EFE/ Michael Klimentyev/POOL
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Assad é o maior problema da Rússia na Síria

O presidente russo, Vladimir Putin, descobriu que deixar o conflito sírio é uma tarefa mais difícil do que pensava

Neil Macfarquhar, The New York Times

16 Março 2018 | 10h00

MOSCOU - Sentando-se com o presidente da Síria, Bashar Assad, no final do ano passado, um enviado do alto escalão do Kremlin descreveu os benefícios futuros conforme Moscou conduzisse o conflito sírio para um acordo político.

Mas Assad, segundo um diplomata árabe informado sobre o encontro, interrompeu o russo, perguntando que razão haveria para uma solução política de qualquer espécie com o governo sírio tão próximo da vitória.

Quase dois anos e meio depois de intervir com suas forças armadas para ajudar Assad, o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, encontra-se encalhado na Síria. Embora a intervenção de Putin tenha estabelecido o Kremlin como participante importante no Oriente Médio pela primeira vez em décadas, retirar a presença da Rússia na Síria está se mostrando uma tarefa muito mais difícil do que ele tinha imaginado.

O problema é que Moscou associou demasiadamente o próprio destino ao de Assad.

Putin não pode se retirar nem pressionar por uma mudança política real na Síria sem correr o risco de levar ao colapso o governo de Assad, o que prejudicaria tanto o esforço para reduzir a influência dos Estados Unidos na região quanto o prestígio de Putin. Consciente de seu poder de barganha, Assad resiste às tentativas russas de levá-lo a fazer concessões.

Neste equilíbrio infeliz, a guerra se arrasta com consequências desconhecidas para Moscou. Em toda a Síria, a inflamável mistura de forças armadas, incluindo as russas, traz o risco de ampliar a violência e aprofundar o envolvimento da Rússia. Ao mesmo tempo, uma concorrência que ganha ares de rivalidade com o Irã na disputa pelas licitações de reconstrução traz o risco de desgastar a aliança entre eles.

Em Moscou, analistas repararam em opiniões dissidentes dentro do governo russo em relação à política para a Síria. Uma facção prefere consolidar o prestígio reforçado conquistado pelo exército e deixar o país, enxergando a derrota do grupo militante Estado Islâmico no ano passado como uma oportunidade perdida de encerrar a missão. A facção mais aguerrida acredita que é mais vantajoso para a Rússia que a Síria permaneça como uma ferida aberta.

Do ponto de vista profissional, os oficiais são substituídos a cada três meses, acumulando experiência no campo de batalha, promoções e aumentos de salário. O conflito também serviu como vitrine para as armas russas, principal artigo de exportação do país depois do petróleo.

A Rússia também luta para conter suas diferenças com o Irã. Estrategicamente, Moscou e Teerã concordam no sentido de preservar o governo sírio existente.

Mas as fissuras estão aparecendo, conforme a era da reconstrução aparece no horizonte. Setores importantes da economia terão de ser reconstruídos, principalmente a exploração do petróleo e do gás, fosfato, usinas de energia, um novo porto e uma terceira operadora de celular.

O Irã pensou que tinha garantido a execução de projetos importantes com uma série de memorandos assinados no início de 2017. Mas Dmitri O. Rogozin, vice-primeiro-ministro russo, reivindicou alguns destes durante uma visita em dezembro, de acordo com o diplomata árabe, que falou sob condição de anonimato.

As queixas de ambos os países indicam que a questão ainda está em aberto. Mas, apesar de suas demandas, Rússia e Irã não podem arcar com o custo de reconstrução da Síria, estimado em mais de US$ 200 bilhões. Em vez disso, ambos os países parecem interessados em atuar como agentes de empresas privadas ou outros países.

A maioria dos participantes árabes e ocidentais apostaram seu investimento na condição de uma reconciliação política. Os especialistas dizem que a Rússia insiste em afirmar que o diálogo político segue vivo em parte porque isso é necessário para convencer a União Europeia e outros doadores ricos.

O fantasma do Afeganistão, que se tornou um atoleiro militar para a União Soviética nos anos 1980 e ajudou a acelerar o fim do país, paira sobre a Síria. Mas o nível do envolvimento russo é muito mais baixo, tanto em termos financeiros quanto em vidas perdidas, o conflito é menos visível no país e, por enquanto, não é um problema para o russo médio.

A Rússia espera, em algum momento, negociar um acordo de paz com os EUA que consolide o novo papel do Kremlin no Oriente Médio. Entretanto, a espera traz o risco de a Rússia ser aprofundar cada vez mais no conflito por causa de uma faísca inesperada numa das muitas frentes tensas. / Colaboração de Sophia Kishkovsky, Thomas Erdbrink e Hwaida Saad.

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