Kevin Hagen para The New York Times
Kevin Hagen para The New York Times

Asiáticos de Nova York se sentem ignorados

A decisão do prefeito Bill de Blasio de alterar o modo de admissão das escolas de elite, dominadas por asiáticos, foi a gota d'água, dizem ativistas

David W. Chen, The New York TImes

08 Agosto 2018 | 10h15

Quando o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, propôs uma mudança no processo de admissão de estudantes às escolas públicas do ensino médio da elite, estava cercado por dezenas de estudantes entusiasmados, líderes sindicais e funcionários eleitos, que agitavam cartazes com a frase "Todas as Crianças Merecem uma Chance".

Notadamente, estavam ausentes os representantes do grupo que seria mais afetado pela mudança: os asiáticos-americanos, cujos filhos predominam nestas escolas.

"O clichê 'Se você não está à mesa, está no cardápio' soava como a mais pura verdade", disse a congressista Grace Meng, que não foi convidada para o evento, que aconteceu em junho. "Duvido que qualquer outra comunidade, em relação a uma questão de grande impacto ou de uma mudança tão séria, não fosse consultada ou envolvida na discussão".

Os líderes asiáticos-americanos afirmam que em Nova York, longe de serem a "minoria modelo" - definição que muitos consideram desrespeitosa e incorreta -, são a minoria menosprezada, desprezada na divisão do poder político da cidade.

Segundo ativistas asiáticos-americanos, aparentemente não importa que os asiáticos-americano, independentemente de sua origem, inclusive os do Leste e do Sul da Ásia, agora constituam quase 15% da população da cidade, e que o seu total tenha aumentado mais de 50% desde 2000. Ou que o número de eleitores chineses e coreanos registrados tenha dobrado no mesmo período, como afirma o Centro de Pesquisa Urbana na City University de Nova York Graduate Center.

"Não se trata de uma única coisa, e nem de uma única vez", disse a vereadora Yuh-Line Niou. "Isso mostra um enorme ponto morto para as comunidades asiático-americanas como um todo".

A lista de queixas é comprida. Ela inclui a demora de de Blasio em cumprir a promessa de designar o Ano Novo Lunar como feriado escolar; o tratamento dado a um caso que envolveu um policial sino-americano condenado pela morte de um homem negro desarmado; e a proibição determinada pelo prefeito da circulação das bicicletas elétricas, essenciais para o ganha-pão dos trabalhadores imigrantes que vivem da entrega de produtos.

Mas foi a proposta de de Blasio sobre a segregação nas escolas do ensino secundário especializadas que intensificou a reação asiática. As oito escolas, que têm um único exame de admissão, contam com um número desproporcional de alunos asiáticos, e poucos negros e latinos. De Blasio propôs abandonar o exame e, em vez dele, admitir os estudantes de acordo com sua situação na classe e nas notas do exame estadual, o que aumentaria consideravelmente o número de alunos negros e latinos. Como o número de cadeiras é limitado, isso significaria que o número de estudantes asiáticos que ingressariam seria menor.

Mas ao anunciar o plano, de Blasio não mencionou a importância das escolas para os asiáticos americanos. Apesar dos estereótipos sobre seu suposto sucesso, os asiáticos-americanos são o grupo de imigrantes mais pobre da cidade, observou Joseph P. Viteritti, professor de política pública do Hunter College. Muitos consideram as escolas como uma escada para ascender à classe média, e o exame, a maneira mais justa de determinar a admissão. Um recente relatório mostrou que nove entre 10 famílias asiáticas que vivem na pobreza não têm uma habitação ao seu alcance, e 25% dos que estão aptos a trabalhar não têm seguro de saúde.

Reshma Saujani, de origem indiana, foi vice-defensora pública no governo de de Blasio e é a fundadora da organização Girls Who Code, que visa atrair garotas para a área de tecnologia, inclusive estudantes negras e hispânicas. Ela disse que apoiou a iniciativa do prefeito. Nos programas de verão dela, acrescentou, "todos os dias eu recuso jovens que se parecem comigo".

Mas Reshma concluiu que não se surpreende que as pessoas achem que não são levadas em consideração. "Como ativista originária da Ásia meridional, sei que nossa comunidade não tem voz política em Nova York”, afirmou. / Elizabeth A. Harris contribuiu para a reportagem

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