(The New York Times)
(The New York Times)

Assassinato de jornalista é teste para Malta

Organizações de mídia apuram pautas levantadas por ela sobre redes de corrupção e lavagem de dinheiro

Nicholas Kulish, The New York Times

27 Abril 2018 | 10h00

BIDNIJA, Malta - No dia 16 de outubro, às 1h41 da madrugada, um chip de celular foi ativado neste vilarejo no interior de Malta. De acordo com os investigadores, esse foi o momento em que uma bomba de TNT ativada por controle remoto foi armada e colocada sob o assento principal do carro da jornalista mais provocadora do país.

Na tarde seguinte, a jornalista Daphne Caruana Galizia saiu de sua casa e caminhou na direção do seu Peugeot 108, determinada a recuperar o acesso à sua conta bancária. Seus bens tinham sido congelados como decorrência de um processo por difamação, um dos 47 processos aos quais ela respondia na justiça. Este estava ligado a um artigo que ela tinha publicado em seu blog a respeito do ministro da economia de Malta, Christian Cardona, e uma suposta visita a um bordel na Alemanha durante uma viagem oficial.

O filho dela, Matthew, ouviu uma explosão, e em seguida encontrou os escombros, ainda em chamas.

A morte de Daphne atraiu a atenção internacional para esta ilha e revelou que um destino turístico conhecido por ser uma das locações de “Game of Thrones” era também um ponto na rota do tráfico de combustível vindo da Líbia, um centro da indústria da jogatina online e um paraíso de atividade bancária que estaria ligada à lavagem de dinheiro.

A busca pelos assassinos dela se revelou um teste para Malta, seus partidos políticos e instituições, e para a União Europeia, da qual Malta faz parte.

Três homens foram acusados pela instalação e detonação da bomba. Mas, meses depois, o responsável pela produção da bomba e o(s) mandante(s) do crime não foram localizados.

“O brutal assassinato de Daphne Caruana Galizia teve como objetivo instigar o medo em todos", disse uma delegação do Parlamento Europeu num relatório publicado em janeiro, “em especial aqueles envolvidos na investigação e julgamento de casos de corrupção e lavagem de dinheiro".

Após a morte dela, 45 jornalistas de 18 organizações de mídia concordaram em apurar pautas levantadas por ela em seu trabalho de investigação das redes de corrupção e lavagem de dinheiro, bem como as circunstâncias de sua morte. A iniciativa foi coordenada pela organização sem fins lucrativos Forbidden Stories, com sede em Paris e dedicada à conclusão do trabalho de jornalistas mortos ou presos. O New York Times participou do projeto.

Os homens acusados pelo assassinato, os irmãos George e Alfred Degiorgio, e Vincent Muscat (sem parentesco com o primeiro-ministro Joseph Muscat) se declararam inocentes, e permanecem sob custódia. Entre as alegações repassadas pela família da vítima aos investigadores estaria a informação segundo a qual Cardona, o ministro da economia, e dois dos suspeitos do assassinato seriam frequentadores habituais do mesmo bar.

Cardona disse que o bar Ferdinand’s “recebe fregueses de todo tipo, incluindo outros políticos". Ele acrescentou, “Eu, no entanto, não lembro de nenhuma conversa com esses indivíduos, e garanto que jamais me reuni com eles". Ele disse que não prestou depoimento no caso.

Uma pessoa informada a respeito do inquérito que não tinha autorização para falar em público a respeito do assunto confirmou que a polícia não estava investigando a possibilidade de o assassinato estar ligado ao trabalho de reportagem da jornalista a respeito de políticos.

“Temos agora um clima de impunidade, uma cultura de impunidade", disse Simon Busuttil, ex-líder do Partido Nacionalista, de oposição. “Com isso, todos pensam que um assassinato acabará impune", acrescentou, “talvez literalmente".

Daphne dedicou-se à investigação do que ela descrevia como uma rede de corrupção em Malta, publicando em seu blog, Running Commentary. Sua publicação a respeito de Cardona somava 547.146 visualizações; Malta tem 460.000 habitantes. Mas Jeffrey Pullicino Orlando, ex-deputado que foi investigado pelo blog dela, disse que o Partido Trabalhista, que ganhou as eleições depois de ela ter revelado a existência de contas no exterior, não teria nada a ganhar com a morte dela.

A família impediu os investigadores de examinarem o laptop de Daphne.

“Daphne jamais entregaria seu laptop", disse a irmã dela, Corinne Vella. “É necessário proteger as fontes dela. Ela sabia que as informações obtidas pela polícia logo chegariam às pessoas do governo que ela estava investigando.”

Mais conteúdo sobre:
Malta [Europa]jornalismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.