Cristina Baussan / The New York Times
Cristina Baussan / The New York Times

À medida que mulheres indígenas desaparecem, a indignação aumenta

Em 2019, 5.590 mulheres indígenas foram declaradas desaparecidas para o Centro Nacional de Informação de Crimes, do FBI; famílias exigem respostas

Jack Healy e Cristina Baussan, The New York Times

19 de fevereiro de 2020 | 06h00

CONDADO DE BIG HORN, MONTANA – Jackie Big Hair dormiu em seu carro durante dias, despertando de hora em hora para dar partida no motor do carro num congelante ponto de parada da rodovia, onde sua filha de 16 anos desapareceu. “Tenho de ficar aqui”, disse Jackie, de 50 anos. “Não sei para onde mais ir”.

Ela fazia sua vigília, junto com as buscas na cidade de Billings, a 50 quilômetros de distância, três semanas depois de sua filha mais jovem, Selena, desaparecer em um trecho deserto da interestadual no condado ao sul de Montana onde 65% da população é americana nativa.

Policiais disseram que uma van que levava a menina para casa um dia depois da festa de Ano Novo em Billings estacionou naquele ponto de parada depois de uma pane e depois teria continuado o trajeto, mas sem ela dentro do veículo.

Em dois de janeiro, a polícia e familiares de Selena confirmaram que seu corpo foi encontrado a menos de um quilômetro daquele local. Posteriormente as autoridades declararam que autópsia preliminar indicou que ela morreu de hipotermia e que a investigação teria prosseguimento.

Seu desaparecimento – o 28º de memória recente no condado Big Horn – provocou um clamor nacional contra os assassinatos e desaparecimentos de mulheres indígenas.

Por décadas, esses desaparecimentos caíram na obscuridade. Mas há alguns anos policiais e políticos têm sido forçados a prestar atenção nos casos, com as histórias de famílias de entes queridos que caíram nas mãos de traficantes sexuais ou foram assassinados e os crimes ficaram impunes ou foram descartados como fugas, ganharam força por meio de organizações comunitárias e pelas redes sociais.

No ano passado, 5.590 mulheres indígenas foram declaradas desaparecidas para o Centro Nacional de Informação de Crimes, do FBI. Segundo membros da polícia, são casos extremamente difíceis de investigar, às vezes abrangendo vastas áreas do território, mas dizem estar comprometidos com sua solução. Para as famílias, o problema é mais uma questão de vontade e recursos do que dificuldade. “As mulheres indígenas têm sido desumanizadas desde o princípio”, afirmou Desi Rodriguez-Lonebear, demógrafo do condado de Big Honr.

Agora, as famílias das vítimas vêm exigindo respostas mais agressivas. E o alarme vem sendo dado pelas redes sociais, com as pessoas organizando vigílias à luz de velas, manifestando diante de tribunais e delegacias de polícia, realizando protestos. “Estamos aqui para exigir”, apontou a tia de Selena, Cheryl Horn, durante a busca. “Não ficamos calados”.

Algumas famílias perguntam por que as mortes e desaparecimentos de suas mães, irmãs e sobrinhas não provocaram um clamor similar. BethYana Pease, organizadora da comunidade Crow, listou os nomes de pessoas que, segundo ela, nunca obtiveram justiça: Henny Scott, de 14 anos de idade, encontrada morta semanas depois de desaparecer, em dezembro de 2018. Bonnie Three Irons, mãe de seis filhos cujo corpo foi encontrado nas montanhas em abril de 2017. Ou Kaysera Stops Pretty Places, de 18 anos. No fim de agosto, ela saiu com amigos em sua cidade natal, Hardin. Quatro dias depois um corredor encontrou o corpo da jovem próximo da casa onde ela esteve naquele dia.

Sua família acredita que ela foi assassinada, mas a causa da morte não foi determinada. O caso é classificado como “suspeito” e as investigações ainda continuam, segundo o procurador do condado, Jay Harris.

As histórias e Kaysera e Selena se entrecruzaram. Quando a família da jovem liderou as manifestações diante do tribunal, Selena participou, lembrou Horn, sua tia. Na vigília por Selena, uma das tias-avós da jovem usava uma camiseta estampada com o rosto de Kaysera. “Esta é a justiça que Kaysera não teve”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINHO

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