Adrienne Grunwald para The New York Times
Adrienne Grunwald para The New York Times

As ruínas da Capela Sistina dos quadrinhos

Overlook parece um bar como qualquer outro, mas ali se escondem trabalhos de cartunistas renomados

Alex Vadukul, The New York Times

10 Agosto 2018 | 15h45

Numa cabine escura do Overlook, que fica num pequeno edifício de tijolos abaixo dos arranha-céus do centro, no leste de Manhattan, dois sujeitos bebiam cerveja.

O bar estava animado, com pessoas comendo frango frito e assistindo jogos de basquete nos televisores, mas a dupla estava ocupada estudando a velha parede rachada bem ao seu lado.

Com seis metros de largura, estava coberta com dúzias de desenhos de personagens clássicos dos quadrinhos americano.

“Ali estão Adalberto e Alceu", disse Steve Gold, 57 anos. “E ali temos o Recruta Zero e Hagar, o Horrível.”

“E aquele é Fred Flintstone", disse o amigo dele, Marcel Alers.

“Cresci cercado por esses personagens", acrescentou Gold. “Meus filhos já passaram dos 20 e, provavelmente, não têm ideia de quem sejam essas figuras. É a minha infância.”

Esta parede em ruínas no fundo de um bar qualquer em East 44th Street é um dos tesouros culturais mais abandonados de Nova York. Criada nos anos 1970s, trata-se de uma verdadeira Capela Sistina dos quadrinhos americanos: os cerca de 30 desenhos espalhados pela superfície desgastada são obra de um panteão de cartunistas lendários, incluindo um Homem-Aranha de Gil Kane, um Recruta Zero de Mort Walker, um Dondi de Irwin Hasen, um Steve Canyon de Milton Caniff, um Hagar, o Horrível de Dik Browne, e um Adalberto de Paul Fung Jr. Há também um autorretrato de Al Jaffee, um desenho de Bil Keane, e uma tira no estilo da revista Mad feita por Sergio Aragonés.

Al Jaffee, agora com 97 anos, ficou surpreso ao saber que o muro ainda existia. “Fico surpreso em saber que continua de pé, em estado tão deteriorado", disse Jaffee, que criou o estilo único da revista Mad, com a dobradura na última página. “Estou curioso para saber quantos de nós, que deixamos alguma marca na parede, ainda estão vivos. Fiquei honrado por desenhar ao lado de muitos dos meus heróis.”

Muito antes do muro nos fundos do Overlook se tornar uma decoração desgastada num bar qualquer, ele testemunhou uma glamourosa era de celebridades literárias quando o estabelecimento era ocupado por um bar de longa história chamado Costello's.

O escuro salão irlandês era muito procurado por jornalistas e escritores. O local deu origem a diversas lendas: foi ali que Ernest Hemingway quebrou uma bengala na cabeça de John O’Hara’s; Marilyn Monroe foi mal atendida quando pediu uma vodca com suco de laranja; o humorista James Thurber desenhou murais nas paredes do salão para quitar a conta na era da Depressão.

O Costello’s foi aberto na esquina da rua 44 com 3ª avenida, mas mudou de endereço três vezes antes de se assentar no destino final, em 1974. Foi ali que o dono do bar, Timothy Costello, procurou novas artes para acompanhar os murais de Thurber, e assim recorreu à ajuda de Bill Gallo, cartunista do Daily News. Mas Gallo não queria concorrer com os desenhos bem-humorados e simples de Thurber.

Ele propôs a Costello uma espécie de ação de marketing: “Feche o lugar por 24 horas oferecendo bebida e comida grátis, e eu trarei os melhores cartunistas do país para que pintem sua parede", disse ele.

Assim, na primavera de 1976, cerca de 30 dos melhores cartunistas dos EUA se reuniram para desenhar suas criações, completando a parede em menos de 30 minutos.

Mort Walker, criador da tira de quadrinhos Recruta Zero, lembrou do espetáculo numa entrevista de 2004: “Fiz minha parte, subi numa escada e desenhei meu personagem. Então desci, tomei alguns drinques, e não lembro bem o que ocorreu depois disso" (Walker morreu em janeiro).

A parede está repleta de um humor datado: os personagens bebem martinis e contam piadas obscenas nos balões de texto, uma cena de Sergio Aragonés mostra bandidos de sombreiro assediando uma donzela, e uma caricatura do ex-prefeito de Nova York, Abe Beame, mostra o político acenando com um pote de esmolas (possível referência às suas perspectivas de reeleição naquele ano).

O Costello’s fechou em 1992, substituído por um bar chamado Turtle Bay Café. Este fechou em 2004, e o muro foi salvo pelo Overlook, que alugou o espaço e não tinha interesse em reformas pesadas.

“A parede ficará a salvo enquanto eu estiver aqui", disse Mark Evangelista, um dos donos do Overlook. “Se fecharmos, é provável que seja derrubada. Mas isso só vai acontecer por cima do meu cadáver.”

Ele organizou uma homenagem à parede em 2005, reunindo um grupo dos cartunistas sobreviventes para que desenhassem outro mural no salão. Limpo, claro e apresentando um humor menos ácido, este jamais será confundido com o original.

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