New York Times
Diego Levy para The New York Times

'As comédias românticas são minhas inimigas', diz diretora argentina Lucrecia Martel

Uma das principais cineastas da Argentina, ela é especializada em trabalhos que vão muito além do senso comum

J. Hoberman, The New York Times

18 Abril 2018 | 10h00

Quando a cineasta argentina Lucrecia Martel expressa sua admiração pelos diretores que desafiam a realidade, poderia referi-se a si mesma.

Lucrecia é considerada por muitos uma importante diretora de cinema do seu país, ou mesmo da América Latina. Em um artigo sobre o seu primeiro longa, “La Ciénaga” (O pântano), o estudioso do cinema argentino David Oubiña elogiou “uma obra que, desde o início, irradia uma rara perfeição”.

“Zama”, o novo filme da diretora de 52 anos e o primeiro dela em cerca de dez anos, também foi recebido com enorme respeito: Manohla Dargis, do “New York Times” disse que poderia incluir o drama histórico em seu “festival dos sonhos”, e Xan Brooks, do “Guardian”, o definiu como “uma obra-prima inesperada”.

Em seus filmes anteriores, Lucrecia tratou em grande parte das relações familiares. Entretanto, ela não se vê como uma realizadora de filmes femininos. “As comédias românticas são minhas inimigas”, afirmou, falando depois da exibição de “Zama” no Festival de Cinema de Nova York, no fim do ano passado.

Com a originalidade do seu estilo oblíquo, o fascínio pelo quase documentário com grandes famílias e o gosto pela descrição da inércia interiorana, Lucrecia ao mesmo tempo estimula e confunde os espectadores. Seus filmes vívidos e esquivos são obras fragmentadas, agudamente observadores, povoadas por personagens propensas a acidentes, notáveis pela falta de consciência de si mesmas.

É tentador atribuir à intimidade da cineasta e à sua facilidade em dirigir elencos grandes à própria experiência pessoal. Criada em Salta, uma cidade na extrema ponta do noroeste da Argentina, ao pé dos Andes e à margem da floresta tropical, com seus seis irmãos, contou que ela era encarregada de fazer filmes caseiros de sua próspera família.

Os filmes da chamada Trilogia de Salta, de Lucrecia Martel - “La Ciénaga”, que firmou sua reputação no Festival de Cinema de Berlim em 2000; “A menina santa” (2004) e “A mulher sem cabeça” (2009), que estrearam na competição de Cannes - são de uma comicidade seca e, às vezes, horríveis dramas domésticos.

Lucrecia evita estabelecer as cenas a serem filmadas e gosta de transições abruptas. Seus enquadramentos inclinados podem ser desconcertantes, e meio constrangida ela os atribui à sua miopia.

Depois dos filmes de Salta, Lucrecia decidiu mudar o tema. Seu projeto seguinte foi uma adaptação do romance em quadrinhos “O Eternauta”, de Héctor Germán Oesterheld, uma fantasia de ficção científica que critica o autoritarismo da Argentina, cujo autor aparentemente foi assassinado pelo regime durante a “guerra suja”, de meados da década de 1970 e começo da de 1980. Lucrecia descreveu este período como uma versão mais sinistra dos seus filmes. “As coisas aconteciam sem nenhuma explicação, principalmente para uma criança”, ela disse, referindo-se a carros misteriosos, manchas de sangue, até mesmo cadáveres na rua.

Levou dois anos para preparar o roteiro, e, sem garantir um financiamento e os direitos necessários, Lucrecia abandonou “O Eternauta”. Foi então que descobriu o romance “Zama”, de 1956, que há cinco anos deixara na estante e nunca lera. Finalmente, o levou consigo em uma viagem pelo Rio Paraguai, onde se desenrola a maior parte da ação.

Se as primeiras obras da cineasta desafiavam a realidade, “Zama” - um drama de época ambientado no final do século 18, que custou $ 3,5 milhões, um orçamento modesto, embora mais que o dobro de “A mulher sem cabeça” - é um filme que constituiu um verdadeiro desafio para a própria diretora. Ela passou quatro anos redigindo o roteiro e levantando o dinheiro (oito países financiaram a produção; entre os vários coprodutores estão Pedro e Agustín Almodóvar, Gael García Bernal e Danny Glover). A filmagem foi árdua, emperrada por causa do mau tempo; a pós-produção foi demorada em razão de sua doença (Lucrecia disse que teve de se tratar de um câncer que agora retrocedeu).

Lucrecia espera retornar a Salta, onde estava trabalhando em um documentário sobre Javier Chocobar, um ativista indígena que foi morto em uma disputa de terra em 2008.

“A historia do nosso país é fragmentada”, ela afirmou, referindo-se à identificação da Argentina com a Europa. “É um conflito para todo homem branco” - e crucial para a compreensão do anti-herói existencial Zama.

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