REUTERS Lucien Libert
REUTERS Lucien Libert

Assa Traoré, a mulher que luta em nome dos homens negros vítimas de violência policial

Francesa começou sua militância depois que seu meio-irmão morreu nas mãos das forças de segurança em 2016

Constant Méheut, The New York Times - Life/Style

10 de agosto de 2020 | 05h00

PARIS — De pé sobre uma caminhonete, o punho cerrado e erguido e as costas voltadas para uma fileira de veículos da polícia, Assa Traoré incendiou a multidão diante dela. “Vocês são poderosos!” gritou ela, celebrada por milhares de pessoas reunidas diante da Place de la République, no centro de Paris, protestando contra a violência policial e o racismo. “Seus rostos foram vistos no mundo inteiro!”

Poucas semanas atrás, Assa, de 35 anos, professora de educação especial de ascendência malinesa, era conhecida apenas como porta-voz do grupo Verdade para Adama, organização que exigia justiça no caso do meio-irmão dela, Adama Traoré, morto sob custódia policial em 2016 no seu 24º aniversário.

Mas, agora, com a disseminação dos protestos do movimento Black Lives Matter, ela ganhou mais atenção como defensora dos homens que foram vítima de violência policial discriminatória na França. Assa disse que os homens de bairros habitados por grupos minoritários têm mais chance de serem alvo da polícia do que as mulheres — e, enquanto mulher, ela pode ajudar a defendê-los assumindo uma posição onde é menos esperada.

“Com minha voz feminina, vamos tornar esses homens visíveis e dar-lhes uma voz", disse Assa em entrevista no seu apartamento, no subúrbio de Ivry-sur-Seine, perto de Paris. Na esteira da morte de George Floyd nos Estados Unidos, que desencadeou uma onda de fúria que varreu o mundo, Assa e o grupo dela organizaram alguns dos maiores protestos contra o racismo na Europa.

Eles reuniram pelo menos 20 mil manifestantes diante de um tribunal de Paris no início de junho apesar da proibição policial, e depois uma multidão de 15 mil pessoas 11 dias mais tarde, na Place de la République. Nas semanas mais recentes, as manifestações têm incluído mais brancos de áreas nobres de Paris, disse Assa, em comparação às primeiras manifestações denunciando a morte de Adama, ainda em 2016, frequentadas basicamente por negros e imigrantes.

Faz anos que a França luta para confrontar o racismo. Os subúrbios de Paris explodiram em revolta em 2005, impulsionada pelo ressentimento dos imigrantes norte-africanos em relação ao tratamento recebido por parte da polícia e à discriminação em geral, expondo ao restante da França as fissuras raciais do país.

A França, que colonizou partes da África, do Sudeste Asiático e do Caribe, não foi capaz de integrar plenamente os imigrantes vindos do seu antigo império. Parte disso tem raiz no compromisso com o universalismo: a crença segundo a qual nenhum grupo deve receber tratamento preferencial, algo que os críticos apontam como responsável por abafar o debate e proteger o país das responsabilidades do seu legado colonial.

As palavras de Assa encontraram eco em uma geração mais jovem, que compareceu em grande número às manifestações. “Ela fala com clareza, e isso a torna forte", disse Djenaba Dramé, estudante de 21 anos presente na manifestação da Place de la République. Christiane Taubira, que em 2012 se tornou a primeira negra a ser nomeada ministra da Justiça, descreveu-a como “uma chance para a França".

Todos concordam que Assa é uma figura carismática, fácil de identificar enquanto agita a multidão usando sua camiseta preta com as palavras “Justiça para Adama. Sem justiça, jamais haverá paz". Ela a veste quase diariamente. Nascida em Paris em 1985, Assa vem de uma família com história na França e em Mali. Dois de seus bisavôs combateram com as forças francesas durante a 2ª Guerra Mundial, quando o Mali ainda era colônia francesa, e o pai dela, Mara-Siré Traoré, imigrou do Mali para a França aos 17 anos.

Assa e os 16 irmãos e irmãs fazem parte de uma família próxima na qual as conversas misturavam o francês com os idiomas soninquê e bambara. O pai dela se casou com quatro mulheres — duas brancas católicas de quem se divorciou e duas malinesas muçulmanas com quem ele viveu ao mesmo tempo, conforme permitido pela lei islâmica, apesar da proibição à poligamia na França.

Quando ele morreu de câncer em 1999, Assa tinha 14 anos. Sendo a filha mais velha ainda em casa, ela assumiu as rédeas da família, ajudando a mãe, Hatouma, que não era fluente no francês e, ao mesmo tempo, estudando para ser professora de educação especial. “Ela assumiu praticamente o papel de mãe dos meus irmãos e irmãs", disse Lassana Traoré, 43 anos, um dos irmãos mais velhos, que viu nessa experiência as bases da liderança que ela demonstra hoje.

Assa Traoré disse que ajudar meninos em subúrbios desfavorecidos como parte do seu trabalho com educação especial a fez perceber que os homens negros e árabes — a quem ela chama de “nossos irmãos” — se tornavam alvo da polícia quando alcançavam a adolescência, fenômeno documentado em relatório da Human Rights Watch no mês passado. “Dizer que os homens importam, que as vozes deles contam, é uma parte da nossa luta", disse Assa. “Temos que seguir lutando para que todas as mulheres do mundo tenham os direitos que merecem. Mas quem está lutando pelos homens, quem os está defendendo?”

Ela disse ter se inspirado em Les Misérables, filme indicado ao Oscar do diretor francês Ladj Ly retratando a violência policial contra adolescentes negros e árabes em um subúrbio de Paris. “Se esses homens tivessem mais visibilidade, quem sabe meu irmão estivesse vivo hoje", acrescentou ela.

Adama, meio-irmão dela, morreu no pátio de uma delegacia em 19 de julho de 2016, em um episódio cujas circunstâncias ainda estão em disputa. Adama Traoré foi derrubado e segurado por três policiais, um dos quais reconheceu posteriormente que eles colocaram “todo o peso do corpo” sobre ele, durante uma verificação de identidade que acabou em tragédia.

Adama Traoré teria dito que não conseguia respirar, e provavelmente desmaiou ao ser transferido até a delegacia em Persan, cidadezinha ao norte de Paris, onde foi declarado morto duas horas mais tarde. Autópsias conflitantes indicaram ataque cardíaco ou sufocamento como causa da morte, mas, depois de muita investigação, ainda não se sabe ao certo o que ocorreu. Nenhuma acusação formal foi feita contra os policiais que a família Traoré indica como assassinos de Adama.

“Disse a mim mesma que a morte dele não seria apenas uma nota no jornal", disse Assa Traoré. “Não podemos esquecê-lo e fingir que foi só mais alguém que morreu no verão.” Assa disse que o vídeo do assassinato de Floyd ajudou a “ilustrar” o que houve com seu meio-irmão. “Agora as pessoas entendem como meu irmão morreu", disse ela.

Para Julien Talpin, sociólogo do Centro Nacional de Pesquisa Científica, ela se tornou “uma figura política central” com quem muitos negros, esquecidos pelos partidos franceses, podem se identificar facilmente. O ativismo de Assa enfureceu a mídia francesa de direita, que a acusam de tentar destruir a sociedade francesa colocando as comunidades branca e negra uma contra a outra. Ela também se tornou alvo das autoridades francesas.

Recentemente, ela deu entrada em um processo de difamação contra o chefe de polícia de Paris e recusou um convite da ex-ministra da justiça, Nicole Belloubet, para uma reunião, dizendo que “a justiça não deve ser feita em uma sala de chá do Palácio do Eliseu". “Foi estabelecido um confronto", disse Assa. “É uma pequena vitória, mas não é uma pequena vitória o que queremos.”

 TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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