Kemal Jufri para The New York Times
Kemal Jufri para The New York Times

As mais antigas crenças da Indonésia querem o reconhecimento oficial

A religião é tão onipresente no país que os cidadãos são obrigados a declarar nos seus documentos de identidade qual das seis religiões aprovadas eles seguem

Joe Cochrane, The New York Times

28 Abril 2018 | 10h15

JACARTA, INDONÉSIA – Originária da ilha de Java, na Indonésia, onde viveu na década de 70, Dewi Kanti praticava uma forma antiga das crenças tradicionais indígenas, existentes séculos antes da chegada do cristianismo, do budismo e do islã.

Ironicamente, observa Dewi com amargura, estas crenças tradicionais hoje a tornam uma pessoa marginalizada do ponto de vista religioso, no seu próprio país, porque o governo reconhece somente seis religiões: islã, budismo, hinduísmo, protestantismo, catolicismo e confucionismo.

“A questão é que não existe justiça”, ela disse. “Por que estas grandes religiões globais podem se espalhar e ser reconhecidas, mas a religião original da Indonésia não pode?”

Em novembro, uma decisão histórica da Corte Constitucional confirmou os direitos dos seguidores de crenças tradicionais em uma demonstração de crescente tolerância em relação às minorias religiosas da Indonésia, a nação mais populosa do mundo de maioria muçulmana. Entretanto, cinco meses mais tarde, o governo ainda não implementou a norma.

Em um país em que a religião desempenha um grande papel na vida pública, os seguidores de crenças tradicionais, conhecidas em geral como ‘aliran kepercayaan’, esperam que a lei finalmente acabe com dezenas de anos de discriminação não oficial. Por causa disso, é difícil para eles obter uma autorização para abrir locais para encontros, licença matrimonial e acesso a serviços públicos, como assistência médica e educação. Além disso, constitui um entrave às tentativas destes crentes de ingressar nas forças armadas, na polícia ou no funcionalismo público, até mesmo comprar tumbas nos cemitérios.

Existem centenas de formas diferentes de ‘aliran kepercayaan’ espalhadas pelo vasto arquipélago indonésio. Em Java, a ilha mais populosa, ele constitui frequentemente uma mescla de animismo, crenças hindu-budistas e islamismo.

Calcula-se que, pelo menos, 20 milhões dos 260 milhões de indonésios sejam adeptos de crenças tradicionais locais, mas os números podem ser muito superiores. Alguns são também seguidores do islã, do cristianismo e de outras religiões principais.

A religião é tão onipresente na Indonésia que os cidadãos são obrigados a declarar nos seus documentos de identidade qual das seis religiões aprovadas eles seguem, embora em algumas regiões possam deixar este item em branco. Entretanto, este pode ser um convite à discriminação e uma fonte de problemas burocráticos, por isso muitos adeptos das crenças tradicionais simplesmente declaram nos seus documentos a religião predominante na área em que vivem.

Cerca de 90% dos indonésios são muçulmanos, o que confere aos líderes religiosos islâmicos um prestígio político enorme. Atualmente, alguns grupos islâmicos ortodoxos querem mudar a Constituição a fim de tornar o islamismo a religião oficial de Estado.

Entretanto, importantes expoentes da Nahdlatul Ulama, a maior organização islâmica da Indonésia, apoiam a decisão da Corte.

Arief  M. Edie, um porta-voz do Ministério do Interior, informou que a carteira de identidade nacional está sendo atualizada a fim de incluir o ‘aliran kepercayaan’ como opção no item correspondente à religião do cidadão. Entretanto, este não será reconhecido como sétima religião oficial do Estado. “Ele é reconhecido apenas como cultura, e não como religião”, disse Arief.

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