Jonathan Cosby/Associated Press
Jonathan Cosby/Associated Press

As grandes empresas e os efeitos da Amazon estão reformulando a economia?

Grandes corporações podem estar influenciando inflação e crescimento salarial à custa do poder dos banqueiros centrais

Neil Irwin, The New York Times

04 Setembro 2018 | 10h00

JACKSON HOLE, WYOMING - Dois dos acontecimentos mais importantes da área econômica das últimas décadas são o predomínio de algumas companhias extraordinariamente poderosas sobre um número maior de setores e a persistência de patamares baixos de salários, inflação e crescimento.

Agora, os estrategistas econômicos mais poderosos do mundo começam a considerar mais seriamente a possibilidade de o primeiro destes eventos ser uma causa do segundo - e de que a crescente concentração do poder das grandes corporações prejudique os esforços empreendidos pelos bancos centrais para manter as economias saudáveis.

Os economistas tradicionais discutem questões como, por exemplo, se o monopsônio - o poder desmedido de algumas companhias consolidados - constituiria parte do problema do baixo crescimento dos salários. Eles analisam se estas empresas “superstar” são responsáveis pelos modestos gastos com investimentos. E ainda se haverá um “efeito Amazon”, ou seja, se a rápida mudança dos algoritmos dos preços pelas varejistas online e por suas concorrentes implica em maiores oscilações da inflação.

No mês passado, em uma reunião em Wyoming, os diretores do Federal Reserve dos Estados Unidos e de outros bancos centrais discutiram se a consolidação das empresas do setor privado poderia ter profundas implicações para a política econômica.

Os banqueiros centrais se debatem com a possibilidade de que os detalhes da maneira como as corporações exercem seu poder sejam importantes para o bem-estar da economia.

Isto também poderia ter implicações para o funcionamento dos bancos centrais. Se a concentração do poder nas corporações freia o crescimento dos salários, o Fed poderia manter baixos os juros por um período maior sem acelerar a inflação. Se o varejo online provoca uma alta dos preços maior do que acontecia anteriormente, as autoridades deveriam se mostrar mais relutantes em mudar abruptamente sua política com base nas oscilações a curto prazo dos preços ao consumidor.

Alan Krueger, economista da Universidade Princeton, afirmou que quando se reduz o número dos empregadores em potencial dispostos a contratar mão de obra, os trabalhadores podem ter menos capacidade de reivindicar um aumento salarial, e torna-se mais fácil para os empregadores conspirar  para conter os salários por meio de acordos explícitos pouco transparentes ou por sinais mais sutis.

Por outro lado, mantendo os juros baixos e permitindo o fortalecimento do mercado de trabalho, talvez os empregadores não tivessem outra escolha senão aumentar os salários. “Permitir que o mercado de trabalho seja mais aquecido poderia quem sabe provocar o fim do conluio”, disse Krueger. 

“Reduzindo o conluio, os salários e os empregos aumentariam”.

Outro estudo, apresentado pelo economista Alberto Cavallo de Harvard, mostra que os algoritmos usados pelo Amazon e por outros varejistas online, com os seus constantes ajustes dos preços, podem implicar maiores flutuações da inflação em geral no caso de oscilações do valor das moedas ou de outros choques.

Os varejistas físicos tendem a subir mais lentamente os preços por causa de uma eventual perturbação temporária, como uma alta da cotação do dólar ou a queda dos preços da gasolina. Mas os varejistas online podem refletir as alterações dos preços de maneira quase instantânea.

“Os preços no varejo estão se tornando menos ‘isolados’ destes choques comuns em todo o país”, escreveu Cavallo no estudo. “Os preços dos combustíveis, as flutuações do câmbio ou qualquer outra força que afete os custos que pode estar embutida nos algoritmos da política de preços usada por estas firmas exercerão mais provavelmente um impacto maior e mais rápido nos preços do varejo do que 

acontecia no passado”.

Os que estudam a política da organização industrial ou antitruste constituem um clã diferente dos que ficam falando em rendimento dos títulos e nas metas inflacionárias.

Mas os integrantes dessa tribo macroeconômica já percebem que podem ter muito a aprender sobre o funcionamento interno da economia: como os detalhes da estratégia destas empresas para competir, para fixar os preços e contratar a mão de obra.

O que ajuda é o fato de que há uma veia cada vez mais rica de pesquisas baseadas na capacidade de calcular enormes quantidades de dados de cada companhia.

Esther George, diretora do Federal Reserve Bank de Kansas City, disse: “Observar o tamanho e a pegada das empresas não tem sido a preocupação principal, entretanto parece ser extremamente importante e o sinal de algo que vale a pena levar bastante a sério”.

Mais conteúdo sobre:
Amazon inflação economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.