Maria Magdalena Arrellaga para The New York Times
Maria Magdalena Arrellaga para The New York Times

Ascensoristas do Rio se apegam a profissão com os dias contados

Profissionais contam que acompanhar a rotina de conhecidos é o principal atrativo do trabalho

Ernesto Londoño, The New York Times

28 Dezembro 2018 | 06h00

RIO DE JANEIRO - Os ascensoristas não se iludem: sabem que seus dias estão contados. Mas os milhares de operadores de elevador do Rio de Janeiro, que conseguiram manter viva a ocupação mesmo no século 21, esperam que as forças da automação não eliminem completamente seu trabalho, ao menos não nos próximos anos.

"Nunca ficamos entediados", disse Roselia da Conceição, 53 anos, enquanto transportava passageiros entre os 23 andares de um edifício do centro do Rio de Janeiro certa manhã, pilotando seu oscilante elevador a partir de um banquinho alto. "Estamos sempre conversando e interagindo com as pessoas, o que nos faz aprender muito e desenvolver um tipo de intimidade".

Ainda que o Rio de Janeiro seja mais conhecido pelas praias e favelas, a cidade foi capital do Brasil até 1960, e o centro está repleto de arranha-céus e sedes corporativas. Em 1991, uma lei estadual tornou obrigatória a contratação de ascensoristas para edifícios comerciais com cinco andares ou mais, principal motivo pelo qual a cidade ainda tem cerca de 4 mil desses profissionais, segundo estimativa de Sandro das Neves, um dos líderes do sindicato de ascensoristas.

Ao entrar num elevador, a sensação é de viajar para o passado. A breve jornada entre um andar e outro se torna uma oportunidade para um encontro sucinto, mas cordial - o tipo de conversa que tínhamos na fila do supermercado, no banco ou no check-in do aeroporto antes da inteligência artificial e as telas sensíveis ao toque substituírem essas interações humanas.

Mas a profissão de ascensorista, que teve seu ápice global na era dos telefonistas e sobreviveu no Rio até o início da era do carro autômato, pode estar finalmente com os dias contados. Apesar da lei, muitos ascensoristas perderam o emprego nos anos mais recentes com os cortes de custos dos condomínios durante uma recessão econômica que atingiu bastante a cidade. Então, veio aquele que provavelmente será considerado o golpe fatal. Este ano, um tribunal derrubou a lei de 1991, acatando a demanda de advogados do estado segundo os quais a exigência impunha um fardo financeiro injusto aos proprietários dos edifícios.

Neves disse que, desde então, o sindicato se dedica apenas a sobreviver. "Nossa luta não é por salários mais altos", disse ele, apontando que os ascensoristas ganham em média R$ 1.200 mensais. "Queremos apenas manter os funcionários nos elevadores", disse.

Manuel Fernandes do Prado, 77 anos, já passou da idade de aposentadoria, mas comanda o elevador num edifício da Avenida Presidente Vargas, via principal que cruza o centro do Rio de Janeiro. A opinião dele em relação ao trabalho? "Adoro!", disse.

Fernandes, que está no ramo há mais de 40 anos, às vezes acumula jornadas duplas em edifícios diferentes. Ele disse gostar de acompanhar a vida dos rostos conhecidos. Repara quando eles chegam mais animados ou parecem tristes. "A vida é boa quando estamos cercados de pessoas", comentou Fernandes.

Roselia contou que o trabalho não é tão obsoleto quanto pode parecer. Muitos elevadores da cidade têm décadas de funcionamento e foram consertados com peças sob medida porque não se encontram mais as sobressalentes originais. Mantê-los funcionando exige alguém que conheça seu funcionamento mecânico, as alavancas e os barulhos desses equipamentos antigos e temperamentais. E uma mão firme para quando eles emperram, o que não é raro. 

"Quando o elevador emperra, a única pessoa que não pode entrar em pânico é o ascensorista", disse ela.

Mas Roselia aponta também o lado negativo do trabalho. As horas em que fica confinada num cubículo sem janelas cobraram um preço de seu corpo. Mas é uma ocupação que ela adoraria seguir exercendo por pelo menos mais sete anos, até poder se aposentar.

"A profissão vai acabar. E, quando se tem mais de 50 anos, é difícil arrumar outro emprego", disse ela, suspirando. / Lis Moriconi contribuiu com a reportagem.

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