Ryan Shorosky para The New York Times
Ryan Shorosky para The New York Times

As turnês de Joan Baez acabarão, mas nunca os protestos

A cantora, que fará a última turnê antes da aposentadoria, aconselha seus ouvintes mais jovens a não imitarem as manifestações dos anos 60

Alan Light, The New York Times

25 Março 2018 | 10h00

WOODSIDE, CALIFÓRNIA - Ela se apresenta há 60 anos, e até pouco tempo atrás não lançava um álbum desde 2008, mas Joan Baez intensificou a sua dinâmica.

Taylor Swift a levou para o palco, e Lana Del Rey afirmou que “Lust for Life”, seu álbum mais recente, tem “influências da Joan Baez dos primeiros tempos”. No ano passado, a cantora entrou para o Hall da Fama do Rock & Roll. Sua versão da Banda de “The Night They Drove Old Dixie Down” de 1970 (seu único single na lista dos Top 10) foi recentemente transformada no filme “Três Anúncios para um Crime”.

Entretanto, exatamente quando ela revelava uma nova reserva de ressonância cultural, decidiu aposentar-se. Ela anunciou que o seu novo álbum, “Whistle Down the Wind”, seria a sua última gravação, e disse que a turnê de oito meses ao redor do mundo, que começou na Suécia, este mês, marcará o seu adeus ao palco.

“É uma grande decisão, mas me parece totalmente acertada”, afirmou Joan, 77, em uma entrevista em sua casa, aqui em Woodside.

A pureza cristalina da voz de Joan Baez foi ouvida desde as suas apresentações em março de 1963, em Washington, a Woodstock, seis anos mais tarde, desde Live Aid, em 1985, aos protestos na Dakota Access Pipeline de 2016. Mas foram principalmente as modificações no alcance de sua voz que a levaram a tomar a decisão de parar.

“Anos atrás, perguntei ao meu professor de canto quando chegaria a hora de parar”, contou, “e ele disse: ‘A sua voz dirá’. E de fato ela avisou  - a voz é um músculo, e é preciso um enorme trabalho  para fazê-lo  funcionar”.

Segundo o produtor de “Whistle Down the Wind”, Joe Henry (que também trabalhou com Bonnie Raitt, Allen Toussaint e Solomon Burke),  Joan se adequou às limitações de sua voz. “Eu sabia que ela tinha consciência de estar perdendo a amplitude da sua voz, entretanto, a perda do seu alcance não afetou em nada a sua força emocional como contadora de histórias”, acrescentou.

Joan queria que o álbum - no qual interpreta músicas de Tom Waits, Josh Ritter e Mary Chapin Carpenter, entre outros - fosse o “fecho” de sua carreira no que se refere às gravações, carreira que começou com o ‘debut’, como ela o definiu, em 1960, acrescentado ao Grammy Hall of Fame e ao National Recording Registry da Biblioteca do Congresso.

Foi mais importante para ela deixar o álbum falar ao momento atual do que fazer qualquer outro tipo de declaração final. “A coisa  mais consciente foi tentar fazer um álbum  que de alguma forma musical tentasse fazer a beleza, apesar de todo o mal”, ela disse. “Mas nada ostensivo ou eu não poderia fazê-lo. Duas canções que tive de deixar para fora eram demasiadas sobre tópicos atuais, e eu queria que expressasse um sentimento mais duradouro”.

Ela definiu o atual clima político como o resultado de “uma batalha de 40 anos com grupos de analistas e pesquisadores da direita - os conservadores aprenderam a falar, a mentir, a torcer as coisas como os liberais e os progressistas jamais fizeram”.

Mas Joan manifestou a esperança na energia que ela viu nas manifestações das mulheres, e no número de mulheres que decidiram se candidatar a cargos. “Gostei de ver que não se trata apenas de simples atos e que depois tudo acabava morrendo”, afirmou. “O medo era que nas manifestações comparecesse um milhão de mulheres, e depois todo mundo fosse para casa, mas não acho que esteja acontecendo isto”.

Joan Baez, que foi homenageada pela Anistia Internacional em 2015, com o Prêmio de Embaixadora da Consciência, aconselhou a não imitar ou a romancear o movimento de protesto dos anos 60, que ela ajudou a definir e a desencadear.

“É como tentar fazer um segundo Woodstock, o que é realmente idiota, me parece”, ela disse. “Posso perceber onde as pessoas querem isto - desde o dia em que ouvi uns jovens dizendo: ‘Cara, gostaria de ter estado lá’”.

Em janeiro, Joan, cujo pai, um físico famoso, nasceu no México, esteve no Capitólio do Estado da Califórnia para as homenagens às 32 vítimas do desastre de aviação de Los Gatos Canyon, em 1948, entre elas, 29 cidadãos mexicanos cujos nomes não foram mencionados. Ela cantou “Deportado” de Woody Guthrie, que narra a história da tragédia, para os descendentes dos que morreram na ocasião. E afirmou que nunca deixará de participar deste tipo de ato.

Mais tarde, em um e-mail, ela parecia ainda envolvida em seu papel e em sua responsabilidade. “Quando subo ao palco, não faço história, eu sou a história”, escreveu. “Talvez seja suficiente para mim estar lá em cima, lembrando às pessoas de um tempo em que nós tínhamos a música, a causa, a direção e tínhamos uns aos outros”.

“Meus fundamentos na ação política pela não violência foram lançados antes que eu começasse a cantar, e são uma segunda natureza para mim. Por isso não excluo a possibilidade da desobediência civil e até mesmo de ir para a cadeia. Alguém terá de fazê-lo”. 

“E talvez ainda exista alguma virtude em ter carregado a chama, e agora a graça de passar a tocha”, afirmou.

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